Eleições Argentina

Presidente eleito da Argentina propõe guinada econômica para estimular consumo e crédito

Banco Central anuncia redução das taxas de juros a partir de 1º de novembro para estimular consumo

O presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, fala nesta terça-feira durante um ato na província de Tucumán (norte).
O presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, fala nesta terça-feira durante um ato na província de Tucumán (norte).Reuters

Depois da reviravolta política, a guinada econômica. O presidente eleito da Argentina, o peronista Alberto Fernández, quer governar de forma muito diferente de Maurício Macri, o atual de chefe de Governo, de centro-direita. E o Banco Central começa a se adequar: nesta terça-feira, anunciou que a partir de 1º de novembro promoverá uma redução das taxas de juros e porá fim à elevada remuneração das Letras de Liquidez (Leliq), com as quais tentava conter a inflação e a depreciação do peso. A nova estratégia busca estimular o consumo interno e o crédito, mas pode acelerar ainda mais a alta de preços. “Virão anos muito difíceis”, alertou o peronista.

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Fernández anunciou em Tucumán (norte), onde assistia à posse do governador Juan Manzur, que lutaria contra a fome, a favor da educação e saúde públicas e pelos direitos dos trabalhadores. “Precisamos recuperar a dignidade”, afirmou. Acrescentou que a Argentina será “um país governado por um presidente e 24 governadores” e que construiria “uma autêntica Argentina federal”. Antecipou também que batalharia pela legalização do aborto — tema que tem em um dos seus maiores opositores em Manzur, representante do peronismo mais conservador e opaco.

Foi o primeiro discurso formal de Fernández depois da vitória eleitoral do último domingo. Ele salientou que receberá, em 10 de dezembro, um país “com muitos problemas além da dívida”, e que os próximos anos serão “muito difíceis”. A viagem a Tucumán representou um aceno de cumplicidade aos governadores peronistas, uma força em geral moderada e pragmática, com a qual ele pretende compensar as pressões do kirchnerismo, mais à esquerda, representado pela ex-presidenta e hoje vice-presidenta eleita Cristina Fernández de Kirchner, assim como pelo ativismo ideológico da organização La Cámpora, fundada por Máximo Kirchner, e que tem o governador-eleito de Buenos Aires, Axel Kiciloff, como um dos protagonistas.

A recessão argentina em breve completará dois anos. O país só utiliza 60% da sua capacidade industrial, o consumo não para de diminuir, e a taxa oficial de desemprego, de 10,5%, esconde uma grande quantidade de subemprego. Cerca de 35% dos argentinos vivem na pobreza. O novo governo precisa de um choque que reative a atividade econômica. Fernández espera conseguir isso através de uma via que permaneceu ceifada durante o mandato de Mauricio Macri: uma redução dos juros que permita às empresas disporem novamente de crédito bancário acessível.

Durante a campanha, Fernández sempre teve a mesma resposta quando lhe perguntavam que recursos ofereceria para reativar o crescimento econômico: o que economizaremos nos juros das Leliqs, dizia. Atualmente, esses títulos proporcionam aos bancos uma rentabilidade de 68% ao ano com operações a sete dias. Foram o instrumento com que o macrismo, seguindo as instruções do Fundo Monetário Internacional, drenava os pesos do mercado (para frear a inflação) e evitava que o dinheiro dos bancos se desviasse para a compra de dólares, com a conseguinte depreciação do peso.

Essa política não funcionou. A inflação interanual está em 53,5% e o peso sofreu desvalorizações gigantescas, enquanto os juros bancários superiores a 70% tornam o crédito inacessível. Com a restrição adotada desde segunda-feira, que impede a compra de mais de 200 dólares por mês e na prática suprimiu o mercado de divisas, a cotação oficial fica congelada a uma taxa próxima dos 60 pesos por dólar (outra coisa é o mercado negro, aqui chamado de blue), e não é preciso continuar queimando reservas numa batalha infrutífera.

A ideia de Fernández se baseia em que os juros reais caiam a níveis inferiores à inflação e entrem em terreno negativo, desanimando a economia e estimulando o consumo. Cristina Fernández de Kirchner utilizou uma política semelhante em seu segundo mandato. A tese de fundo é que a inflação foi causada pelas desvalorizações, não pela emissão de pesos, e que o risco de hiperinflação é muito baixo. De fato, a inflação real da última etapa kirchnerista não alcançou 30%, enquanto com Mauricio Macri, apesar de elevar os juros às nuvens e frear a emissão de moeda, chegou a quase o dobro.

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