Grammy 2020

Aos 18, Billie Eilish faz história no Grammy 2020 com disco gravado em casa

Jovem artista norte-americana vence as principais categorias do prêmio musical. Os espanhóis Rosalía e Alejandro Sanz dominam entre os latinos

O Grammy 2020 coroou a dupla formada por Billie Eilish e seu irmão Finneas O’Connell como os artistas com maior impacto na indústria no ano passado. Billie Eilish levou o prêmio de revelação da indústria musical nos Estados Unidos. Bad guy é a canção do ano e a gravação do ano. O disco When We All Fall Asleep, Where Do We Go? é o melhor álbum de pop vocal contemporâneo, a categoria em que a Academia decidiu encaixá-la. A classificação meio que tanto faz: também ganhou como álbum do ano em geral. Finneas O’Connell triunfou pela produção do disco e levou o cobiçado prêmio de produtor do ano.

Billie Eilish fez história ao ganhar as quatro categorias gerais dos prêmios Grammy num mesmo ano. Só aconteceu duas vezes em 62 edições do troféu. O anterior foi Christopher Cross em 1981. Adele ganhou as quatro categorias, mas em anos diferentes.

Os dois irmãos gravaram o disco literalmente dentro de casa, no bairro de Highland Park, em Los Angeles. Pertencem a uma geração que grava música em suas casas, produz por conta própria e a compartilha diretamente nas redes, enquanto os selos fonográficos correm atrás. Isso, que já era uma realidade no hip hop, está se transferindo a toda velocidade para o pop. “Fazemos música juntos em nosso quarto”, disse O’Connell no palco. “E continuamos a fazer. Isso é para toda a garotada que faz música no seu quarto. Vocês ainda vão ganhar um destes”, disse com o Grammy na mão.

Antes de arrasar no Grammy, Billie Eilish já tinha feito história ao ser a pessoa mais jovem a ser indicada nas quatro categorias principais. As nomeações foram anunciadas quando ela tinha 17 anos, e ela se apresentou na cerimônia com 18. A edição deste domingo foi a primeira em que havia duas artistas indicadas nas quatro categorias, Eilish e a rapper Lizzo.

Esta foi a outra grande da noite, com três prêmios. Fez jus ao seu personagem público com suas primeiras palavras ao receber um dos troféus: “Isto é uma puta loucura”. Nascida em Detroit e criada no Texas, em apenas dois anos de sucesso comercial Lizzo, uma artista que chegou a morar dentro de um carro durante anos antes do sucesso, virou em um símbolo de superação e energia positiva. O primeiro verso de seu hit Truth Hurts (“fiz um exame de DNA, deu que eu sou 100% vagabunda”) é uma das frases do ano na música.

Nas categorias de música latina, a espanhola Rosalía ganhou o prêmio de melhor álbum de música urbana ou alternativa latina por El Mal Querer, a obra que a catapultou ao status de artista global e a levou ao palco do Grammy. Ganhou sobre os discos de Bad Bunny e J Balvin. O melhor álbum de pop latino foi para Alejandro Sanz, por #ELDISCO. Sanz já soma quatro na carreira. Ambos vinham de triunfar no Grammy Latino, em novembro passado, e havia poucas dúvidas de que seus trabalhos eram os discos do ano em espanhol.

O impacto de Rosalía nos Estados Unidos, entretanto, merece menção à parte. A indústria fonográfica norte-americana, as redes de rádio e os adolescentes abraçaram sem rodeios sua proposta de flamenco urbano. Foi a primeira artista da história indicada ao prêmio cantando em espanhol. Compartilhar categoria com Eilish e Lizzo, além de atuar para dezenas de milhões de espectadores no palco do Grammy, já era por si só o indicador de um status na música popular dos EUA que talvez só possa ser comparado a Enrique Iglesias. Sobre o palco deixou uma atuação radicalmente flamenca com Juro que, seguida do seu megahit Malamente.

Entre os outros vencedores, Igor, do Tyler the Creator, é o melhor disco de rap para a indústria; Social cues, de Cage the Elephant, é o melhor disco de rock; Father the Bride, do Vampire Weekend, é o melhor disco de música alternativa; No geography, do Chemical Brothers, é o melhor disco de música eletrônica; e Venture, de Anderson Paak, é o melhor disco de R&B. Merece especial menção Gary Clark Jr., que é o artista do ano em rock com o prêmio de melhor canção (This Land), melhor álbum de blues contemporâneo e melhor interpretação de rock.

O Grammy na verdade é um show televisionado de três horas com os melhores artistas do ano. No capítulo das performances, as mais celebradas foram a de Ariana Grande, que não esteve na cerimônia do ano passado por desavenças com a direção da Academia; do Aerosmith, com Run DMC; e de Lil Nas X, que apareceu para cantar o sucesso Old Town Road acompanhado por Billy Ray Cirus, os coreanos BTS, mais Mason Ramsey, Diplo e Young Thug. Esses e a canção que Camilla Cabelo dedicou ao seu pai (First Man) certamente serão os momentos YouTube desta cerimônia.

O Grammy foi entregue no Staples Center de Los Angeles, a mesma arena onde Kobe Bryant jogou por 20 anos pelo Los Angeles Lakers. A morte repentina de Bryant num acidente de helicóptero caiu como uma bomba sobre a celebração da indústria fonográfica. A lenda do basquete era uma das maiores celebridades da cidade. Em frente ao ginásio, centenas de pessoas se concentravam num velório improvisado na rua para recordar seu ídolo. Muitos dos que sorriam e ostentavam seus trajes no tapete vermelho eram amigos de Bryant e apenas horas antes estavam transmitindo suas condolências à família.

Na primeira atuação da noite, Lizzo gritou “Esta noite é para o Kobe”, antes de começar Cuz I love you e Truth hurts. Depois, quando surgiu para apresentar uma das cerimônias mais espetaculares de Hollywood, Alicia Keys tinha uma expressão muito séria. “Para sermos honestos, todos sentimos uma tristeza enorme. Nesta manhã, Los Angeles, a América e todo o mundo perderam um herói. Nesta noite estamos sobre a casa que Kobe Bryant construiu”, disse. Depois, cantou It’s So hard to say goodbye com Boyz II Men, em homenagem a Bryant e à sua filha Gianna, de 13 anos, que também morreu no acidente. Foi a primeira de muitas homenagens que virão em uma cidade que neste domingo não sabia se cantava ou chorava, ou as duas coisas.