Protestos na Colômbia

Presidente da Colômbia militariza Cali e oito departamentos depois de mais um dia de violência

Um funcionário da Procuradoria Geral matou dois manifestantes que bloqueavam uma estrada e, em vingança, encapuzados o perseguiram e o lincharam

Protesto em Cali, na Colômbia, no último dia 19.
Protesto em Cali, na Colômbia, no último dia 19.LUIS ROBAYO / AFP
Catalina Oquendo|Santiago Torrado

Cali voltou a ser o epicentro da violência durante mais um dia de protestos na Colômbia. Diante da situação de caos da ordem pública, o presidente Iván Duque ordenou na noite de sexta-feira a militarização tanto da terceira maior cidade colombiana como do departamento do Vale do Cauca, onde morreram pelo menos seis pessoas. Horas depois, o Executivo também anunciou “assistência militar” para a polícia de outros 7 dos 32 departamentos do país.

Mais informações

“Começa a mobilização máxima de assistência militar à Polícia Nacional em Cali e no Vale”, disse o mandatário depois de viajar para Cali, cidade de mais de 2 milhões de habitantes no sudoeste da Colômbia, onde entrou em vigor um toque de recolher noturno. “Essa mobilização será liderada por oficiais da mais alta experiência. E nos levará a triplicar nossa capacidade em todo o departamento, garantindo assistência em pontos nevrálgicos onde vimos atos de vandalismo, violência e terrorismo urbano de baixa intensidade”, acrescentou.

Em um breve pronunciamento, Duque afirmou que não permitirá bloqueios de estradas: “[Temos] o desbloqueio como princípio, como medida de proteção de todos os cidadãos”, com mais de 7.000 homens destacados para essa tarefa. “Sempre mantivemos canais de diálogo diante das necessidades da população no marco da Constituição, mas não negociando os direitos dos cidadãos. Não podem existir ilhas de anarquia”, disse o presidente, acrescentando que as Forças Armadas devem agir contra atos de vandalismo “que ameacem a tranquilidade”. Vários assassinatos e confrontos entre manifestantes e civis armados levaram Duque a viajar para Cali, presidir um conselho de segurança com as autoridades locais e anunciar a mobilização militar. Na madrugada deste sábado, o presidente baixou um decreto estendendo a assistência militar aos departamentos de Cauca, Nariño, Huila, Norte de Santander, Putumayo, Caquetá e Risaralda

Um dos casos mais graves ocorreu na manhã da sexta-feira, no bairro La Luna, onde morreram três pessoas. O presidente não fez referência a nenhuma dessas vítimas em seu discurso. Vídeos divulgados em redes sociais mostram um funcionário da Procuradoria Geral, armado e com roupas civis, fugindo após ter atirado em dois manifestantes. Em vingança, um grupo de encapuzados o persegue e o lincha até a morte. O procurador-geral da Colômbia, Francisco Barbosa, confirmou que se tratava de um funcionário dessa entidade, mas disse que não estava de serviço. “Fredy Bermúdez estava vinculado ao Corpo Técnico de Investigações e, de acordo com informação obtidas até o momento, disparou contra várias pessoas, causando a morte de alguns civis”, afirmou Barbosa.

Segundo as versões que circulam em Cali, Bermúdez teria se irritado com o bloqueio de uma estrada e usou sua arma de serviço contra os manifestantes. Os vídeos mostram um dos jovens assassinados no asfalto. “Essa situação surgiu entre aqueles que bloqueavam uma via e aqueles que queriam passar. O confronto trouxe essa situação maluca de morte e dor”, disse o prefeito de Cali, Jorge Iván Ospina, pedindo calma e diálogo. O escritório da ONU para Direitos Humanos confirmou outras duas mortes em Cali durante a madrugada. Na cidade de Candelaria, também no Vale do Cauca, um jovem que pertencia à chamada “linha de frente” de manifestantes foi morto. Segundo o prefeito local, Jorge Eliecer Ramírez, ocorreu um “confronto entre a comunidade e os jovens estavam nas barricadas”. A governadora Clara Luz Roldán admitiu que a situação de segurança saiu do controle e decretou toque de recolher a partir das 19h.

Conversações paradas

Em meio a esse agravamento da situação em alguns lugares da Colômbia, principalmente em departamentos do Pacífico, como Vale do Cauca e Cauca − onde um edifício do Judiciário e uma prefeitura foram incendiados nos últimos dias −, as conversações entre o Governo e o comitê de greve estão paradas. Um pré-acordo para a instalação de uma mesa de negociação ainda não foi referendado, e as partes continuam ancoradas em suas linhas vermelhas. Enquanto o comitê de greve exige como passos iniciais garantias para os manifestantes, reivindicando que acabe a repressão policial e que o presidente Duque condene com veemência os abusos das forças de segurança, o Executivo exige que as organizações que convocam os protestos rejeitem e removam os bloqueios de estradas. Apesar da deterioração da segurança em Cali, no resto do país houve marchas pacíficas para marcar um mês de greve nacional.

Desbloquear as estradas se tornou uma prioridade que produz atritos, e o Governo agora rejeita os corredores humanitários em que os manifestantes têm insistido. “Para o Governo Nacional, esse ponto não é negociável”, afirmou Emilio Archila, nomeado por Duque para as conversações. “Devemos deixar claro que os bloqueios são uma ameaça aos direitos de todos os colombianos. Afetam a mobilidade, o emprego, o empreendedorismo, o fluxo de bens e serviços, e destroem postos de trabalho”, enfatizou o próprio presidente em uma entrevista à Blu Radio. “Temos não só de rejeitá-los, como de levantá-los com toda a capacidade da força pública no território.”

Para o Governo, a crise se estendeu ao campo da diplomacia, pois a Colômbia tem sido alvo de inúmeras críticas externas pela repressão dos protestos e pelos sucessivos casos de uso excessivo da força ao longo deste mês. Nessa frente, a vice-presidenta Marta Lucía Ramírez passou a semana nos Estados Unidos, para onde viajou para conter os danos assim que foi nomeada também chanceler. Na sexta-feira, ela se reuniu com o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, que, segundo seu escritório, “manifestou preocupação e condolências pela perda de vidas durante os recentes protestos” e “reiterou o direito inquestionável dos cidadãos de protestar pacificamente”. O chefe da diplomacia americana também apoiou o difícil diálogo entre o Governo Duque e o comitê de greve, além de reiterar o compromisso da Administração de Joe Biden com a paz na Colômbia.

Embora a viagem da nova chanceler tenha sido dominada pela disputa em torno de uma visita da Comissão Interamericana de Direitos humanos (CIDH) à Colômbia, como pedem várias organizações sociais, a reunião com Blinken foi uma conquista para a deteriorada diplomacia colombiana. O Governo a exibiu como a primeira visita que o secretário de Estado recebeu de um Governo latino-americano. A explosão social ocorre enquanto Bogotá ainda lida com a reacomodação das relações com Washington, depois de ter apostado na reeleição do republicano Donald Trump, o que irritou muitos líderes democratas. Cerca de 50 congressistas do partido do presidente Biden criticaram a gestão dos protestos e pediram até mesmo a suspensão da assistência à polícia da Colômbia.

Apoie nosso jornalismo. Assine o EL PAÍS clicando aqui

Inscreva-se aqui para receber a newsletter diária do EL PAÍS Brasil: reportagens, análises, entrevistas exclusivas e as principais informações do dia no seu e-mail, de segunda a sexta. Inscreva-se também para receber nossa newsletter semanal aos sábados, com os destaques da cobertura na semana.

Arquivado Em:

Mais informações

Pode te interessar

O mais visto em ...

Top 50