Flordelis, uma vida de telefilme com um crime e uma acusação penal

Polícia acusa a deputada, pastora e cantora gospel de organizar o assassinato de seu marido, perpetrado por um dos 55 filhos do casal. Foi por motivos econômicos, segundo o delegado que comanda o caso

Flordeliz em 25 de junho de 2019.
Flordeliz em 25 de junho de 2019.AGENCIA BRASIL / Reuters

Quando Flordelis dos Santos, de 59 anos, enterrou seu marido, assassinado a tiros, estava no auge da sua carreira. Acabava de ser eleita deputada federal pelo PSD-RJ. Um grande triunfo para essa pastora evangélica e cantora gospel, famosa desde a década de 1990 por acolher crianças carentes em sua casa. Ela e seu inseparável marido, vários anos mais jovem, também pastor, formaram juntos uma imensa família de 55 filhos. Essa imagem de casal perfeito foi destruída pelo crime.

Durante o enterro, há um ano e meio, ela chorou desconsolada, enquanto vários parentes a ajudavam a se manter em pé. Ao final da cerimônia, quando um dos filhos foi detido como suspeito, ela defendeu a inocência do jovem. Nesta semana, a deputada Flordelis, como é conhecida, foi formalmente acusada de ser a mandante do homicídio do homem com quem construiu sua carreira política, religiosa e artística, Anderson do Carmo, morto aos 42 anos.

Chegar à vida dela como filho adotivo não impediu que mudasse de papel e se tornasse seu parceiro sentimental por duas décadas e meia ―e pai do resto da prole. Um dos filhos foi preso como autor confesso do crime; outro, por conseguir a pistola de onde saíram os 30 tiros. Outros sete rebentos e até uma neta acabaram atrás das grades como supostos cúmplices. Um final digno de série documental para uma carreira que há uma década inspirou um filme brasileiro de ficção. Os detalhes agora vazados à imprensa incluem visitas da deputada e do pastor a casas de swing e desenham um universo escabroso, em que chegaram a oferecer uma de suas filhas a líderes religiosos estrangeiros para que mantivessem relações sexuais.

Flordelis, que cresceu em uma das favelas mais duras do Rio, ficou famosa na década de 1990 quando adotou 37 meninos de rua que acabavam de sobreviver a uma chacina. Seu empenho em acolher crianças e adolescentes que até então viviam afundados na miséria, nas drogas e na prostituição fez dela uma personagem pública. E a partir daí sua carreira decolou. Veio o filme, vieram os CDs ―incluindo um disco de ouro― e, após vários fracassos na política, finalmente a entrada em grande estilo. Não conseguiu ser prefeita do Rio nem vereadora, mas, com 200.0000 votos, tomou posse no ano passado no Congresso Nacional. “Não estou preparada para ir para a cadeia, nem vou. Sou inocente e tenho certeza de que a minha inocência será provada nos próximos dias”, disse ela neste fim de semana em sua primeira entrevista após ser acusada.

“A principal motivação foi financeira”, afirma por telefone o delegado Allan Duarte, que dirige a investigação sobre o assassinato de Anderson do Carmo. “Ele era responsável pela gestão do dinheiro da família e administrava a carreira política, religiosa e artística dela. E ela não gostava de como ele a conduzia, então concebeu um plano macabro para tirar a vida dele.”

O trampolim a partir do qual a pastora/cantora deu o salto à política foi o Ministério Flordelis, uma igreja personalista criada pelo casal e que, no momento do assassinato do fundador, tinha três templos na periferia do Rio. Como várias outras denominações evangélicas, a igreja de Flordelis recebia quantias milionárias em dízimos dos fiéis. O pagamento costuma ser feito durante o culto, muitas vezes no cartão.

O delegado Duarte prefere não mencionar cifras concretas quando perguntado sobre o patrimônio familiar. Afirma desconhecê-las.

Flordelis é uma deputada irrelevante num Congresso onde abundam os caciques, os evangélicos somam um quinto dos assentos, e ela foi convidada a proferir um discurso no Dia Internacional da Adoção. Seguidora do presidente Jair Bolsonaro, apoiou iniciativas para que vários salões da Câmara sejam batizados em homenagem a mulheres com trajetórias destacadas.

Depois do crime, a primeira reação da viúva foi se mostrar desolada e atribuir o crime a desconhecidos que teriam assaltado a sua casa, um sobrado numa rua sem saída em Niterói. Lá o casal vivia com dezenas dos filhos, lá o pai foi assassinado, e lá ocorreu a maioria das detenções na segunda-feira passada. O delegado contou depois que Flordelis começou a chorar ao ver a chegada dos policiais, que não puderam detê-la por gozar de imunidade parlamentar.

A deputada decidiu matá-lo, segundo as investigações, porque queria ter o controle do dinheiro e da sua carreira. Separar-se de Anderson estava fora de cogitação, segundo afirmou em uma troca de mensagens com um dos filhos: “Fazer o quê? Não posso me separar dele, escandalizaria o nome de Deus”. A investigação policial também descobriu, como nos telefilmes, que Flordelis e os filhos tentaram envenenar seu marido pelo menos quatro vezes. Conseguiram que adoecesse, mas não chegaram a matá-lo. Passaram ao plano B, a pistola.

Sob essa fachada de generosidade e harmoniosa família, Flordelis fazia distinções claras entre seus filhos. “Parte da família planejou todo o crime, havia duas facções”, explica o delegado Duarte. Os quatro biológicos e os mais velhos entre os adotados eram considerados de primeira classe; conviviam com os pais, ocupavam postos na Igreja ou no gabinete parlamentar. O resto da garotada era de segunda classe.

Todos os acusados de participar do crime estão presos, menos a deputada, embora, segundo as investigações, tenha sido a mentora do plano, dado o dinheiro para comprar a arma e convencido os filhos a participarem. Só poderá ser posta sob prisão preventiva se o Congresso cassar seu mandato, o que não é frequente. Suas excelências estão sempre temerosas em estabelecer precedente. Não é de estranhar, levando-se em conta que há quatro anos mais de metade deles tinha contas pendentes com a Justiça, a maioria por corrupção.

Acusações de homicídio, no entanto, não são alheias ao Congresso. Uma das mulheres que Flordelis pede que seja homenageada é Ceci Cunha, uma deputada alagoana que foi assassinada em 1998 por ordem de seu suplente, Talvane Albuquerque, que chegou a ocupar brevemente a vaga. Exatamente um ano depois chegou à Câmara Hildebrando Pascoal, conhecido como “o deputado da motosserra”. Ele tentava que a imunidade parlamentar o salvasse de prestar contas à Justiça por liderar um grupo de criminosos que assassinava suas vítimas com métodos bárbaros. Meses depois, seus colegas o expulsaram do Congresso. Foi condenado a mais de um século de prisão, que ainda cumpre, mas em casa.

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