Polícia prende tio indiciado por estupro de menina de 10 anos. Antes de se entregar, gravou vídeos

Anúncio da prisão foi feito nesta terça pelo governador do Espírito Santo, Renato Casagrande. O homem, de 33 anos, já tinha passagem pela polícia por tráfico

Multidão tenta invadir centro médico onde a menina, vítima de estupro, seria submetida a um aborto legal.
Multidão tenta invadir centro médico onde a menina, vítima de estupro, seria submetida a um aborto legal.

Mais informações

A Polícia Civil do Espírito Santo informou em coletiva de imprensa nesta terça-feira que o tio da menina de 10 anos vítima de estupro, que precisou ser submetida a um aborto legal, se entregou aos agentes de segurança na cidade de Betim (MG), onde estava escondido na casa de parentes, e afirmou que realizava os abusos desde 2019. O homem já havia sido preso em 2010 por porte ilegal de arma de fogo e tráfico de entorpecentes. Em 2014, beneficiado por uma saidinha, o criminoso não retornou à prisão e só foi recapturado um ano depois. Em 2018, ele recebeu um alvará de soltura.

Alexandre Ofranti Ramalho, secretário de Segurança Pública do Espírito Santo, também informou que a menina vítima de estupro é órfã de mãe e que seu pai está preso. Ela mora com os avós, vendedores ambulantes, “em situação de vulnerabilidade social”. O homem, de 33 anos, foi indiciado por estupro de vulnerável e ameaça e estava foragido. Segundo informações obtidas em São Mateus, ele não é tio de sangue da menor. Foi casado com uma tia de sangue, e ajudava de vez em quando a avó ambulante.

Horas antes de se entregar, o homem gravou alguns vídeos. O EL PAÍS teve acesso a quatro vídeos. Em três deles, o homem de 33 anos, está de cócoras falando para o vídeo do que parece ser um celular. Atrás dele, uma parede de tijolos e o chão sem cimento. Enquanto segura um cabo com microfone na ponta, ele dá seu nome e diz que está se entregando para um policial de São Mateus, que estaria indo buscá-lo lá em Betim. “Só saio com ele”, diz. Faz também insinuações de que ele não seria o único a ter molestado a menor. Sem provas, diz que o avô deveria ser investigado, algo que em nenhum momento da investigação se levantou, uma vez que a vítima não mencionou o avô em nenhum momento.

A ideia não faz sentido para quem está próximo ao caso, uma vez que a vítima relatou apenas um algoz e esta seria uma informação forte demais para que tivesse deixado de ser dita diante da gravidade da sua história. Os vídeos estão sendo tratados pela polícia como estratégia para atrapalhar a investigação, uma vez que a sua prisão é certa e estupradores têm vida curta na cadeia. Chamou a atenção ainda o fato de os vídeos terem sido feitos com precisão com imagens de qualidade, o que deixou envolvidos no caso com um pé atrás.

O avô, por sua vez, está sendo protegido de eventual reação, uma vez que o caso ganhou uma publicidade desproporcional depois de o hospital da cidade ter deixado de fazer o procedimento previsto em lei em casos como este, e o assunto ter ido parar na Justiça. Também a ministra Damares Alves deu publicidade à gravidez da vítima, e depois a extremista Sara Geromini, que revelou o nome da vítima, e o endereço do local para onde a garota seria levada, ferindo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A Justiça determinou que redes sociais apaguem publicações com os dados pessoais da vítima.

O assunto virou pauta de todos os jornais. Coube ao governador do Espírito Santo, Renato Casagrande, anunciar na manhã desta terça-feira que o tio da menina de 10 anos foi localizado e preso nesta madrugada no Estado. A vítima, que teve a gestação interrompida nesta segunda-feira, relatou em 8 de agosto que sofria abusos sexuais do tio desde que tinha seis anos, e que era ameaçada por ele.

“Que sirva de lição para quem insiste em praticar um crime brutal, cruel e inaceitável dessa natureza”, escreveu o governador capixaba, em uma rede social, ao anunciar a prisão do suspeito do crime, sem dar detalhes.

O crime ocorreu na cidade de São Mateus, a 183 quilômetros de Vitória, capital do Estado, e ganhou repercussão nacional após o constrangimento e perseguição que a criança sofreu antes de ser submetida a um aborto legal, autorizado pela Justiça. Incentivados por declarações da ministra Damares Alves (da pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos), dezenas de militantes conservadores e pessoas ligadas a grupos religiosos se reuniram diante do centro médico onde ela seria submetida ao procedimento para pressioná-la a desistir de interromper a gestação. A criança então teve de ser levada do Espírito Santo a Pernambuco, onde finalmente foi atendida e teve a gestação interrompida na segunda-feira.


Mais informações