Crimes de Ódio

“Tem gente confortável em adotar um discurso de ódio”, diz ativista negro que teve a página hackeada

Dono da página ‘Afroestima’, antropólogo Mauro Baracho perdeu o acesso há uma semana e, desde então, recebe mensagens de perfil com foto da KKK

O ativista Mauro Baracho, que teve a página no Instagram hackeada.
O ativista Mauro Baracho, que teve a página no Instagram hackeada.Reprodução

Na última semana, o antropólogo Mauro Baracho denunciou através das redes sociais a invasão de sua página no Instagram, a Afroestima, seguida de ato racista e ameaça de morte contra ele. Criador da conta, que falava sobre cultura negra e acumulava mais de 200.000 seguidores na rede social, o mineiro de Belo Horizonte perdeu o acesso em 26 de janeiro e, dois dias depois, recebeu mensagens de um perfil falso com uma foto da organização racista Ku Klux Klan reivindicando a autoria do ataque, cometendo injúrias raciais e intimidando Baracho a “sumir” porque “mamãe não vai gostar de ver o filhinho baleado”. O antropólogo fez boletim de ocorrência em duas delegacias para apurar os crimes virtuais e raciais, mas vê o inquérito prosseguir com lentidão por conta da dificuldade em identificar a origem da ameaça.

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A página Afroestima tinha cerca de 207.000 seguidores quando foi hackeada e derrubada há mais de uma semana. Ao tentar retomar o perfil, Mauro percebeu que a conta havia sido desvinculada de seu email, o que impossibilitou a recuperação pelas configurações do Instagram. Dois dias depois, às 23h da terça-feira (28), ele recebeu as mensagens da conta falsa cuja foto era de um integrante da KKK, um movimento supremacista branco que teve origem nos Estados Unidos. Entre as ameaças e xingamentos racistas, o suposto hacker diz que “vai ter preto queimado e baleado” e afirma saber onde o antropólogo e sua família moram. “Meus chapas estão de olho em tu e nos teus passos”, diz a mensagem.

Orientado pelo advogado Gabriel Alex Pinto de Oliveira, presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB-SP em Barueri, Baracho fez a denúncia na Delegacia Especializada em Investigação de Crime Cibernético de Belo Horizonte e, em seguida, foi direcionado à 3ª Delegacia de Polícia Civil Leste da capital mineira para a apuração dos crimes racistas e ameaças de morte. Oliveira conta que viu a denúncia pela rede social e entrou em contato com o antropólogo para ajudá-lo mesmo à distância. Segundo ele, o processo adotado pelo delegado responsável pela investigação será primeiro descobrir a origem da ameaça, ou seja, quem foi o responsável pela invasão e pela mensagem, para depois apurar criminalmente as injúrias. Os casos devem ser processados com o auxílio da Secretaria de Segurança de Minas Gerais e do Ministério Público do Estado. “É um processo extenso pela necessidade de localizar o infrator, o que demanda uma longa investigação. Não vejo o inquérito sendo resolvido em menos de um ano”, opina o advogado.

O Código Penal brasileiro prevê reclusão de um a três anos e multa para injúria racial, detenção de seis meses a um ano para ameaça de morte e detenção de três meses a um ano por invasão de privacidade virtual, que são as penas onde o possível criminoso poderia ser enquadrado após o término da investigação.

O criador da página relata que recebeu pelo email um alerta do Facebook dizendo que alguém em Niterói, Rio de Janeiro, tentou invadir sua conta na última sexta-feira, 31, e por isso sua suspeita é de que o ataque tenha vindo de lá. Ele reclama da dificuldade em achar um advogado para defendê-lo em Belo Horizonte devido à impossibilidade de saber imediatamente quem está por trás das ameaças. “Por enquanto estou correndo atrás sozinho”, diz. Baracho também revela que o infrator conseguiu acesso às conversas privadas que ele mantinha no perfil e está chantageando-o com elas para que o antropólogo apague as denúncias já feitas. “Causa um transtorno porque a família não sossega durante o dia até eu chegar em casa”, relata. Gabriel Oliveira confirma que o Instagram pode ser acionado pela Justiça para repassar informações privadas do perfil falso a fim de localizar seu dono.

Formado em administração, o mineiro faz atualmente um mestrado em antropologia que tem como tema a masculinidade negra. Nesse contexto, a Afroestima também o ajudava com a pesquisa e servia como ferramenta de trabalho. “Fui convidado para vários eventos por conta do Instagram e fechei alguns negócios por lá”, conta. Mauro lembra de um comentário com um emoji de macaco em um post da página sobre racismo há algumas semanas, mas confirma que nunca havia sido vítima de ameaças como as últimas.

Na opinião de Baracho, o ataque tem relação com o atual cenário político brasileiro. “Quando você tem um secretário da Cultura citando um oficial nazista e pessoas que não têm vergonha de usar uma suástica em um passeio no shopping, você percebe que tem gente confortável em adotar um discurso de ódio”, opina ele. Baracho criou a página em 2018 para, segundo ele, trazer aspectos positivos acerca do orgulho negro. “Comecei para aumentar a autoestima de pessoas pretas, mas se tornou um lugar de reflexão sobre questões raciais em geral no Brasil. O racismo é algo cultural no Brasil e agora eles [racistas] estão mais empoderados”, pontua.


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