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A doença de Chagas é um problema de saúde pública ainda não enfrentado

No Brasil não há protocolos de rastreio da doença durante o pré-natal e o exame de diagnóstico não faz parte do teste do pezinho. Governo publicou uma portaria que determina a notificação obrigatória de todas as pessoas diagnosticadas com enfermidade, mas regra não é cumprida

Exemplares do inseto que transmite a doença de Chagas.
Exemplares do inseto que transmite a doença de Chagas.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), de 6 a 7 milhões de pessoas estão infectadas pelo parasita Trypanosoma cruzi, que provoca a doença de Chagas, e mais de 70 milhões de pessoas estão, neste momento, em risco de contaminação. Embora os números sejam superlativos, a enfermidade faz parte de um grupo de doenças tropicais, que são negligenciadas por governos e até pela indústria farmacêutica. Em sua maioria, as pessoas afetadas pela doença de Chagas desconhecem sua condição, pela falta de conhecimento sobre a doença. Inclusive, entre os profissionais de saúde, também há despreparo técnico para realizar o diagnóstico correto. Por essa razão, o dia 14 de abril foi declarado pela OMS como o “Dia Mundial da Doença de Chagas” na tentativa de chamar a atenção da comunidade global para o tema.

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Chagas é a patologia parasitária mais comum das Américas do Sul e Central, que afeta, principalmente, a população mais vulnerável e com acesso restrito ao sistema de saúde. Além das dificuldades de atendimento médico, a maioria das pessoas infectadas não apresenta sintomas, sendo conhecida portanto como uma doença “silenciosa”. As estimativas são de que, aproximadamente, 90% das pessoas afetadas permanecem sem diagnóstico e, portanto, sem tratamento.

Infelizmente, a cura para a doença só é possível com o diagnóstico precoce. Quem não recebe os cuidados médicos adequados, ainda no início da infecção, pode sofrer sérias consequências. Aproximadamente 30% das pessoas infectadas desenvolvem problemas cardíacos graves, o que as coloca em risco de morte súbita. Estima-se que 1,1 milhão de mulheres, em idade fértil, são portadoras da enfermidade no mundo. Como a transmissão de mãe para filho também é possível, a cada ano, entre 8 mil e 15 mil crianças já chegam ao mundo com a doença de Chagas.

Mas esse cenário pode mudar com ações governamentais em saúde pública e investimentos em novos tratamentos. Médicos Sem Fronteiras defende que o diagnóstico e o tratamento da doença de Chagas estejam disponíveis em unidades básicas de saúde, garantindo assim a possibilidade de atenção precoce e monitoramento dos casos.

Outro ponto importante é integrar a triagem de Chagas na assistência à mãe e ao filho nos serviços de saúde. Infelizmente, no Brasil, não há protocolos de rastreio da doença durante o pré-natal e o exame de diagnóstico em neonato não faz parte do teste do pezinho.

Também é preciso aumentar os esforços e investimentos em pesquisas para o desenvolvimento de novos tratamentos, que sejam mais seguros e eficazes. Atualmente, existem apenas duas opções terapêuticas com medicamentos desenvolvidos há mais de 45 anos, que, apesar de eficazes, não são ideais.

A pandemia causada pela covid-19 evidenciou a disposição da indústria farmacêuticas em investir no desenvolvimento de opções terapêuticas e preventivas de doenças. No entanto, a mesma determinação e empenho não são aplicados para na descoberta de terapias voltadas para as doenças negligenciadas, que não representam os maiores retornos financeiros para os laboratórios.

No Brasil, a falta de dados epidemiológicos é outro grave problema. Depois de forte pressão de especialistas e da sociedade civil, em 2020, o Governo publicou uma portaria que determina a notificação obrigatória de todas as pessoas diagnosticadas com a doença de Chagas, incluindo desta vez os casos crônicos.

No entanto, tal medida de extrema importância ainda não foi posta em prática. É primordial que o Ministério da Saúde implemente o quanto antes, em seu novo sistema de notificações de agravos, a notificação adequada dos casos de doença de Chagas e honre seu compromisso com as pessoas afetadas, a comunidade científica e organismos internacionais.

Identificar as pessoas afetadas por Chagas, por meio do diagnóstico e notificação adequada, é um primeiro passo para dar visibilidade para esse grande problema de saúde pública, e enfrentá-lo de forma a mudar a realidade centenária de negligência com as pessoas afetadas, garantindo acesso à saúde e a qualidade de vida.

Vitória Ramos é especialista em Assuntos Humanitários de Médicos Sem Fronteiras.

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