Invasão de capivaras agita a guerra de classes na Argentina

Presença crescente dos roedores no condomínio exclusivo Nordelta, ao norte de Buenos Aires, reativa as vozes favoráveis a uma lei de uso dos pantanais e desencadeia um debate público sobre os privilégios dos ricos

As capivaras caminham ao lado das casas do condomínio Nordelta, 40 quilômetros ao norte de Buenos Aires.
As capivaras caminham ao lado das casas do condomínio Nordelta, 40 quilômetros ao norte de Buenos Aires.Gustavo Iglesias
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Há pouco mais de 20 anos, o Nordelta, um dos condomínios privativos mais exclusivos da Argentina, era um pantanal. A construção de casas com jardins nessa região do delta do Paraná, em que hoje moram por volta de 40.000 pessoas, alterou o hábitat de numerosas espécies, entre elas as capivaras. Os roedores, cuja população por ali é de aproximadamente 400 animais, hoje procuram nos gramados e nas plantas decorativas o alimento que não encontram no outro lado e passaram a ser motivo de preocupação para alguns moradores ao se transformar no centro de um debate sobre o avanço humano nos pantanais, além de uma fonte inesgotável de memes sobre a suposta luta entre os ricos e os animais.

A capivara é o maior roedor do mundo. Os adultos podem chegar a pesar até 60 quilos e medir 1,30 metro de comprimento. São vegetarianos, anfíbios e vivem em colônias. Os moradores do Nordelta estão acostumados à convivência com os animais, que até mesmo dão nome a um dos 24 bairros em que está dividido o grande condomínio construído 40 quilômetros ao norte de Buenos Aires, com vistas ao rio e docas exclusivas. No entanto, denunciam que, nos últimos meses, o número de animais cresceu, levando os bichos a protagonizar danos aos jardins, ataque a animais de estimação e até mesmo acidentes de trânsito.

“Quero que retirem as capivaras porque atacaram meu cachorro no meu próprio jardim. Quase o matam”, afirmou uma moradora ao jornal Clarín. “Morderam sua barriga e as pernas. Agora meu cachorrinho não quer mais sair. Treme o tempo todo e meu jardim, mesmo cercado, continua sendo invadido pelas capivaras”, acrescentou a mulher.

A Associação de Moradores do Nordelta denuncia que “a atividade dos animais cresceu 17% somente no último ano”, o que fez com que alguns moradores estejam “muito preocupados pela ação das capivaras”, enquanto outros “pensam na preservação sem mudanças da fauna como primeira premissa”. Moradores como Gustavo Iglesias dizem que viveram em harmonia com os animais durante uma década, mas que, a partir de 2019, houve “um crescimento explosivo da quantidade de animais”, o que continuou no ano seguinte. Diz, também, que há o risco de que “o número possa duplicar e sextuplicar em um ou dois e três ou quatro anos, respectivamente, caso uma boa quantidade dos animais não seja retirada”. Para lidar com a situação, pediram a intervenção da Direção de Fauna e Flora da província de Buenos Aires.

“Nos últimos anos ocorreu uma destruição importante de áreas que não eram ocupadas, foram desmatadas para construir e as capivaras não têm outra opção além das regiões com casas em sua procura por novos espaços”, alerta a pesquisadora do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas da Argentina (Conicet) María José Corriale.

A proliferação de capivaras ativou a discussão sobre o avanço dos grandes condomínios privados em terras virgens. Mas, também, agitou um outro debate: o dos ricos que se isolam em áreas exclusivas sem respeitar a natureza ao redor. As capivaras se transformaram, dessa forma, na linha de frente de uma guerra de classes que, sinal dos tempos, foi travada nas redes sociais. Os roedores protagonizaram centenas de brincadeiras e memes virais em que são vistos lendo O Capital, transformados em ‘Capi-Marx’ armados como guerrilheiros, respeitando a distância social melhor do que os humanos e apontados como candidatos a estampar a (ainda não existente) nota de 2.000 pesos por serem “patriotas da natureza argentina”.

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O fato de a invasão ter ocorrido no Nordelta alimentou ainda mais a polêmica. É símbolo de um paraíso construído para milionários, onde moram grandes empresários, artistas, atletas e todo aquele que pode ter uma boa renda. Em 2017, o país viu viralizar o áudio de uma moradora que se queixava de que no Nordelta havia moradores que “não são pessoas ruins, mas que vêm de bairros visivelmente não muito bons”. “Eu quero descansar visualmente, porque tenho valores morais e estéticos”, dizia, traçando um perfil duro das classes altas na Argentina. Tempos depois foi divulgado o protesto de uma empregada doméstica que era proibida de tomar o ônibus com os moradores. As capivaras só reavivaram a chama da “esnobe do Nordelta”.

Enquanto isso, os especialistas tentam resolver o impacto ambiental. Adelmar Funk, especialista em fauna, concorda com María José Corriale: “A capivara come a vegetação de rios e lagoas, o pasto tenro que cresce com a umidade do solo. Com tanta carga animal, é provável que o pasto da margem não seja suficiente e elas tenham o bairro ao lado, com pessoas que plantaram jardins e hortas”. Na sua opinião, a ausência de predadores permitiu que a população de capivaras crescesse acima do que ocorreria em um hábitat selvagem. Além disso, a atitude de alguns moradores agravou o problema: “Algumas pessoas, em vez de espantá-las, exergavam os animais como um bicho pitoresco, simpático e começaram a gerar uma relação que não é natural. Aparecem em imagens dando beijinhos, dividindo a piscina e passeando com elas como se fossem cachorros. Os animais, desse modo, mudaram seu comportamento, deixaram de temer os humanos e conquistaram seu ambiente”, afirma.

Para os dois especialistas, enviar os animais para um outro lugar não é a solução. Por um lado, por conta de sua grandes dimensão, peso e pela dificuldade para capturá-los. Por outro, pelo impacto que os animais podem causar no novo local escolhido. “Acho que, no curto prazo, é preciso trabalhar com medidas que permitam a convivência com a espécie e focar em alguns conflitos como os acidentes de trânsito. Para evitá-los é possível diminuir a velocidade máxima permitida nas horas de maior atividade dos animais”, diz Corriale.

Funk aposta em quebrar a relação dos moradores com os animais, bem como colocar cercas nas casas para impedir a entrada dos bichos: “É provável que, ao faltar alimento nas margens e diante de uma restrição de acesso ao condomínio, os animais procurem outros lugares. Assim, conseguiríamos uma redução da população”.

O debate voltou a dar voz aos que pedem uma lei dos pantanais que detenha o avanço dos humanos sobre esses ricos ecossistemas, fundamentais como reserva de água doce, reguladores de inundações e casa de uma grande biodiversidade. No delta do Paraná, o segundo rio mais importante da América do Sul atrás do Amazonas, os pantanais são ameaçados pelos negócios imobiliários, mas, também, pelos incêndios provocados por ação humana para abrir caminho para a pecuária e a agricultura.

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