Capital do Amapá vive dias medievais à luz de velas e com água de poço colhida com balde

Com energia limitada desde o apagão de 3 de novembro, Macapá tem onda de protestos e apela para soluções improvisadas, enquanto 70% do Estado passa por revezamento de luz

Maria Félix de Carvalho, 58 anos, comerciante, moradora do residencial Macapaba, durante o apagão de energia na capital do Amapá.
Maria Félix de Carvalho, 58 anos, comerciante, moradora do residencial Macapaba, durante o apagão de energia na capital do Amapá.Andre Borges / André Borges

Garrafas de um litro de água, que normalmente custam cerca de 3 reais, sendo vendidas por até 35 reais. Essa é uma cena que se tornou comum em Macapá, uma das 13 cidades do Amapá que enfrentam um apagão de energia elétrica desde o dia 3 de novembro. Neste cenário, velas e hipoclorito de sódio tornaram-se itens de primeira necessidade. As velas, para iluminar as residências à noite. O hipoclorito, para “limpar” a água do rio Amazonas, que é consumida por alguns dos moradores que não conseguem retirar água dos poços artesianos ou bombeá-la para reservatórios de suas casas. O mesmo rio, conhecido na cidade como o Mar de Macapá, também serve de latrina para algumas das residências de palafitas que o cercam. A capital amapaense está vivendo dias “medievais”.

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“Sem energia há tanto tempo, quase nada funciona. O que funciona é tecnologia medieval como vela para iluminar e carretilha com balde, para retirar água do poço”, diz a ecóloga Verena Almeida, que vive no bairro Laguinho. Os 370.000 moradores do município têm convivido com um rodízio de energia, que era para funcionar assim: metade dos bairros têm energia fornecida por três horas seguidas e o mesmo período sem. A outra metade, tem energia a cada quatro horas e fica outras quatro sem. Depois, revezam. Era para funcionar porque, na prática, não é o que tem ocorrido. “Hoje programei trabalho em home office para o horário que teria luz. Mas comecei uma reunião com luz, e 20 minutos depois, já não tinha”, afirma Almeida. À noite, nas ruas, um breu. Luzes apenas de faróis de carros.

Na periferia, como no residencial Macapaba, as pessoas se queixam de que a luz vai e vem, descumprindo o que foi planejado pela Companhia de Eletricidade do Amapá. “Tudo o que tinha na geladeira, a gente perdeu. Agora, temos de comprar de pouquinho em pouquinho”, relata a microempreendedora Maria Félix de Carvalho em entrevista ao repórter-fotográfico André Borges. Antes do revezamento, para ter água em casa, os moradores dessa região tiveram de contar com a ajuda de São Pedro. “Quando chovia, a gente enchia os baldes todos e passava o dia carregando. No dia seguinte, descansava”, afirma Carvalho, segurando uma vela enquanto. Agora, nos instantes em que a água volta à torneira, eles enchem todos os baldes e garrafas de uma vez. Com a escassez, as roupas estão deixando de ser lavadas.

O apagão em Macapá foi ocasionado por um incêndio em um transformador de uma subestação de energia da concessionária LMTE, que desde o início deste ano é controlada pela Gemini Energy. Antes, a responsabilidade era da empresa espanhola Isolux, que vendeu sua participação para a Gemini. A polícia investiga se o ato foi criminoso ou se foi uma falha. A hipótese inicial, de que um raio teria atingido o equipamento, foi descartada.

Por quatro dias, nenhuma das 13 cidades afetadas tinha qualquer fornecimento de luz. Esse isolamento gerou uma onda de protestos contra as autoridades locais. Já foram mais de 20, o último na tarde desta sexta-feira, que teve a participação de cerca de 200 pessoas em frente à sede do Governo do Estado. Boa parte das manifestações acabou com forte repressão da Polícia Militar, que usou balas de borracha para dispersar a multidão de determinados pontos da cidade. Também houve uma enxurrada de ações judiciais nas varas federais. Houve desde pessoas movendo ações de reparação de danos até aqueles que solicitavam o pagamento de auxílio emergencial e o adiamento da data das eleições municipais. Nos dois últimos casos, houve uma resposta positiva aos requerentes.

Nesta sexta-feira, atendendo a um pedido do senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP), o juiz João Bosco Costa Soares da Silva, da 2ª vara federal, determinou que a União pague dois meses a mais de auxílio emergencial aos amapaenses que já são beneficiados pelo programa. Assim, ajuda assistencial pontual, que está prevista para acabar agora em dezembro, deverá ser estendida até fevereiro nas cidades em que foram registrados apagões.

Ao longo desta semana, o Tribunal Superior Eleitoral já havia atendido a um pedido da corte eleitoral local que solicitou o adiamento das eleições municipais na capital amapaense. A razão não foi, necessariamente o apagão, mas porque a Polícia Militar não teria condições de garantir a segurança, já que está com efetivo reduzido porque vários agentes foram contaminados pela covid-19. Além disso, a onda de protestos, que inclui a depredação de prédios públicos, tem reforçado essa sensação de insegurança. O pleito terá de ser concluído até o dia 27 de dezembro, para que não sejam ampliados os mandatos dos atuais prefeito e vereadores.

Em um primeiro momento, com a alteração, quem deve ser prejudicado era quem liderava as pesquisas, o empresário e neófito na política Josiel Alcolumbre (DEM). Ele é irmão do atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), que articulou politicamente para o adiamento. As eleições nos outros municípios afetados pelo apagão não foram alteradas. Nem mesmo em cidades que são divididas por uma ponte de Macapá, como Santana, ou por outra, como Marzagão, que fica a 22 quilômetros.

Como resposta à crise, o Governo Jair Bolsonaro enviou dois transformadores para a subestação que havia sido atingida e criou um gabinete de crise para coordenar as ações. Por meio da Marinha, disponibilizou 31 militares da área de saúde para atender a população local e doou 143 cestas básicas para famílias vulneráveis socioeconomicamente. Até o momento, cerca de 70% do Estado teve o fornecimento de energia restabelecido, ainda que em esquema de rodízio, de acordo com o Governo.