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Salvini rompe Governo de coalizão na Itália e exige eleições antecipadas

Líder direitista da Liga considera que é hora de devolver "a palavra aos eleitores"

O primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, com o líder da Liga, Matteo Salvini, em outubro passado em Roma
O primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, com o líder da Liga, Matteo Salvini, em outubro passado em Roma AFP

A fissura aberta no Governo de coalizão italiano que reúne o populista Movimento 5 Estrelas (M5S) e a direitista Liga chegou a um ponto de não retorno depois de dois dias de crise. O vice-premiê e ministro do Interior, Matteo Salvini, deu nesta quinta-feira por rompida a maioria que sustenta o Executivo, pediu ao primeiro-ministro Giuseppe Conte que compareça “imediatamente ao Parlamento” para comprovar isso e exigiu a convocação de eleições antecipadas o quanto antes. As desavenças vinham crescendo fortemente nos últimos dias, especialmente por causa da rede ferroviária de alta velocidade, um assunto em que os sócios mantêm posturas inconciliáveis.

Salvini formalizou na manhã desta sexta-feira suas ameaças de derrubar o governo. A Liga entrou com uma moção de censura contra Conte, que até agora apoiava a coalizão com o anti-sistema do M5S. O movimento do partido do Ministro do Interior lança oficialmente o procedimento para desmantelar o Executivo e investigar possibilidades futuras, como a busca por outra possível maioria nesta legislatura ou a convocação de eleições.

Conte, que na tarde de quinta-feira manteve uma reunião de emergência com o ministro na sede do Governo, respondeu ao desafio já de noite, atacando duramente Salvini, a quem acusou que ser o único instigador da crise e de querer “capitalizar o apoio que a Liga goza atualmente”. Também anunciou sua intenção de convocar a Câmara e o Senado para constatar os apoios que tem. “Não cabe a Salvini decidir os tempos”, afirmou, num pronunciamento sem responder a perguntas.

Desde quarta-feira falava-se de uma profunda remodelação do Executivo, mas a Liga rejeitou essa hipótese e, em um duro comunicado, pediu que a palavra seja dada aos eleitores. “Cada dia que passa é um dia perdido. A única alternativa a este Governo é voltar a dar a palavra aos italianos com novas eleições”, afirmou.

A crise de Governo chegou ao ápice a partir de quarta-feira, após o Senado votar uma moção que bloqueava as obras do trem de alta velocidade na rota Turim-Lyon, que havia sido proposta pelo Movimento 5 Estrelas (M5S). A Liga deixou seus sócios sozinhos e se alinhou ao voto contrário dos demais partidos. “Algo se rompeu na maioria”, disparou Salvini naquele dia em um comício na praia de Sabaudia, durante sua excursão com sabor eleitoral pela costa do país, alimentando as especulações sobre uma possível ruptura da coalizão.

Conte, uma figura de consenso escolhida por ambos os partidos e que agiu como mediador em outras ocasiões, tornou-se o único expoente na órbita do M5S capaz de fazer frente a Salvini, com um Luigi Di Maio praticamente ausente. O líder do movimento fundado populista, que não participou da reunião entre Conte e Salvini, embora estivesse no prédio, recebeu praticamente em estado de choque a investida do ministro do Interior, como o resto do Movimento, e se limitou a pedir que as eleições ocorram depois que o Parlamento aprovar a redução do número de deputados, prevista para setembro.

O primeiro-ministro, que pela manhã se reuniu com o presidente da República, Sergio Mattarella, para lhe informar sobre a situação, defendeu o trabalho do Executivo e disparou um dardo contra Salvini: “Este Governo tem trabalhado muito, não está na praia”.

Salvini, consciente de que tem a chave do Governo, aproveitou nos últimos meses sua vitória nas eleições europeias e seus altos níveis de popularidade —as pesquisas lhe conferem mais de 36% de intenções de voto— para agitar o fantasma das urnas e pressionar seus sócios, que atravessam um momento de fragilidade. Até agora só tinha jogado com a incerteza, falando em um tom ambíguo. “Logo mais saberemos”, disse ele nesta semana, na última ocasião em que foi perguntado sobre as hipotéticas eleições. Entretanto, escolheu dinamitar o Governo dois dias depois de o Senado, com o apoio imprescindível de seus até agora sócios, desse a luz verde definitiva à sua polêmica lei anti-imigração.

Resta ver quando o Parlamento se reunirá para averiguar se o primeiro-ministro conta com apoio suficiente para continuar governando, embora seja algo improvável se a Liga, que tem a chave da maioria, lhe der as costas. Nesse caso, teria duas opções: procurar uma nova maioria, sondando outros partidos, uma opção também remota, ou convocar um pleito antecipado.

Orçamentos

O M5S conseguiu apenas pedir mais clareza aos seus sócios de coalizão. “A nota da Liga é incompreensível. Que digam claramente o que querem fazer. Que sejam claros”, disseram os dirigentes do M5S no seu comunicado. “Não gosto das brincadeirinhas palacianas”, arrematou Di Maio.

Mattarella é partidário de manter o Executivo em pleno funcionamento no segundo semestre para elaborar os orçamentos, cujo primeiro rascunho deve ser apresentado à UE no fim de setembro. No ano passado, os políticos italianos levaram meses para conseguir traçar um esboço das contas públicas, o que gerou duros atritos com Bruxelas.

O M5S e a Liga governam juntos desde 1º de junho de 2018. Neste tempo, os equilíbrios de poder sofreram reviravoltas, e desde as eleições europeias de maio a formação de Salvini se erigiu como o maior partido da Itália. Segundo as pesquisas, Salvini não conseguiria governar sozinho, mas conseguiria formar uma coalizão com o partido ultradireitista Irmãos da Itália e com o conservador Força Itália, de Silvio Berlusconi, com o qual já se coligou na última eleição geral.

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