A unção suprema de Bolsonaro na principal festa evangélica do Brasil

É o primeiro presidente a participar da Marcha para Jesus, em um impulso à sua aliança com uma comunidade que já representa 30% dos brasileiros

Bolsonaro durante a Marcha para Jesus, nesta quinta.
Bolsonaro durante a Marcha para Jesus, nesta quinta. MIGUEL SCHINCARIOL (AFP)

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Bolsonaro vai por causa de uma promessa. No ano passado, o ultradireitista participou pela primeira vez. Ia ao maior evento evangélico do Brasil como presidenciável. Prometeu retornar como chefe do Estado se ganhasse. Evidentemente, é também um cálculo político. O contingente de evangélicos não para de crescer no Brasil. Eles já rondam 30% dos 200 milhões de habitantes. No Congresso Nacional, a bancada da bíblia acompanha essa expansão. Embora Bolsonaro seja católico —ainda nesta manhã visitou um monastério de Clarissas—, sua atual esposa é evangélica, assim como seus filhos. " “Vocês foram decisivos para mudar o rumo do Brasil", proclamou diante da multidão. “Todos sabem que nosso país tem problemas de ética, moral e econômicos. Mas sabemos que podemos ser o ponto de inflexão”. "Sou um presidente que diz que o Estado é laico, mas sou cristão", ressaltou.

O presidente declarou ainda que pode tentar ser candidato novamente na próxima eleição. "Se tiver uma boa reforma política eu posso até jogar fora a possibilidade de reeleição. Agora, se não tiver uma boa reforma política e se o povo quiser, estamos aí para continuar mais quatro anos", disse ele a jornalistas após o evento.

A Marcha para Jesus, organizada pela Igreja Renascer em Cristo, ocorre há 27 anos em São Paulo, sempre no dia de Corpus Christi, com a colaboração de outro punhado de denominações evangélicas. No ano passado, reuniu 1,5 milhões de fiéis. O presidente ultraconservador tem muito a agradecer aos neopentecostais, que nele depositaram majoritariamente a sua fé diante da urna. Nesse grupo, teve 68% dos votos, frente a 50% dos católicos. Na noite da sua vitória, seu primeiro gesto foi protagonizar uma oração televisionada com um pastor. Com ele, boa parte da agenda desse coletivo (heterogêneo, insistem os especialistas) chegou ao topo do poder.

Famílias, grupos de adolescentes, de jovens, casais… uma maré de fiéis se somou a esta imensa festa que combina música a todo volume, de grupos que cantam gospel e rock cristão nos tetos dos ônibus, danças coreografadas ou não, pregações de pastores, e oração. É como um carnaval onde o ardor religioso substitui o desenfreio. Sem álcool e com muito mais bandeiras do Israel que do Brasil. “É um dia em que temos liberdade para cantar, dançar e nos divertir. Na minha igreja de agora pode (dançar), mas a anterior era muito rigorosa”, conta a cabeleireira Maria Eduarda Martin, de 20 anos, que veio com algumas primas e outros familiares.

Os participantes ouvidos tinham mais vontade de falar de Deus — das respostas que lhes oferece, de como mudou suas vidas — que do presidente da República ou de política. Mas a enfermeira Rita Pereira, de 57 anos, está convencida de que “Deus escolheu Bolsonaro para transformar o Brasil”, que boa falta lhe faz, porque “estes são dias ruins. Tem muita miséria, muita corrupção, muita prostituição, muita gente perdida”.

Participantes na grande festa evangélica do Brasil nesta quinta-feira em São Paulo.
Participantes na grande festa evangélica do Brasil nesta quinta-feira em São Paulo.N.G.G.

Estes seis meses de Bolsonaro no Governo não representaram, porém, grandes mudanças para os fiéis comuns, como concordavam todos os entrevistados na marcha. Mas não culpam Bolsonaro e mantêm sua confiança nele. Palavras diferentes, mas a mesma conclusão. “Ainda não deu tempo para as melhoras, mas vai dar. Tem muita confusão no entorno dele”, segundo a enfermeira Pereira. “Ainda está pondo ordem na casa, tentando fazer mudanças, mas não depende só dele. Quem Governa o Brasil é o Congresso, os juízes… Nem tudo está na mão dele”, explica a nutricionista desempregada Maria Santos, de 51 anos.

Heterogêneos e mais próximos do poder do que nunca

A presença do presidente Bolsonaro na Marcha para Jesus é significativa para “o reconhecimento público deste grupo social e religioso e fortalece determinadas pautas defendidas pelos líderes” que impulsionam o evento, diz Ana Carolina Evangelista, cientista política e pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER). Salienta que se trata de um coletivo heterogêneo quanto a suas opiniões sobre questões sociais e os políticos com os quais se identificam, mas sustenta que “o capital social e político que a bancada partidária evangélica e líderes religiosos mobilizam neste Governo é muito significativo” e maior que sob outros presidentes. É uma conexão não só de cunho religioso, pois existe um alinhamento em políticas mais conservadoras principalmente em três dimensões: econômica, de segurança pública e moral.

As prioridades mencionadas pelos entrevistados coincidem com as dos brasileiros em geral: bons empregos, boa educação, boa saúde, mais segurança, acabar com a corrupção… ninguém menciona mudanças na lei do aborto (estipulando prazos para o aborto livre) ou o casamento gay.

A bancada evangélica é maior do que nunca: quase 90 dos 513 deputados. Mas tampouco forma um bloco homogêneo, insiste a especialista Evangelista. Ela alerta também que a relação desta comunidade e de seus líderes com o Governo sofre desigualdades, como demonstra o novo imposto sobre as igrejas que ele tentou introduzir — e foi depois retirado — e o decreto que facilita o porte de armas, um assunto que tinha e tem baixa aceitação entre os evangélicos.

A maioria dos evangélicos na marcha se incomoda com as acusações de homofobia. Eles consideram que as relações entre pessoas do mesmo sexo não são naturais, mas salientam que também são “filhos de Deus” antes de recorrer ao clássico “tenho amigos homossexuais”. Aproveitando o feriadão de Corpus Christi, todos os anos as ruas da metrópole são tomadas por multidões que representam Brasis bem diferentes. Neste domingo, a comunidade LGBT celebrará o Orgulho Gay, a maior parada desse tipo no mundo, como gostam de recordar os organizadores. Pela primeira vez, com um presidente que é abertamente hostil a eles. E tão amigo dos evangélicos.