Dor tinge de preto o Beco do Batman

Ponto turístico localizado na Vila Madalena teve seus murais cobertos em ação para homenagear Wellington Copido Benfati, o NegoVila, que foi morto por policial no sábado

Mural coberto com tinta preta e a palavara "Justiça" no Beco do Batman, na Vila Madalena, em São Paulo.
Mural coberto com tinta preta e a palavara "Justiça" no Beco do Batman, na Vila Madalena, em São Paulo.Lela Beltrão

A tinta preta cobriu todo os grafites coloridos que fizeram do Beco do Batman, na Vila Madalena, um dos principais pontos turísticos de São Paulo. No lugar dos murais que serviam de pano de fundo para selfies, as frases “Justiça na Vila Madá” e “Vila Madalena nunca mais vai ter o mesmo brilho”. A ação foi um protesto no domingo contra o assassinato de mais um homem negro pela polícia: desta vez a vítima foi Wellington Copido Benfati, 40, artista multifacetado conhecido como NegoVila. Ele foi morto com um tiro no tórax pelo sargento da policia militar Ernest Decco Granaro, que não estava fardado, na madrugada de sábado em frente a uma distribuidora de bebidas. Grafiteiro, skatista, rapper e produtor cultural, ele deixa uma filha de nove anos.

Granaro foi preso na cena do crime e está detido no presídio Romão Gomes, destinado a PMs. Ele foi indiciado por homicídio. A morte de NegoVila acontece a pouco mais de dez dias do assassinato de João Alberto Freitas, também negro, por seguranças de uma loja da rede Carrefour em Porto Alegre. Também ocorre em um contexto de fortalecimento do movimento antirracista Vidas Negras Importam, que força o país a enxergar seu racismo estrutural e sua manifestação mais violenta: a morte de negros nas mãos de agentes do Estado.

Segundo relatos de testemunhas ouvidas pelo EL PAÍS, Nego tentou apartar uma briga que ocorria em frente à distribuidora Royal Bebidas, na rua Inácio Pereira da Rocha, em Pinheiros, por volta das 4h30. O PM Granaro, que não estava fardado e participava da confusão, lhe deu um soco no rosto. Ele revidou, e o policial fez um primeiro disparo para cima, o que provocou correria no local. O segundo tiro foi no peito da vítima, que chegou a ser socorrida para o Pronto Socorro da Lapa, também na zona oeste, mas não resistiu.

“Em nenhum momento o assassino disse que era policial. Quando ele deu o primeiro tiro foi aquela correria. Aí veio o segundo tiro. Eu vi o Nego caído e corri até ele. Deitei em cima dele para protegê-lo, porque o policial veio vindo na direção para dar mais tiros. Eu pedi pra ele não atirar mais”, disse ao EL PAÍS Luana Luz de Campos, 37, amiga da vítima. As últimas palavras da vítima foram “eu fui baleado”. A arma usada no crime foi uma pistola .40, que pertence à Polícia Militar. Policiais que registravam uma ocorrência na delegacia localizada há poucos metros do local fizeram a prisão de Granaro. Eles alegaram que o policial parecia alcoolizado, e resistiu por alguns momentos antes de ser detido.

O protesto contra a morte de Nego nasceu na cabeça do grafiteiro Frederico George Barros Souza, 40, o Ninguém Dorme. “Conheço ele desde os dez anos de idade. Somos crias da favela do Mangue, aqui na Vila Madalena. A Vila perdeu um de seus filhos mais queridos. Aqui ele nasceu e aqui ele fez sua passagem”, relatou à reportagem. “Não dá para afirmar que isso só ocorreu com ele por ser negro, mas pela violência e racismo que vemos contra nossa cor no dia a dia, acho muito difícil que um policial branco assassinasse um outro homem branco nessas circunstâncias.” Ele também foi homenageado nas redes sociais por artistas como OsGêmeos e Lino & Guru.

O crime chocou a comunidade do Mangue e da tradicional escola de samba Pérola Negra, frequentada por Nego, e também trouxe à tona outra vez um triste dado do país: o aumento de 11,5% de homicídios de negros no país, que saltou de 34 por 100.000 habitantes para 37,8 em uma década, de acordo com dados do Atlas da Violência divulgado em agosto.

A reportagem não conseguiu localizar a defesa de Granaro. Por ser policial ele teria direito a portar arma fora do expediente, seja sua ou da corporação. Em depoimento à delegada Letícia Faria Fadel, que cuida do caso, ele alegou legítima defesa. O disparo feito à queima roupa em NegoVila remete ao uso desproporcional da força que se tornou comum em diversas ações de PMs, de folga ou não. Como no caso do carroceiro catador de materiais recicláveis Ricardo Nascimento, 39, homem negro morto pela polícia no bairro de pinheiros em junho de 2017, após avançar contra o soldado da tropa José Marques Madalhano com um pedaço de madeira na mão.

Mais informações