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Análise
Exposição educativa de ideias, suposições ou hipóteses, baseada em fatos comprovados (que não precisam ser estritamente atualidades) referidos no texto. Se excluem os juízos de valor e o texto se aproxima a um artigo de opinião, sem julgar ou fazer previsões, simplesmente formulando hipóteses, dando explicações justificadas e reunindo vários dados

Maia se firma como a voz da ponderação e cresce no panteão político

Moderação vitoriosa do presidente da Câmara fortalece a centro-direita, ofuscada pelo radicalismo de Bolsonaro. Protagonismo com a reforma pode perfilar o deputado para 2022

Maia discursa antes da votação do texto base da reforma da Previdência
Maia discursa antes da votação do texto base da reforma da PrevidênciaL.Macedo (Câmara dos Deputados)

O Rodrigo Maia de 2019 definitivamente não parece o mesmo que se candidatou a Prefeitura do Rio de Janeiro em 2012 e amargou um terceiro lugar com apenas 2,94% da preferência (95.328 votos). Já acumulava experiência como um dos líderes da oposição ao PT na Câmara, mas localmente sempre foi visto apenas como o filho de César Maia, a velha raposa da política fluminense que havia sido prefeito da capital em duas ocasiões. “Baby Maia”, um de seus vários apelidos, era então apenas uma cópia piorada do pai, que tem uma retórica política convincente construída no seio do brizolismo. Mas Rodrigo tropeçava nas palavras e titubeava durante os debates. A batida animada de seu jingle contrastava com seu semblante fechado e sisudo no próprio clipe de campanha. Possuía uma expressão no rosto tão infantil quanto insegura e um carisma abaixo da média – e isso ficava mais evidente quando se apresentava ao lado de sua vice na chapa, a então juvenil Clarissa Garotinho. Era o picolé de chuchu carioca. Muitos riam dele.

Os que antes zombavam agora estão diante de alguém que aprendeu com habilidade a ocupar um vácuo de poder deixado pela falta de articulação – por incompetência pessoal ou projeto autoritário – do presidente Jair Bolsonaro. Tem mostrado a habilidade e a inteligência de Eduardo Cunha, mas sem seus esqueletos no armário. Maia não bate de frente, articula – a ponto de conseguir os votos de parlamentares do PT, do PCdoB e do PDT para ser eleito o presidente da Câmara em 2017 com 287 votos.  Foi reeleito no início deste ano com 334. Alguém que enfrenta publicamente os super-ministros Sergio Moro e Paulo Guedes e dá as costas para os arroubos de Bolsonaro para tocar a sua agenda de reformas econômicas liberais conseguiu impressionantes 379 votos para aprovar a Previdência. E que mira longe.

Mais do que disputar a Presidência da República em 2022, o candidato azarão da prefeitura do Rio parece querer liderar uma centro-direita que ficou a reboque da extrema direita desde 2015 e que implodiu nas eleições de 2018. Fez deste 10 de julho um dia de glória para sua carreira política. “Fiador”, “pai da reforma”, “o verdadeiro vitorioso”. Foram muitos os elogios nesta quarta-feira, dia que ele chamou de “histórico” pela votação do texto da reforma da Previdência. “Um investidor de Nova York me ligou agora e perguntou: ‘Em ordem de importância, quem garantiu a reforma?’ Sem Rodrigo Maia não haveria reforma da Previdência”, tuitou Thiago de Aragão, analista político da Arko Advice.

Outrora apagado e coadjuvante, Maia tem assumido um papel central no panteão político brasileiro, respeitado por todas as cores. Em seu discurso, que silenciou a Câmara, enalteceu não só o papel dos deputados como da própria política, que foi jogada no esgoto pelo senso comum, e da democracia, torturada nos últimos tempos. “As soluções dos problemas da pobreza, dos problemas dos brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza, dos problemas de milhões de desempregados passam pela política. E não haverá investimento privado, mesmo com reforma tributária, mesmo com reforma previdenciária, se nós não tivermos uma democracia forte”, assegurou.

A bateção de cabeça do Governo nos primeiros meses ajudou a destacar o deputado carioca, que já deu bronca pública no presidente Jair Bolsonaro, no ministro da Justiça Sergio Moro e já desdenhou dos irmãos Carlos e Eduardo Bolsonaro. “Não perco tempo com Carlos. Passei o dia estudando o texto da reforma da Previdência e da reforma tributária”, disse ele à Folha quando o vereador e filho do presidente o fustigava nas redes sociais. Já o havia chamado de “doido” e “radical”, e dizia claramente que era o presidente e pai dele quem estava por trás dos ataques do filho. O deputado Eduardo foi chamado de “deslumbrado” por Maia.

Assim, sem papas na língua, Maia já disse em entrevista o que muitos brasileiros pensavam. “Bolsonaro precisa ter mais tempo cuidando da reforma da Previdência, e menos tempo para cuidar do Twitter”, disse ele. Muito antes das reportagens que chamuscaram a imagem do ministro da Justiça, Maia também colocou o ministro Sergio Moro no lugar quando ele se mostrava ansioso por ter seu projeto anticrime em votação na pauta da Câmara. Em março, Moro ligou diretamente para Maia sugerindo que seu projeto entrasse em pauta, disputando protagonismo com o texto da reforma da Previdência. Maia ficou irritado e não escondeu o fato quando foi questionado por jornalistas. Maia chamou Moro de ‘funcionário do presidente Bolsonaro’. “O funcionário do presidente Bolsonaro? Ele conversa com o presidente Bolsonaro e se o presidente Bolsonaro quiser ele conversa comigo”, disse o presidente da Câmara, dizendo que Moro conhecia pouco de política. "Eu sou presidente da Câmara, ele é ministro funcionário do presidente Bolsonaro".

No papel de freio ou contrapeso para os arroubos do presidente e sua equipe, conclui-se que é preciso respeitar a figura de Maia para que o país avance. “O poder migrou definitivamente do Planalto para o Congresso e o tom deverá ser este ao longo da atual legislatura”, escreveu o economista André Perfeito. Está claro que Maia agora será mais que o queridinho do mercado financeiro, que vem batendo recorde de negócios na bolsa desde que Maia colocou a pauta em andamento no final da semana passada.

Para além do mundo financeiro,  a força de Maia começa a perfilá-lo para 2022 como figura forte até para concorrer à presidência da República, muito embora ele negue essa ambição. A história recente do Brasil mostrou um juiz que também negava assumir um ministério. Mas cedeu à tentação.

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