Apuração dá vitória a Evo Morales no primeiro turno em meio a denúncias de fraude

O presidente, que se proclamara vencedor, ataca o líder oposicionista Carlos Mesa: "É um delinquente"

Evo Morales, durante uma coletiva de imprensa nesta quinta-feira.
Evo Morales, durante uma coletiva de imprensa nesta quinta-feira.

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Evo Morales venceu as eleições na Bolívia sem ter que enfrentar o candidato da oposição, Carlos Mesa, em um segundo turno. Este é o veredicto da lenta e questionada apuração apresentado pelo Supremo Tribunal Eleitoral, que lhe atribuiu nesta quinta-feira à tarde a vitória com vantagem de pelo menos 10,55%. Apesar da notável diferença entre os dois, o atual presidente evitou o segundo turno por apenas cinco décimos. O processo eleitoral, envolto em denúncias de fraude, desencadeou uma onda de protestos da oposição nas principais cidades do país. Mesa não reconhece o resultado e várias instâncias internacionais, lideradas pela OEA, bem como União Europeia e Estados Unidos, manifestaram profunda preocupação com o que aconteceu nos últimos dias.

A reação de Morales às acusações de fraude foi um contra-ataque. O presidente, que governa desde 2006, denunciou uma tentativa de "golpe de Estado interno e externo" da oposição e pediu a seus seguidores que se mobilizem. Além disso, tanto na quarta como nesta quinta-feira, ele se mostrou convencido de que o lento escrutínio confirmaria sua vitória. "Começamos com uma boa notícia", disse Morales em uma entrevista coletiva. “Ganhamos no primeiro turno”, acrescentou na manhã desta quinta-feira, antes de atacar a oposição.

Tudo começou com as suspeitas geradas no domingo à noite pela interrupção, por quase um dia, da contagem eletrônica dos votos, que antecipava um segundo turno. Morales, no entanto, rejeita a hipótese de manipulação das cédulas e investe contra a oposição. "Carlos Mesa não foi só um covarde, mas também um criminoso", enfatizou. Ele também criticou a missão de observação da Organização dos Estados Americanos. A agência aceitou o desafio do Governo e concordou em realizar uma verificação do processo eleitoral, mas exige que as conclusões sejam vinculantes. "Nosso desejo é fazer uma auditoria da votação", disse Morales. "Não quero entender", disse ele, "que a missão já está com o golpe de Estado". Ele não esclareceu se aceita os termos da organização multilateral, mas falou de uma negociação.

A crise de legitimidade de Morales começou, de acordo com seus adversários, em 21 de fevereiro de 2016, quando, após uma década no poder, perdeu um referendo sobre reeleição por tempo indeterminado. Ele pôde participar destas eleições, nas quais buscava um quarto mandato consecutivo, porque o Tribunal Constitucional e o Supremo Tribunal Eleitoral (TSE) permitiram.

Nesse contexto, a tensão disparou. Enquanto isso, a oposição tenta se organizar para pressioná-lo. Após vários dias de mobilização, Mesa lançou uma plataforma que reúne vários líderes da oposição e que pretende manter a pressão nas ruas até que force um segundo turno das eleições com a ajuda, especialmente, da OEA.

As dúvidas em torno do processo eleitoral deixaram esta semana a fotografia de um país profundamente dividido. Foi o que se viu nos protestos convocados nas principais cidades, onde os seguidores de Morales e de seu rival realizaram demonstrações de unidade e força. Todos exaltam a ideia de democracia. É o que faz o presidente, que está há dias chamando seus seguidores para protegê-la de forma pacífica. E é o que faz a oposição. Mesa, candidato da coalizão Comunidade Cidadã, apadrinhou na quarta-feira à noite uma aliança batizada como Coordenadora em defesa da democracia. Seu propósito é, em última instância, incentivar a desobediência ao Governo contra o que considera uma fraude eleitoral.

“O objetivo é alcançar o cumprimento da vontade popular de definir as eleições presidenciais em um segundo turno", afirmou o comunicado com o qual apresentou a iniciativa. Assim, a Coordenadora "convoca todas as bolivianas e todos os bolivianos dos nove departamentos do país a se mobilizarem pacificamente até conseguir que o objetivo democrático da convocação seja alcançado": um segundo turno, já fixado para 15 de dezembro.

Além de Mesa, representante da Frente Revolucionária de Esquerda — um movimento que se afastou de sua origem ideológica —, outras 11 figuras políticas do país deram apoio a essa plataforma. Do senador Óscar Ortiz, que também disputou as eleições, ao prefeito de La Paz, Luis Revilla, passando pelo governador do Departamento de Santa Cruz, Rubén Costas, e Waldo Albarracín, reitor da principal universidade da Bolívia, a San Andrés. Eles são acompanhados por comitês de cidadãos e pelo Comitê Nacional de Defesa da Democracia. Morales os desqualificou e afirmou que "em torno de Carlos Mesa se uniram todos os liberais, todos os privatizadores”.