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O assassino de ‘A Sangue Frio’ escreveu seu relato da matança

Truman Capote sabia da existência do texto de Richard Hickock e guardou silêncio. Meio século depois, o manuscrito é redescoberto nos EUA

Truman Capote teve concorrência no corredor da morte. Antes de ser enforcado, Richard Hickock, um dos assassinos retratados em seu livro A Sangue Frio, escreveu a própria versão da matança da família Clutter. Mas o texto, de umas 200 páginas, nunca chegou a ser publicado. Enquanto a reconstituição de Capote, símbolo máximo do Novo Jornalismo, alcançava a glória, o relato que o criminoso fez sobre os mesmos fatos se perdeu ao longo do tempo. Para isso contribuiu o próprio Capote. Megalomaníaco e ferozmente competitivo, ao saber da existência do manuscrito tentou comprá-lo e, depois de fracassar, guardou silêncio. Durante meio século, a versão do assassino permaneceu esquecida até que uma investigação de The Wall Street Journal voltou a trazê-la à luz.

Capote em seu quarto no hotel Ritz de Paris, em 1966
Capote em seu quarto no hotel Ritz de Paris, em 1966

No texto, Hickock submerge na noite de 15 de novembro de 1959 com a mesma frieza que no romance-reportagem de Capote. Não há arrependimento nem ocultação. Detalha o terror dos Clutters, pai, mãe e dois filhos adolescentes, ao se verem surpreendidos em sua fazenda solitária de Holcomb (Kansas) e como ele e seu companheiro Perry Smith os enganaram até o último momento, garantindo-lhes que nada aconteceria com eles. "Gostaria de ver o embalsamador tampar esse buraco". Hickock lembra de ter dito isso depois que Kenyon Clutter, de 15 anos, recebeu um tiro no rosto.

A grande diferença entre ambos os relatos reside na motivação. Em sua reconstituição, segundo a cópia à qual o jornal norte-americano teve acesso, Hickock sustenta que foi um crime encomendado. Não dá muitos detalhes. Um tal Roberts e 10.000 dólares de pagamento. Essa versão se choca com a assumida pelo juiz, e por Capote, que estabelece que Hickock e Perry foram à fazenda convencidos de que o pai escondia 10.000 dólares. Ao não encontrar o dinheiro, acabaram com toda a família.

Um texto sensacionalista

Agentes especiais transferem Richard Eugene Hickock (centro) do presídio de Las Vegas, em 4 de janeiro de 1960
Agentes especiais transferem Richard Eugene Hickock (centro) do presídio de Las Vegas, em 4 de janeiro de 1960 AP

A própria personalidade de Hickock, um pedófilo que se divertia atropelando cachorros nas estradas, e a falta de detalhes do argumento tiram credibilidade dessa motivação alternativa. "Hickock se desencantou com Capote. Quando o escritor começou a visitá-lo na prisão, acreditou que o iria ajudar. E quando viu que não, buscou sua própria via para ganhar dinheiro. Eu não acreditaria em nada de Hickock nem penso que o manuscrito contribua com nada significativo ao publicado por Capote", afirma o professor Ralph Voss, da Universidade do Alabama, autor da obra de referência Truman Capote and The Legay of "In Cold Blood" (Truman Capote e o Legado de "A Sangue Frio").

Já condenado à morte, o assassino entregou seu texto a um jornalista do Kansas chamado Mack Nations. Este ficou com duas cópias. A primeira enviou em 1962 a um advogado da Procuradora. A outra, depois de uma curta reelaboração, remeteu à editora Random House. Tudo sem sucesso. A Procuradoria nada fez com o documento. "Não acharia estranho que até mesmo o advertissem de que não deveria publicar nada", afirma Voss. E a editora, que havia assinado um contrato com Capote, lhe devolveu o texto.

Alertado do que ocorria, o escritor se mobilizou. Seu livro ainda não havia sido publicado e circulava um texto do próprio assassino. Horrorizado pela possível concorrência, Capote tentou por todos os meios obter a posse do manuscrito. Encontrou-se com Hickock e até entrou em contato por telefone com Nations para comprar o texto. Não teve êxito, mas o acaso jogou em seu favor.

Da imprensa ao romance e ao cinema

Em 1959, uma família de quatro membros, o casal Clutter e dois filhos adolescentes, morre assassinada em Holcomb, Kansas.

Depois de ler a notícia, Harper Lee, a autora de O Sol É Para Todos, decidiu acompanhar Truman Capote nas entrevistas.

Os dois assassinos procuravam 10.000 dólares.

Quando não os encontraram, cometeram o crime. Foram presos em 1960. Capote acompanhou o julgamento e comprou as gravações.

'A Sangue Frio' foi publicado em 1966 e um ano depois foi levado ao cinema por Richard Brooks.

Justo nessas datas, Nations foi preso por evasão de impostos e suborno. A única coisa que chegou a ser publicada de Hickock foi um resumo em uma revista já extinta. "Eu o li, e era um texto sensacionalista e de pouco valor", diz Voss. A partir daí os fatos se precipitaram. Em 14 de abril de 1965, Perry e Hickock foram enforcados com 38 minutos de diferença na penitenciária estatal do Kansas. No ano seguinte, A Sangue Frio alcançou fama mundial. E em 1968, Nations morreu em um acidente de carro. A única cópia que sobreviveu foi a que o advogado da procuradoria legou a seu filho.

Capote nunca fez referência ao texto. Como muitas coisas em sua obra, deixou no escuro. "Moldou a realidade à sua narrativa e evitou a parte homossexual da história, a relação entre Perry e Hickock, porque sabia que era contrária a seus desejos de conseguir um best seller. Mas isso não tira valor do livro. Passados 58 anos, você e eu continuamos falando dos Clutters", afirma Voss. A família do advogado não divulgou o que pensa fazer com o manuscrito. Por ora, ninguém quer a obra do assassino.

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