Matteo Renzi | Senador do Partido Democrático e ex primeiro-ministro italiano

“Agora é preciso salvar a Itália; depois, nos dividiremos”

Ex-primeiro-ministro aposta em um "Governo de unidade nacional" em vez das eleições que Salvini exige

O ex-primeiro-ministro italiano Matteo Renzi, nesta terça-feira, em Roma.
O ex-primeiro-ministro italiano Matteo Renzi, nesta terça-feira, em Roma.FILIPPO MONTEFORTE (AFP)

O ex-primeiro-ministro e senador Matteo Renzi voltou à linha de frente para neutralizar a tempestade perfeita que Matteo Salvini (Liga) criou ao dinamitar a coalizão do Governo com o Movimento 5 Estrelas (M5S). Depois de irromper em cena como um ciclone disposto a arrasar primeiro com a velha política e de passar em seguida para o ostracismo, tornando-se um pária após perder um referendo constitucional que lhe custou o cargo e que marcou os últimos três anos da política italiana, Renzi, mais uma vez, tem espaço na complexa e intrincada situação política atual, como chave para um novo Governo de unidade nacional. Em uma entrevista por telefone a EL PAÍS, ele explica as razões pelas quais defende um acordo de todas as forças políticas para deter o líder da ultradireitista Liga.

Pergunta. A Itália está à beira de uma crise institucional. Como se chegou a esta situação?

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Resposta. É responsabilidade de um homem só: Matteo Salvini. Se tivesse escolhido pedir a votação antecipada depois das eleições europeias, teria sido uma decisão muito egoísta, talvez cínica, mas institucionalmente correta. No entanto, quis esperar que as semanas passassem e, de repente, precipitou tudo, quando não há tempo para convocar eleições antes da tramitação do orçamento e contra as tradições italianas que dizem que enquanto o orçamento é decidido não há votação.

P. Quais podem ser as consequências?

R. A isto se acrescenta uma mensagem muito provocativa de Salvini aos italianos: "Deem-me plenos poderes". Na Itália, o último que pediu plenos poderes foi Mussolini. Isso se junta ao problema da desaceleração da economia alemã, à guerra comercial entre a China e os Estados Unidos e ao fato de que na Itália o Governo de Salvini e do M5S projetou para 2020 um aumento de impostos. Em suma, é o caos perfeito.

P. Diante desse panorama, que alternativas propõe?

R. Em face dessa crise institucional, há duas alternativas: a primeira é ir às eleições e provocar um desastre econômico; a segunda é parar tudo e pôr em marcha um Governo que chamo de institucional.

P. O senhor tem a chave para um Governo institucional ou uma antecipação das eleições, o que fará?

R. Creio que no Parlamento há números para formar um Governo de unidade nacional e não para realizar eleições. Trabalho para atingir esse objetivo. Não faço isso como membro do meu partido, ou por motivos pessoais, mas como um ex-primeiro-ministro que está vendo uma situação de graves dificuldades e decidiu voltar para dar uma mãozinha.

P. O que propõe?

R. Não quero que a Itália entre em recessão por causa de um aumento de impostos ou da saída do euro. Quando as coisas estiverem resolvidas e as contas asseguradas, que as forças políticas do Governo de unidade nacional se confrontem umas com as outras. Agora temos que salvar a Itália, depois das eleições, nos dividiremos.

P. Outubro será um mês fundamental para o futuro relacionamento da Itália com a UE na questão do orçamento. Quem deve preparar as contas públicas?

R. Salvini pediu um voto no Parlamento [fixar a data do debate sobre a moção de censura contra o primeiro-ministro Giuseppe Conte, para 14 de agosto], e perdeu. Deveria renunciar. Mas, como não vai fazer isso, o mais lógico seria que o Governo populista que fracassou renuncie e que seja criado um novo, a partir de setembro, que possa preparar o orçamento e desempenhar um papel na Europa.

P. A permanência da Itália na União Europeia está em jogo?

R. Se Salvini pede plenos poderes e ganha, é evidente que com ele tudo é possível. Existe o risco de criar um caos também em nível europeu. Ao mesmo tempo, sei que no Parlamento há uma maioria europeísta, que não quer nem saber de saída do euro e votou a favor de Ursula von der Leyen como presidenta da Comissão Europeia [Força Itália de Silvio Berlusconi, PD e M5S].

P. Por que agora é partidário de um pacto com o M5S e depois das últimas eleições gerais não era?

R. Há um ano e meio o pacto teria sido uma autêntica bofetada nos eleitores, já que o M5S e a Liga obtiveram 50% entre os dois. Juntos, prometeram coisas irrealizáveis, gastar milhões e bilhões, prometeram uma agenda política que era alucinante, e sua experiência de Governo depois de um ano e meio mostrou todos os limites. Eu faço um chamado, não só ao M5S, mas a todas as forças políticas, para evitar o clima de ódio e os excessos de Salvini. Depois, uma vez assegurada a situação econômica e cultural italiana, vamos às eleições.

P. Falou com alguém do Movimento 5 Estrelas? Vê condições de aproximação?

R. Fui a pessoa mais atacada pelo M5S, mas agora, acima de meus ressentimentos, está o país. Vamos conversar com o Movimento. Acho que no M5S há uma sensibilidade para formar um Governo. Vejamos se são capazes de se sentar a uma mesa com os demais partidos e se cada um está disposto a renunciar a algo. Vamos garantir as contas e deixar Salvini em minoria, e quando as eleições forem convocadas, que vença o melhor.

P. Como avalia a decisão de Salvini de aceitar votar a reforma para reduzir o número de parlamentares que o M5S pedia, e que até agora vinha rejeitando?

R. Salvini estava convencido de ter o país e o Parlamento na mão, convencido de ir votar e vencer por goleada. Hoje, graças ao trabalho de muitos de nós, Salvini tem medo, enfrenta mais dificuldades, tanto que ontem [terça-feira] tentou recuar. Mas, na minha opinião, seu tempo acabou, em uma semana não será mais o ministro do Interior italiano.

"Parte dos italianos está farta de pregadores do ódio"

O ex-primeiro-ministro italiano Matteo Renzi faz um chamado para que se evite a todo custo um Governo de Salvini.

Pergunta. Desde que deixou de ser primeiro-ministro, a Itália se voltou para um partido de matizes ultradireitistas e xenófobos. O que aconteceu?

Resposta. Acho que a Itália, depois de ter visto como Salvini trabalha, quer e precisa de um momento de união nacional daqueles que não acreditam na direita extremista, que não incitam ao ódio, porque Salvini faz isso, induz ao ódio, e nós devemos educar na esperança

P. A Itália se tornou um país racista?

R. Fiquei comovido com a carta de uma mãe adotiva de um menino negro que denunciou episódios de racismo. Salvini induz ao ódio usando as mesmas palavras que Trump usa nos Estados Unidos, fala de invasão. É verdade que uma parte dos italianos deu confiança a Salvini, mas há outra parte, que na minha opinião é a maioria, que está cansada dos pregadores do ódio.

P. O M5S é cúmplice da política de Salvini?

R. Veremos nas próximas semanas. Se quiserem seguir em frente, aceitarão a cultura de Salvini, que decidiu quando se deve ir votar, e como e por quê, e que quer decidir tudo sozinho. Se o M5S fizer prevalecer a ala mais razoável, vai parar Salvini e haverá um Governo que eu espero seja guiado por uma personalidade confiável e autorizada que saberá levar a Itália à posição que merece no mundo.

R. Está ciente de que seu novo movimento projeta uma esquerda mais dividida?

R. A divisão é tão secundária para mim neste momento em que estou disposto a criar um Governo de unidade nacional. O PD, todas as esquerdas, devem a todo custo evitar abrir o caminho para um Governo Salvini.

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