Afro-americano se torna líder de grupo neonazista nos EUA e acaba com ele

Ativista californiano James Stern ganhou a confiança do dirigente do Movimento Nacional Socialista, com sede em Detroit, até conseguir que ele lhe cedesse o cargo

James Stern, durante uma entrevista em 2012, em Jackson (Mississippi).ROGELIO V. SOLIS (AP) / VÍDEO: AP

O que aconteceu recentemente em Detroit, nos Estados Unidos, poderia perfeitamente ser a cópia de um roteiro tragicômico de Hollywood, o último do Spike Lee sem ir mais longe, Infiltrado na Klan, aquele que conta a história do policial afro-americano que nos anos setenta conseguiu penetrar até a medula da Ku Klux Klan. Mas é real, como provam os documentos atestando que novo líder do Movimento Nacional Socialista (NSM, na sigla em inglês), um dos grandes grupos neonazistas do país, é um homem negro chamado James Stern. A notícia começou a circular de forma meio confusa na imprensa norte-americana na quinta-feira passada. Na sexta, Stern começou a conceder entrevistas para anunciar sua primeira medida à frente da organização: acabar com ela.

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Fazendo um paralelo político, é como se Stern tivesse dado um golpe de Estado; no jargão financeiro, teria feito uma aquisição hostil; mas, na verdade, o assalto ao grupo radical com sede na grande cidade do automóvel foi consentido pelo próprio neonazista que o dirigia até então, Jeff Schoep. Stern, um veterano ativista de 54 anos da Califórnia, conquistou a confiança do militante ao longo dos anos, e em meados de janeiro, conforme consta no registro de corporações e entidades do Estado de Michigan, conseguiu que lhe cedesse formalmente a presidência do grupo.

O NSM enfrenta uma séria ação judicial por sua participação na grande marcha racista de Chalottesville (Virgínia) em 2017, que acabou com graves distúrbios e no qual um jovem supremacista atropelou deliberadamente manifestantes antifascistas, matando uma mulher branca. Este assunto deixava Schoep muito inquieto por causa das repercussões pessoais e econômicas que poderia ter, de modo que o seu cargo se tornou uma batata quente. “Ele sabia que tinha os membros mais vulneráveis e imprevisíveis que a organização já havia tido”, contou James Stern numa entrevista publicada nesta sexta-feira pelo The Washington Post. “Percebeu que alguém cometeria um crime, e que ele acabaria sendo considerado o responsável por isso.”

A questão é como, entre todos os seres humanos no mundo, o líder neonazista foi passar o bastão justo a um ativista negro, e não a outros militantes extremistas. Segundo a versão de Stern, eles se conheceram anos atrás. Quando o ativista afro-americano cumpria pena no Mississippi por fraude postal, teve como companheiro de cela um conhecido líder da Ku Klux Klan, Edgar Ray Killen, encarcerado pelo homicídio de três trabalhadores ligados aos direitos civis em 1964. De alguma maneira, embora Killen costumasse insultá-lo de forma racista, também acabou confiando em Stern e, por mais rocambolesco que soe, teria lhe concedido poderes sobre seu patrimônio, algo que a família de Killen nega, segundo noticiou o Post. Stern conta que em 2016, já fora da cadeia, os usou para dissolver a organização de Killen.

Em 2014, diz, o líder do grupo de Detroit o contatou para lhe perguntar sobre aquela relação com Killen, que morreu em 2018. Era, dizia, a primeira vez que sua organização se dirigia a um afro-americano desde Malcom X. Conheceram-se e começaram uma peculiar relação em que discutiam sobre política, história e raça. No começo de 2019, Schoep lhe confiou sua angústia pelo processo judicial de Charlottesville. E Stern se ofereceu para carregar esse peso.

O ex-líder neonazista de Detroit se lamentava de sua sorte nesta sexta-feira em uma entrevista telefônica à Associated Press. Dizia, em resumo, que James Stern o enganara, levando-o a crer que os autores das ações judiciais deixariam de perseguir o grupo se ele se afastasse da direção, e, como de todos os modos já pensava em renunciar, viu a nomeação de Stern como uma solução provisória. "Ele me convenceu de que para proteger nossos membros eu devia passar a presidência a ele", corroborou mais tarde no Post. “Ele tem esse pedaço de papel, mas não está reconhecido de maneira nenhuma como líder do Movimento Nacional Socialista”, salientou Schoep à AP. Segundo sua versão, foi Stern quem entrou em contato com ele por recomendação de Killen, e não ao contrário.

Por mais que não seja reconhecido como líder entre os neonazistas da organização de Detroit, Stern já está exercendo suas funções de dirigente, e como tal apresentou na quinta-feira ao juiz uma moção sobre a tragédia de Chalottesville em que diz: “O Movimento Nacional Socialista decide se declarar culpado de todas as ações mencionadas na ação contra ele”. Quando esse processo acabar, quer transformar o site do grupo em uma plataforma de educação sobre o que foi o Holocausto.

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