Argentina

Argentina busca apoio do México para impulsionar um eixo progressista na América Latina

Fernández se encontra nesta segunda-feira com López Obrador, a quem vê como um aliado para unir as forças de esquerda na região em oposição ao Grupo de Lima, cujos chanceleres se reunirão em Brasília

Alberto Fernández com José Mujica, numa conferência na última sexta-feira.
Alberto Fernández com José Mujica, numa conferência na última sexta-feira.Juan Ignacio Roncoroni (EFE)

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Através do México, a Argentina quer impulsionar um eixo progressista para a América Latina. Convencer Andrés Manuel López Obrador a participar ativamente dessa empreitada é o principal motivo da primeira viagem de Alberto Fernández como presidente eleito do país sul-americano. Fernández se reunirá nesta segunda-feira com o mandatário mexicano, a quem vê como aliado para fortalecer as formações de esquerda na região, desnorteadas depois de anos de reveses e dos rumos autoritários da Venezuela, e que, após os protestos em diversos países e o triunfo de ambos os líderes, conseguiram um pouco de oxigênio. Fernández espera que López Obrador se junte também ao Grupo de Puebla, um centro recentemente criado do qual participam cerca de 30 políticos e que o presidente eleito da Argentina ajudou a formar.

Que a primeira viagem ao exterior do líder peronista seja ao México, não ao Brasil, permite vislumbrar quais serão as prioridades do novo Governo em matéria de política exterior. A relação que Fernández mantém com Jair Bolsonaro é péssima, a tal ponto que o mandatário brasileiro disse que os argentinos haviam “escolhido mal” e que não estava disposto a felicitar o novo presidente. A Argentina e o Brasil são parceiros no Mercosul, e sua dependência econômica os obriga a se entenderem.

Fernández sente que tudo será mais fácil com López Obrador. Por um lado, conseguirá um aliado ideológico para aliviar a tensão com Bolsonaro. Além disso, em Buenos Aires atribuem a López Obrador uma boa relação com Donald Trump e confiam que o presidente mexicano possa ser uma espécie de mediador entre a Argentina e o Fundo Monetário Internacional (FMI) nas negociações mútuas. Se o processo não for bem-sucedido, o México também poderia ser um aliado, ainda mais se a economia do país norte-americano continuar retrocedendo. López Obrador dedicou boa parte de seu primeiro ano de mandato a dar por morto o modelo neoliberal no país e, em mais de uma ocasião, no mais puro estilo kirchnerista, culpou os mercados pela queda da economia de seu país.

A aposta de Fernández, no entanto, tem também um obstáculo: a política exterior não é uma prioridade para López Obrador, que não sai do país há dois anos e, já como mandatário, não quis comparecer à cúpula do G20 nem à Assembleia Geral da ONU. O presidente eleito da Argentina contará com o apoio do chanceler mexicano, Marcelo Ebrard, que despontou como uma espécie de chefe de Estado no exterior, pois é quem comparece a todos os atos representando López Obrador.

A visita de Fernández ao México também tem a intenção de promover o Grupo de Puebla, um centro de pensamento criado em julho passado e integrado por cerca de 30 pessoas, incluindo ex-presidentes, ex-chanceleres e políticos latino-americanos. O artífice é o ex-candidato presidencial chileno Marco Enríquez-Ominami, muito próximo de Fernández, que seguiu muito de perto a concepção do grupo — batizado com o nome da cidade mexicana porque ali foi realizada a sua primeira reunião. Mas o Governo de López Obrador não exerceu um papel importante. Por isso, Fernández tentará esta semana incorporá-lo de forma mais ativa. Fontes do Executivo mexicano dizem que, embora o grupo não esteja dentro das prioridades de sua política exterior, a iniciativa é “interessante”. Dela já participam os ex-presidentes brasileiros Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, o equatoriano Rafael Correa e o colombiano Ernesto Samper. O único participante não latino-americano é o presidente espanhol José Luis Rodríguez Zapatero.

“Pretendemos pensar e articular politicamente para conseguir consensos progressistas regionais. Consensos que permitam a prosperidade social, que permitam avançar rumo a sociedades com mercado. O mercado é um instrumento, não o fim”, afirma Enríquez-Ominami, sem esconder a alegria pelo fato de que tenham coincidido no tempo duas circunstâncias tão favoráveis para a sua iniciativa como o triunfo de Fernández e os protestos sociais em vários países da América Latina. “Os Governos conservadores deixaram mais pobres, uma desigualdade social e econômica e sociedades mais estressadas ante a indolência desses Governos frente às injustiças. Por isso, sentimos que é hora de nos unirmos diante desses desafios. A paciência se transforma em desprezo frente à injustiça”, afirma o político chileno.

Os problemas da Venezuela

A ideia que circula entre os parceiros argentinos do Grupo Puebla é criar um eixo latino-americano que una Buenos Aires à Cidade do México, que sirva ao mesmo tempo como corta-fogo para os excessos de Brasília e uma alternativa “progressista” ao eixo do Pacífico alinhado com os Estados Unidos — os chanceleres da Aliança do Pacífico, aliás, se reúnem em Brasília nesta sexta-feira. “Uma parte da solução é a integração regional, e por isso o vínculo com o México é importante, para que o México olhe para a região e não apenas para seus parceiros do norte. Temos que buscar uma aproximação maior. Há uma predisposição e há possibilidades de avançar na integração”, afirma Jorge Taiana, ex-chanceler de Cristina Kirchner e membro do grupo. O ruído de fundo é sempre o mesmo: a Venezuela.

Os argentinos do Grupo Puebla consideram que o Grupo de Lima segue os Estados Unidos em sua política de isolamento da Venezuela, “uma política que o peronismo não considera bem-sucedida". “Somos muitos na região que acreditamos que isso não resolve os problemas e deixa a porta aberta para uma intervenção. Todos nós do grupo temos uma visão de respeito à soberania e achamos que os problemas da Venezuela devem ser resolvidos democraticamente pelos venezuelanos”, diz Taiana. “Busco a união de toda a região para que, dessa maneira, a paz seja encontrada. Ficou claro que um Governo paralelo não chegou a nenhum porto. Ajudar ou assistir não é o mesmo que intervir. E, portanto, esperamos que os diálogos da oposição e do Governo frutifiquem. Ninguém pode se furtar a uma saída dialogada”, completa Enriquez-Ominami.

Dessa maneira, o México entra novamente no mapa peronista. Fernández pretende seguir a posição de López Obrador na Venezuela, ou seja, defender a não interferência externa na Venezuela — pelo menos na retórica —, mas não descarta tampouco a possibilidade se tornar um ator decisivo na busca por uma saída.

De todo modo, contar com um representante que foi eleito presidente reforça o papel da Argentina no grupo. No próximo fim de semana, Buenos Aires receberá em um hotel no centro da cidade a segunda reunião desde a fundação, em julho, que será presidida por Alberto Fernández e pelo vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera. Tudo parece indicar que dali sairá um documento com ideias gerais sobre a necessidade de conter o avanço do neoliberalismo, mas toda a atenção estará na estreia de Fernández como articulador do espaço. “Há uma realidade que precisa de uma redefinição. Se o sistema não dá respostas, temos conflitos sociais e é nossa obrigação encontrar uma solução política. As eleições na Argentina foram um exemplo de saída, porque a crise encontrou algum canal na ideia de mudança de política”, diz Taiana.