_
_
_
_

O quase prefeito de Goiânia não sabe que é favorito porque está intubado na UTI com covid-19 desde o dia 15

Maguito Vilela (MDB) pode vencer neste segundo turno, mas nem sabe disso. Está há um mês na UTI e cresceu nas pesquisas após doença. Rival acusa campanha de estelionato eleitoral

Carreata da campanha de Maguito Vilela em Goiânia. Candidato está internado em São Paulo.
Carreata da campanha de Maguito Vilela em Goiânia. Candidato está internado em São Paulo.no
Mais informações
O deputado José Sarto (PDT) durante entrevista em julho de 2019.
Eleição em Fortaleza testa frente ampla contra Bolsonaro
Precisamos falar sobre o PSDB, por E. BRUM
Eleitora de Manuela D'Ávila em Porto Alegre.
Em Porto Alegre, Melo tem 48% contra 43,1% de Manuela D’Ávila

Uma eleição sem precedentes acontece no coração do Brasil. Em Goiânia, a maior capital do Centro-Oeste brasileiro, o candidato à prefeitura Maguito Vilela (MDB) disputa o segundo turno, neste domingo, mas ele ainda nem sabe disso. Internado na UTI do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, desde o dia 27 de outubro, devido complicações pulmonares causada pela covid-19, o candidato teve que ser entubado às pressas na tarde do dia 15 de novembro, poucas horas antes do fechamento das urnas na capital goiana. O emedebista acabou vencendo com uma vantagem de quase 12 pontos percentuais nos votos válidos sobre o segundo colocado, o senador Vanderlan Cardoso (PSD): 36,02% X 24,67%.

Uma pesquisa Ibope para o segundo turno divulgada no último dia 24 mostrou que apesar de entubado, o apoio a Maguito se consolidou, e ele alcançou 54% das intenções de voto contra 31% de Cardoso. Nem mesmo o apoio do governador do Estado, Ronaldo Caiado (DEM), foi suficiente para garantir o avanço do candidato do PSD.

Apoie nosso jornalismo. Assine o EL PAÍS clicando aqui

Maguito entrou na campanha numa espécie de golpe de sorte promovido, de certa maneira, pela própria pandemia. Depois de quatro anos de poucas movimentações políticas, Luís Alberto Maguito Vilela, uma das maiores lideranças do MDB de Goiás, ressurgiu no cenário quando o bem avaliado atual prefeito Iris Rezende (que comandou a capital de 1965 a 1969, quando foi cassado pela ditadura; de 2005 a 2010 e desde 2017) desistiu de concorrer à reeleição. Prestes a completar 87 anos, o decano emedebista, que foi ministro do Governo Fernando Henrique Cardoso, teria atendido o apelo familiar para que não fizesse campanha em plena pandemia de covid-19. Maguito então foi para o front da disputa eleitoral, ainda que ele, aos 71 anos, também fizesse parte do grupo de risco.

Além da idade, outro fator pesa sobre o candidato em relação à doença: ele perdeu duas irmãs para o coronavírus em agosto deste ano. Nelma Vilela faleceu aos 76 anos de idade, no dia 19 de agosto. Nove dias depois Maguito perderia também a irmã mais velha, Nelita Vilela, de 82 anos, para a doença.

Temeroso com a pandemia, Maguito pedia a sua equipe de campanha o uso constante de máscaras e de álcool em gel, relatam pessoas próximas. Até outubro, Goiás tinha 5.444 óbitos confirmados, o que significava uma taxa de letalidade de 2,26%, no Estado. A maior parte na região metropolitana de Goiânia. No início, ele acreditava que a campanha eleitoral se restringiria aos programas de TV, ao uso das ferramentas das redes sociais como as lives e às carreatas. Mas não foi assim que aconteceu. Impulsionado pela dinâmica eleitoral, Maguito teve que sair às ruas para pedir votos, participar de carreatas, caminhadas e reuniões, tal qual seus adversários.

Maguito Vilela antes de voltar a ser sedado na UTI.
Maguito Vilela antes de voltar a ser sedado na UTI.Reprodução (no)

Após a doença, um impulso nas pesquisas

No dia 18 de outubro a campanha do candidato cancelou a agenda. Relatou um mal-estar e informou que, por precaução, ele seria submetido aos testes de detecção do coronavírus. O diagnóstico foi confirmado em 20 de outubro. Em isolamento e impossibilitado de cumprir a agenda, a coordenação de sua campanha, chefiada pelo seu filho e presidente do MDB de Goiás, o ex-deputado federal Daniel Vilela, colocou várias frentes de coordenadores nas ruas para pedir voto para o candidato. Começava aí uma corrida contra o tempo.

As pesquisas indicavam que o nome de Maguito já não era mais lembrado pela maioria dos goianienses. Já o nome e a imagem de seu principal concorrente, o senador Vanderlan Cardoso, estava fresco na cabeça do povo. Cardoso disputou ao menos cinco eleições em Goiânia desde 2006, duas vezes para governador, uma para prefeito, em 2016, e a última em 2018, quando foi eleito senador. Cardoso, porém, não esperava que a covid-19 jogasse contra ele.

À medida que Maguito foi piorando, seu quadro de saúde virou o assunto mais comentado entre os eleitores goianienses. A eleição municipal em Goiânia passou a girar em torno dos boletins médicos do paciente-candidato. Apesar do distanciamento físico, Maguito começou a crescer nas pesquisas, ao passo em que seu estado de saúde e a esperança de melhora eram tema da sua campanha e tabu entre os demais candidatos.

O emedebista foi entubado pela primeira vez no dia 30 de outubro, três dias após chegar a São Paulo, quando a equipe médica do Einstein optou pelo uso de ventilação mecânica nos pulmões que apresentavam quase 75% de inflamação. Uma semana depois, no dia 8 de novembro, ele foi desintubado após uma melhora significativa da infecção pulmonar. A notícia de que o candidato tinha saído da ventilação mecânica deu um gás na sua campanha e Maguito conquistou mais intenções de votos do eleitorado, batendo o empate técnico com Vanderlan dias antes do primeiro turno. No dia 12, entusiasmado com a melhora do pai, Daniel Vilela postou uma foto de Maguito fazendo sinal de joia, deitado na cama do hospital.

No dia anterior às eleições municipais, o candidato, de acordo com as informações de sua assessoria de comunicação e de um dos médicos pneumologistas responsáveis pelos seus cuidados, Marcelo Rabahi (que é também seu genro), apresentava uma melhora geral no quadro de saúde. Os exames, relataram, mostravam patamares normais e Maguito tinha voltado a se alimentar por via oral. Os médicos estudavam naquele momento transferi-lo para o tratamento semi-intensivo, mas tudo mudou na tarde do dia 15.

Acometido por uma infecção bacteriana, Maguito piorou a inflamação pulmonar e teve que ser submetido às pressas a uma broncoscopia. No dia 17 de novembro, foi iniciado tratamento dialítico seguido de instalação de ECMO (Oxigenação Por Membrana Extracorpórea) para possibilitar ventilação protetora pulmonar. O aparelho funciona como um pulmão e um coração fora do corpo e é utilizado apenas para casos muito graves de covid-19.

Vice da Igreja Universal e “estelionato eleitoral”

A entrada no segundo turno com Maguito novamente desacordado provocou uma série de fake news espalhadas apocrifamente nas redes sociais. As mais ousadas falavam que o candidato havia morrido, o que estaria sendo escondido por interesse eleitoral. Vanderlan Cardoso chegou a questionar, durante entrevista, se as divulgações sobre a situação do seu adversário não seriam uma “farsa” e acusou seus adversários de “estelionato eleitoral”, já que questiona o protagonismo do filho do candidato, e não do vice da chapa, Rogério Cruz (Republicanos), vereador em Goiânia e pastor da Igreja Universal, nos atos de campanha. Cruz é carioca e está em Goiânia há apenas seis anos.

Em tese, se Maguito vencer e não tiver condições de assumir nos primeiros meses a prefeitura, devido ao processo de reabilitação pós-covid, Rogério é quem deve iniciar o mandato. Mas o QG da campanha do emedebista afirma que, mesmo se Maguito ainda estiver hospitalizado em São Paulo, poderá assinar o documento de posse.

Seu adversário tentou explorar o currículo do vice de seu rival. Mas demorou. Nos últimos dez dias sua campanha trabalhou o discurso de que Rogério poderia assumir o começo do mandato e não seria Maguito e sua equipe a iniciar a administração em Goiânia. Mas já era tarde. O estado de saúde acabou despertando uma certa empatia entre a população da capital de Goiás. Rogério Cruz não participou dos debates com Vanderlan. Por estratégia de campanha da equipe de Maguito, ele não compareceu. Esteve ativamente nas frentes organizadas pelo MDB que foram pedir voto na capital.

Com a controvérsia, a assessoria de Maguito decidiu intensificar a divulgação dos boletins médicos do Hospital Albert Einstein, que passaram a ser anexados nas mensagens enviadas à imprensa. No dia 30 de outubro, Rogério também foi diagnosticado com Covid-19, porém não apresentou sintomas graves e voltou para a campanha passado o tempo do isolamento.

Mesmo em torno dessa áurea de incertezas, Maguito abriu uma vantagem ainda maior em relação a Vanderlan nas mais recentes pesquisas divulgadas. Maguito caminha assim para ganhar as eleições em Goiânia no próximo dia 29 pela primeira vez. Será o primeiro candidato a ganhar uma eleição municipal no Brasil sem saber nada sobre a sua vitória.




Tu suscripción se está usando en otro dispositivo

¿Quieres añadir otro usuario a tu suscripción?

Si continúas leyendo en este dispositivo, no se podrá leer en el otro.

¿Por qué estás viendo esto?

Flecha

Tu suscripción se está usando en otro dispositivo y solo puedes acceder a EL PAÍS desde un dispositivo a la vez.

Si quieres compartir tu cuenta, cambia tu suscripción a la modalidad Premium, así podrás añadir otro usuario. Cada uno accederá con su propia cuenta de email, lo que os permitirá personalizar vuestra experiencia en EL PAÍS.

En el caso de no saber quién está usando tu cuenta, te recomendamos cambiar tu contraseña aquí.

Si decides continuar compartiendo tu cuenta, este mensaje se mostrará en tu dispositivo y en el de la otra persona que está usando tu cuenta de forma indefinida, afectando a tu experiencia de lectura. Puedes consultar aquí los términos y condiciones de la suscripción digital.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
_
_