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Macron transforma o 14 de Julho em uma comemoração da cooperação europeia em defesa

No total 175 pessoas foram presas nesse dia, de acordo com a chefatura da polícia de Paris

Macron durante o tradicional desfile militar do 14 de julho em Paris. Ver galeria de fotos
Macron durante o tradicional desfile militar do 14 de julho em Paris. AFP

O desfile de 14 de Julho, a grande festa nacional francesa, o dia em que se comemora a queda da Bastilha, a data clássica de exibição do orgulho e poderio militar francês, que inspirou Donald Trump a organizar seu próprio desfile com tanques, teve nesse domingo um inédito sotaque europeu. Pelos Campos Elíseos também desfilaram mais de uma centena de soldados espanhóis, junto com destacamentos de outros países que fazem parte da Iniciativa Europeia de Intervenção (IEI), um projeto de cooperação militar europeia impulsionado por Emmanuel Macron. Ao lado do presidente francês, na tribuna de honra, estiveram como convidados a chanceler alemã, Angela Merkel, e outros mandatários e representantes de alto escalão dos nove países que fazem parte da iniciativa, que nas palavras de Macron significa: “Um belo símbolo da Europa da defesa que estamos construindo”.

O simbolismo da cooperação europeia ficou um pouco embaçado pelas ausências na tribuna. O cancelamento do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, que foi substituído por sua ministra da Defesa, Margarita Robles, se somou de última hora ao da primeira-ministra britânica, Theresa May, que foi representada por seu número dois, David Lidington. Acompanharam atentamente o desfile, além de Merkel, os presidentes da Estônia, Finlândia e Portugal, assim como os primeiros-ministros da Bélgica e da Holanda, a ministra da Defesa dinamarquesa e o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e o secretário geral da OTAN, Jens Stoltenberg.

Durante a realização do desfile militar foram registrados confrontos entre a polícia e algumas dezenas de manifestantes, que não vestiam coletes amarelos, de acordo com a agência France Press. Várias lixeiras foram incendiadas e os manifestantes colocaram barreiras metálicas na rua, ato que a força policial respondeu com gás lacrimogêneo. De acordo com a chefatura da polícia de Paris, 175 pessoas foram presas nesse dia. Ainda que não tenham comparecido com a vestimenta fluorescente, três membros do movimento dos coletes amarelos também foram presos no domingo. Ao final do dia, somente um deles, Éric Drouet, ainda estava sob custódia policial, explicou a agência estatal de notícias francesa.

No sábado, em seu tradicional discurso aos exércitos, Macron frisou que a iniciativa de cooperação europeia não é uma perda de soberania e, de maneira nenhuma, uma reprimenda à OTAN. “Uma das prioridades de meu mandato é conseguir com que as nações europeias ajam juntas em matéria de defesa. Isso não é renunciar e reduzir a soberania nacional, assim como não significa renunciar à Aliança Atlântica. Ou seja, desenvolver programas de equipamento comuns e capacidade coletivas faz sentido”, frisou Macron no domingo.

Nesse sentido, destacou também a colaboração entre a França e a Alemanha, que acabou de ganhar a companhia da Espanha, para a fabricação do futuro caça europeu do século XXI (FCAS e NGWS nas siglas em inglês), que pretende substituir as atuais frotas de aviões de combate para 2040. A maquete do avião foi apresentada, com grande pompa, na Feira de Aeronáutica e no Espaço de Le Bourget, nas proximidades de Paris, há um mês, com a presença de Macron e das ministras da Defesa da França, Florence Parly, da Alemanha —a agora candidata a substituir Juncker, Ursula Von der Leyen—, e a espanhola Margarita Robles.

A IEI nasceu formalmente em julho do ano passado com a assinatura de uma carta de intenções em Bruxelas para consolidar a iniciativa que procura agilizar os procedimentos com o objetivo de agir conjuntamente em missões de interesse europeu também de caráter civil, tanto na UE como na OTAN, ONU e coalizões cridas especificamente. Em novembro, a Finlândia se transformou no décimo membro da Iniciativa Europeia de Intervenção.

De acordo com Macron, “jamais, desde o final da Segunda Guerra Mundial, a Europa foi tão necessária. A construção de uma Europa da defesa, ligada à Aliança Atlântica da qual comemoramos nesse ano seu 70º aniversário, é para a França uma prioridade”, enfatizou no sábado.

Com a iniciativa Europeia de Intervenção “estamos passando a uma velocidade superior” em matéria de cooperação militar europeia, disse sua ministra de Defesa, Florence Parly, em uma entrevista no domingo ao Le Parisien. “A Europa da defesa avança, com os Estados que têm capacidade militar provada, assim como a vontade política de fazer uso dela”, afirmou. Uma questão que a Europa está há mais duas décadas discutindo, mas que até agora nunca havia sido tão concreta, acrescentou a ministra.

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