Lázaro Barbosa é morto após cinematográfica caçada policial de 20 dias

Autor de chacina conhecido como “‘serial killer’ do DF” foi baleado na ação que o deteve e imagens mostram seu corpo alvejado por múltiplos disparos. Governador Ronaldo Caiado anunciou a prisão: “Meus cumprimentos a todas as forças de segurança”

Policiais durante as ações de busca por Lázaro Barbosa de Sousa em Cocalzinho, Goiás, no dia 22 de junho.
Policiais durante as ações de busca por Lázaro Barbosa de Sousa em Cocalzinho, Goiás, no dia 22 de junho.ADRIANO MACHADO / Reuters
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Chegou ao fim nesta segunda-feira uma caçada policial que mobilizou as atenções dos brasileiros por 20 dias. “Meus cumprimentos a todas as forças de segurança que ali interagiram, trabalharam com determinação para mostrar que a lei está acima de tudo”, anunciou o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), ao informar a prisão de Lázaro Barbosa, um criminoso de 32 anos investigado por matar quatro pessoas de uma mesma família em Ceilândia, no Distrito Federal, e por outros setes crimes cometidos em Goiás. Segundo o governador, houve troca de tiros entre os policiais e o foragido na hora da prisão, na cidade de Águas Lindas. A Polícia Civil de Goiás informou que o criminoso, que ficou conhecido com o “serial killer do DF”, morreu como consequência de um ferimento a bala na virilha. A reportagem teve acesso, contudo, a imagens que indicam ao menos 15 marcas de bala no corpo do criminoso. A ex-mulher de Lázaro chegou a ser levada à delegacia para prestar esclarecimentos, mas foi solta em seguida. Segundo a polícia, o criminoso passou alguns dias na casa de sua ex-sogra.

“Ele descarregou uma pistola, possivelmente 380, em cima do policiais”, afirmou o secretário de Segurança Pública de Goiás, Rodney Miranda, em entrevista coletiva horas depois da ação, ao justificar os disparos contra o alvo da operação policial. “Missão cumprida. Restabelecemos a paz e tranquilidade nessa comunidade de bem”, completou. Depois de ter sido baleado várias vezes, o criminoso foi levado por uma viatura do Corpo de Bombeiros para o Hospital Municipal Bom Jesus. A morte foi confirmada pela Polícia Técnico-Científica de Goiás e, às 11h10, uma viatura do Instituto Médico Legal (IML) chegou na unidade de saúde.

A atenção a Lázaro, que se embrenhou pela mata e provocou terror pelo interior de Goiás, se intensificou depois que ele foi apontado pela Polícia Civil do Distrito Federal como autor da chacina de uma família, num crime com características de A Sangue Frio, história contada em livro pelo escritor Truman Capote. Publicada em 1967, a obra relata vidas e mortes macabras de quatro membros da família do fazendeiro Herb Clutter, na cidade de Holcomb, oeste do Kansas, Estados Unidos.

Na cronologia descrita pela polícia e celebrizada pelo noticiário policial, Lázaro se tornou o homem mais procurado do país após matar o fazendeiro Cláudio Vidal de Oliveira, de 48 anos, e seus dois filhos, Gustavo Marques Vidal, 21, e Carlos Eduardo Marques Vidal, de 15. O crime ocorreu no dia 10 de junho na Fazenda Vidal, no Incra 9, Distrito Federal. Depois de abandonar os corpos dentro de um quarto, Lázaro teria arrastado a matriarca, Cleonice Marques de Andrade, 43, pela mata. O corpo dela foi encontrado três dias depois, próximo a um córrego, numa espécie de esconderijo do criminoso.

Sob o risco de o criminoso continuar cometendo assassinatos, uma força-tarefa foi montada assim que as fugas ultrapassaram a fronteira. Em Goiás, o secretário de Segurança Pública de Goiás, Rodney Miranda, montou um quartel-general para organizar um cerco infindável ao criminoso. Como disse Miranda, em repetidas e tumultuadas coletivas de imprensa em frente à escola utilizada como um certo gabinete de crise, cerca de 270 policiais, helicópteros, drones e cães farejadores foram colocados atrás de Lázaro.

Não demorou para que a busca apimentasse o campo político e causasse ciumeira entre o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), e o mandatário goiano, Caiado. Ibaneis afirmou que as forças de segurança estavam sendo feitas de “bobas”. Caiado, por sua vez, reagiu: “Não se atreva a desrespeitar policiais goianos”.

Caiado governa um dos estados mais visitados ―17 vezes― pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Duas delas neste junho complicadíssimo para uma força-tarefa desacostumada com a audácia de um criminoso acostumado à geografia local. A história do foragido, no entanto, se tornou um prato cheio para o discurso armamentista da população rural defendido pelo bolsonarismo. No dia 17, Bolsonaro, orgulhoso, disse: “Tem um maníaco na região do DF e Goiás cometendo barbaridade, matando gente, estuprando... Esse elemento tentou entrar numa chácara e foi repelido porque o cara tinha uma calibre doze lá dentro”. Bingo.

Ao invés de acalmar os ânimos da população do pequeno município de Cocalzinho de Goiás, que dedicou a Bolsonaro (então candidato do PSL) 63% dos votos (6.608) contra 36% (3.718 votos) de Fernando Haddad (PT) no segundo turno no pleito de 2018, o presidente ainda comentou: “Os bandidos estão armados, você não tem paz nem dentro de casa. Eu não consigo dormir, apesar de uma segurança enorme aqui no Alvorada, sem ter uma arma ao meu lado”.

A história de Lázaro agitou ainda mais as pautas bolsonaristas quando o noticiário destacou um benefício penal concedido ao criminoso, numa saidinha de Páscoa em 2016. Lázaro não voltou mais. Ao contrário, cometeu outros crimes, entre eles a chacina da família da fazenda Vidal. Enquanto Lázaro Barbosa não era preso em cercos cada vez mais improváveis, sua violência reverberava para além das fronteiras de Goiás. Hamilton Bandeira, de 23 anos, foi assassinado dentro de casa por policiais civis na frente do avô, um idoso de 99 anos, no dia 17 de junho. O jovem, que vivia em Presidente Dutra, no interior do Maranhão, havia feito uma postagem interpretada pelos policiais como apologia aos crimes do Lázaro. “Eu sou teu ídolo, Lázaro. Boa sorte”, dizia uma imagem compartilhada por Bandeira em seu perfil no Instagram. Ele tinha diagnóstico de deficiência intelectual e tomava remédios controlados.

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