Câmara cassa deputada Flordelis, acusada de mandar matar o marido

Parlamentar alegou que não encomendou a morte de Anderson do Carmo e reclama por perder o mandato sem ter processo finalizado na Justiça: “Saio de cabeça erguida, sei que sou inocente”

A deputada federal Flordelis, ao fazer sua defesa no Plenário da Câmara.
A deputada federal Flordelis, ao fazer sua defesa no Plenário da Câmara.Cleia Viana/Câmara dos Deputados
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Brazilian Congresswoman Flordelis de Souza reacts as she talks about her husband, pastor Anderson do Carmo, who was shot more than 30 times at their home, at the Brazilian congress in Brasilia, Brazil, June 25, 2019. Picture taken June 25, 2019. Fernando Brazao/Agencia Brasil/Handout via REUTERS ATTENTION EDITORS - THIS IMAGE HAS BEEN SUPPLIED BY A THIRD PARTY.
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A Câmara dos Deputados cassou nesta quarta-feira o mandato da deputada federal Flordelis (PSD-RJ). A parlamentar é acusada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro de ser a mandante do assassinato do marido, o pastor Anderson do Carmo. Ele foi morto com 30 tiros em junho de 2019, na cidade em que morava com a deputada, Niterói. O placar acabou com 437 votos a favor da perda de mandato, sete contrários e 12 abstenções. Flordelis de Souza, de 60 anos, ficará inelegível e será substituída pelo suplente Jones Moura (PSD-RJ).

Para se cassar o mandato de um deputado, são necessários os votos de pelo menos 257 parlamentares. A votação é aberta. O plenário aprovou o relatório que veio do Conselho de Ética. Nele, o relator Alexandre Leite (DEM-SP) alegou que Flordelis usou de seu mandato para coagir testemunhas e ocultar provas. Conforme Leite, o Conselho de Ética não julgou se ela era culpada ou não pela morte do marido, mas se limitou a fatos considerados antiéticos.

A deputada esteve pessoalmente no plenário para apresentar a sua defesa. Ela disse ser inocente. “Caso eu saia daqui hoje, saio de cabeça erguida porque sei que sou inocente, todos saberão que sou inocente, a minha inocência será provada e vou continuar lutando para garantir a minha liberdade, a liberdade dos meus filhos e da minha família, que está sendo injustiçada”, afirmou. Ela ainda alegou que seus colegas se arrependeriam de tê-la cassado. “Quando o tribunal do júri me absolver, vocês vão se arrepender de ter cassado uma pessoa que não foi julgada”, disse Flordelis. Ela ainda reclamou que seus colegas a estavam julgando sem ter lido nada de seu processo e que quem deveria retirá-la do cargo eram os eleitores, não os deputados.

No Conselho de Ética, o delegado que investigou a parlamentar, Allan Duarte Lacerda, afirmou que ela manipulou seus filhos para assassinar o seu marido. “Ela era figura de autoridade máxima naquela casa. Era manipuladora, persuasiva e foi ela a responsável por arquitetar e arregimentar essas pessoas. Marzy, Simone, Rayane e Flávio [filhos da deputada] não teriam feito o que fizeram sem a chancela dela. Se ela diz que não deu a ordem, poderia ter dado a contraordem. E isso não foi feito, mesmo ela sabendo que havia um plano nítido para ceifar a vida dele”, declarou o policial.

Segundo esse delegado, ela só não teve o pedido de prisão preventiva decretado porque gozava da imunidade parlamentar. Ainda assim, Flordelis usou tornozeleira eletrônica, que acabou sendo violada ao menos oito vezes. Como deputada, a pastora Flordelis se alinhava à maioria das pautas bolsonaristas e atuou por dois anos na subcomissão de combate à pedofilia, adoção e família.

Inovação

Por ocasião da cassação de Flordelis, a Câmara alterou o rito para esse tipo de processo. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), informou que não será mais votado o relatório do Conselho de Ética no plenário, mas um projeto de resolução sobre o caso a ser analisado. A alteração permite que sejam feitas emendas para alterar a punição definida pelo colegiado. “Quem pode mais, pode menos. Ou seja, quem pode cassar pode suspender mandato e também pode absolver”, explicou Lira. Para apresentar uma emenda, o deputado precisará de 103 assinaturas de colegas, e um novo relator para o processo poderá propor uma pena alternativa à definida pelo Conselho de Ética. No caso de Flordelis, não foi apresentada nenhuma emenda.

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