Equador vota entre dois modelos de país

Andrés Arauz, apoiado pelo ex-presidente Correa, e o liberal Guillermo Lasso disputam neste domingo o segundo turno das eleições presidenciais

Os candidatos à presidência do Equador, Andres Arauz e Guillermo Lasso em eventos de campanha.
Os candidatos à presidência do Equador, Andres Arauz e Guillermo Lasso em eventos de campanha.Agencia Press South / GETTY IMAGES

O Equador elege seu presidente. O fará entre dois candidatos opostos ideologicamente e o desencanto de uma população cansada da crise econômica e descrente da política. As pesquisas antecipam um empate técnico entre Andrés Arauz, o candidato impulsionado pelo ex-presidente Rafael Correa e vencedor do primeiro turno, e o líder conservador Guillermo Lasso, que está em sua terceira tentativa. Uma vitória de Arauz significará a volta do correísmo após o parênteses de quatro anos com Lenín Moreno. A vitória de Lasso colocará no poder um homem de ideias liberais que conta com o apoio dos grupos de poder. O ganhador, não importa qual, terá um desafio maiúsculo pela frente: cofres vazios, demandas sociais aumentando e um Congresso sem maioria que obrigará a tecer complicadas redes de apoio.

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Arauz, um dirigente de 36 anos até hoje quase desconhecido à maioria dos equatorianos, ganhou o primeiro turno com 37% dos votos, levado pelo apoio que recebeu de Rafael Correa. Em segundo lugar, a 13 pontos de distância, ficou Lasso, a menos de meio ponto do candidato do indigenismo, Yako Pérez. O segundo turno, entretanto, encontra os dois candidatos em um empate técnico, segundo as pesquisas. “O que foi uma vitória claríssima de Arauz no primeiro turno e uma derrota de Lasso mudou durante essas semanas, em um contexto político de frustração e de repúdio dos eleitores ao poder status quo”, diz Sebastián Hurtado, presidente da consultoria Profitas.

A frustração se traduziu em um pedido por algo novo. Esse foi o voto que alimentou a candidatura de Yako Pérez e do esquerdista Xavier Hervas, que ficou em quarto no primeiro turno de 7 de fevereiro. “Acreditávamos que esses votos iriam beneficiar Arauz, porque representava uma mudança. Mas durante o segundo turno, Lasso fez um bom trabalho em desconstruir as credenciais de oposição e de mudança de seu rival”, diz Hurtado. As propostas de Lasso são as clássicas da política de livre mercado e mínima intervenção estatal na economia. Também propôs duplicar a atividade petrolífera, principal fonte de divisas do país. Arauz, por sua vez, defende uma maior intervenção estatal e prometeu uma ajuda de 1.000 dólares (5.680 reais) a 1 milhão de mulheres pobres que sejam chefas de família.

Lasso reeditou o confronto de 2017 contra Correa, com um discurso que falou de ameaças de autoritarismo e corrupção como matriz do correísmo. Por isso, no segundo turno, Arauz modificou sua estratégia de campanha. Paulina Rodríguez, diretora da consultoria Perfiles de Opinión, destaca que “Arauz procurou gerar uma voz própria e mais autonomia [de Rafael Correa, seu mentor] e até falou dos erros cometidos no passado. Correa desapareceu dos cartazes e houve um gesto de distanciamento. A eficácia disso é outra questão, mas foi um recurso de campanha”, diz Rodríguez. O empate nas pesquisas mostra os limites desta estratégia, ainda que Hurtado veja Arauz em vantagem. “Tem um perfil mais claro de outsider das políticas atuais, de capitalizar algum voto oculto que já se manifestou em outras oportunidades e de captar o voto indeciso e nulo”, diz.

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O voto nulo chegou a 19% no primeiro turno das eleições presidenciais e pode crescer ainda mais no segundo. Yako Pérez e seu partido, o Pachakutik, pediram aos seus simpatizantes que anulem o voto para evidenciar seu poderio eleitoral. Mas somente o resultado das urnas revelará se as bases do movimento indígena estão alinhadas com seus dirigentes ou votarão de modo independente. O voto indígena, que representa de 7 a 10% do eleitorado nacional, será fundamental neste domingo, mas não se trata de uma massa homogênea. As divisões são tamanhas que é difícil prever para onde esse voto irá.

A jornada eleitoral do domingo começa às sete da manhã (9h de Brasília) em todo o país e os colégios eleitorais fecham às cinco da tarde. Ao contrário do primeiro turno, o Conselho Nacional Eleitoral não dará resultados parciais e apuração rápida, uma ferramenta que pega uma amostra representativa e antecipa tendências. Segundo o CNE, as mesas demorarão entre 45 minutos e uma hora para contar todas as cédulas e enviar a informação à central. A intenção do CNE é ter uma tendência clara por volta das 22h de domingo, mas se a paridade antecipada pelas pesquisas se confirmar podem ocorrer demoras. “A única coisa que se deseja é que o vencedor tenha uma maioria clara, de mais de cinco pontos, porque caso contrário vamos nos incendiar, dirão fraude aqui e acolá”, diz o ex-candidato presidencial e ex-deputado Jacinto Velázquez. Os dois candidatos exprimiram seu temor a uma possível fraude durante a apuração, ainda que sem apresentar quaisquer provas. Um resultado apertado seria uma má notícia ao Equador.

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