Roberto Lavagna | Candidato à presidência argentina

“Política econômica de Macri fracassou desde o primeiro dia”, diz ex-ministro da Economia argentino

Roberto Lavagna, artífice da recuperação argentina depois do colapso de 2002, agora é candidato centrista à presidência

O candidato presidencial argentino Roberto Lavagna.
O candidato presidencial argentino Roberto Lavagna.Télam

O nome de Roberto Lavagna (Buenos Aires, 77 anos), que foi ministro da Economia da Argentina entre 2002 e 2005, está sempre associado à recuperação do país depois do colapso financeiro de 2002. Agora, ele é o terceiro candidato à presidência, a opção centrista entre a direita de Mauricio Macri e o peronismo radical de Alberto Fernández e Cristina Fernández de Kirchner. Aspira a estender pontes e reduzir o famoso racha entre duas opções absolutamente confrontadas.

Pergunta. Ainda resta espaço entre Macri e os Fernández?

Resposta. Acho que sim, do ponto de vista da demanda. As pesquisas mostram que 40% dos eleitores prefeririam não ter que votar em nenhum dos dois grandes polos. A oferta é a canalização política, e aí temos dois polos muito poderosos em recursos econômicos e territoriais, em relações com os empresários e com os meios de comunicação… A oferta vai atrás da demanda.

Mais informações

P. O senhor identifica seus potenciais eleitores mais com um lado que com outro?

R. Diziam que eram mais de Macri, mas agora outros dizem o contrário, porque tenho [a deputada peronista] Graciela Camaño como principal candidata na província de Buenos Aires. Tenho eleitores de ambas as procedências.

P. O que se fez de ruim nestes últimos quatro anos?

R. Acumulamos três anos de crescimento negativo. A política econômica fracassou desde o primeiro dia.

P. O que faria na sua primeira semana como presidente?

R. Não há no mundo outro país em paz com oito anos de estagnação, exceto talvez a Grécia, com um tamanho muito menor. É preciso pôr para funcionar o que já existe, e isso exige duas coisas. Primeiro, elevar o consumo, pondo dinheiro no bolso das pessoas.

P. Como se faz isso?

R. Subindo o salário mínimo, indexando os créditos pessoais aos salários, e não às variáveis financeiras, reduzindo cargas fiscais sobre os salários mais baixos… Esse dinheiro iria para a demanda, não para a especulação.

Simultaneamente, devemos estimular o investimento baixando impostos. O governo populista de Cristina Fernández de Kirchner empurrava o consumo, mas não os investimentos, e a única coisa que conseguiu foi criar inflação. O atual governo de Mauricio Macri prescindiu do consumo e anunciou grandes investimentos estrangeiros que não chegaram. Pelo contrário, houve mais fuga de capitais.

P. Como elevar o consumo num país onde as taxas de juros rondam os 60%?

R. O conjunto de preços relativos da economia argentina hoje conduz à especulação financeira. É preciso modificar o conjunto dos preços: salários, taxa de câmbio, taxas de juros, impostos… Os salários e o peso estão muito baixos, os juros e os impostos estão muito altos.

P. Um de cada três argentinos é pobre.

R. Sim, 52% dos jovens menores de 17 anos estão em situação de pobreza. É uma consequência da estagnação. Não geramos emprego.

P. O senhor é conhecido das pessoas mais velhas, porque recordam sua gestão como ministro na recuperação econômica posterior a 2002. Os jovens o conhecem?

R. Menos. Mas de vez em quando algum me para na rua para tirar uma foto comigo, porque o pai ou o avô lhe contaram. A crise de 2001-2002 foi imensamente mais profunda que a atual. Há uma memória de tudo aquilo, que foi transmitida. Ao ver o fracasso de dois governos consecutivos de sinal oposto, existe curiosidade pelas fórmulas que se aplicaram na época.

P. O que opina do acordo entre o Mercosul e a União Europeia?

R. Eu faria como o presidente francês, Emmanuel Macron, que criou uma comissão de estudos no Parlamento. Coisa que nosso Governo não fará. Macri aderiu a qualquer coisa, por esse negócio de ser sócio dos ricos. O mesmo fez Carlos Menem com as famosas “relações carnais” com os Estados Unidos.

P. E o acordo com o Fundo Monetário Internacional?

R. É preciso modificar esse acordo, como o modificamos em 2002. Devemos recuperar o conceito de país soberano.

P. Com que país gostaria que a Argentina se parecesse?

R. Não vou cair na tolice de dizer que a Suécia ou a Noruega. Eu gostaria de um país como o que fomos até os anos 60 do século XX.

P. Como se explica que a Argentina vá tão mal, com todos seus recursos?

R. Um dia se disse que a Argentina era um dos países mais ricos do mundo, como se poderia dizer agora do Kuwait e Arábia Saudita. Isso não significa que estejam desenvolvidos. Trata-se de uma confusão. A Argentina foi um país rico, mas em matérias-primas e com uma riqueza muito concentrada.

P. Suponhamos que nas primárias de 11 de agosto o senhor consiga em torno de 10%. E depois?

R. Depois, nada. Há um trabalho a fazer no Congresso. Imagine um Congresso onde de um lado estão os de Macri, e do outro estão os de Kirchner. Algum espaço tem que haver no centro para ajudar um mínimo consenso e tornar possível a governabilidade.