Eclipses

Grande eclipse solar sul-americano, o evento astronômico de 2019

Nesta terça-feira, 2 de julho, acontece o o único eclipse total do Sol observável no mundo no ano

Primeiro eclipse solar fotografado no Chile, em 1893.
Primeiro eclipse solar fotografado no Chile, em 1893.

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Em 31 de julho de 1543, por volta do meio-dia, o Sol morreu. O céu do Tawantinsuyu — o império inca — vestiu-se de negro, e os habitantes da região andina ao norte do atual Chile interpretaram isso como sinal de uma catástrofe iminente: em seu sistema de crenças, esse fenômeno astronômico, ao qual chamavam de intimtutayan, era entendido como uma irritação de Inti, o deus do sol, por alguma ofensa cometida contra ele.

O obscurecimento em pleno dia era temido: além de ser visto como a expressão da tristeza de uma das deidades mais veneradas no panteão incaico, implicava a morte do astro e pressagiava grandes calamidades.

Tal espetáculo, registrou o cronista Pedro Pizarro em sua Relação do Descobrimento e Conquista dos Reino do Peru (1571), teve uma consequência direta: assim que a Lua se interpôs entre a Terra e o Sol, um grupo de indígenas se negou rotundamente a revelar ao conquistador espanhol Lucas Martínez Vegaso a localização exata das ricas minas de prata da região. “Seus feiticeiros lhes diziam que morreriam todos e lhes secariam suas terras se as descobrissem”, escreveu Pizarro. “Lucas Martínez os incentivou, dizendo-lhes que temessem, que seus feiticeiros não diziam a verdade. Mas os índios lhe disseram que o Sol se zangou e por isso havia parado daquela maneira.”

Não se sabe o que ocorreu com esses indivíduos, mas o fato é que aquela mistura de assombro, temor e fascinação perante eventos desse tipo, tão incontroláveis quanto deslumbrantes, perdura desde então e voltará a se ativar na próxima terça-feira, 2 de julho, quando se repetir este balé cósmico que já é conhecido como o “grande eclipse sul-americano”.

Ilustração da crônica de Martín de Murúa que mostra o inca Pachacútec e o deus do sol, Inti.
Ilustração da crônica de Martín de Murúa que mostra o inca Pachacútec e o deus do sol, Inti.

Será o evento astronômico do ano: o único eclipse total do Sol observável no mundo em 2019. Durante a tarde, uma faixa de escuridão — ou umbra, momento de maior sombra em um eclipse — percorrerá diagonalmente a América do Sul, do oeste para leste: passará às 16h38 (hora local) pelas regiões de Atacama e Coquimbo (Chile); e a partir das 17h40 (hora local) pelas províncias argentinas de San Juan, La Rioja, San Luis, Córdoba, Santa Fe e norte de Buenos Aires e também pelo Uruguai até perder-se no Atlântico.

“Observar um eclipse pode se transformar em um evento social e em uma vivência compartilhada, da qual todas as testemunhas conservarão uma lembrança que as acompanhará pelo resto de suas vidas”, diz a astrônoma Mariela Corti, do Instituto Argentino de Radioastronomia (Conicet). “Trata-se de um evento da natureza ante o qual só podemos ser observadores. É completamente impossível para nós evitá-lo: o ser humano pode sentir uma impotência absoluta diante do seu desenvolvimento. Os eclipses são completamente independentes das decisões que tomamos e de nossas ações”, acrescenta.

Céus antigos

Em 1887 o astrônomo austríaco Theodor von Oppolzer realizou uma tarefa titânica: compilou, em seu Canon der Finsternisse (“cânone dos eclipses”), mais de 13.000 eclipses (8.000 solares e 5.200 lunares) que aconteceram e acontecerão entre os anos 1207 a.C. e 2161.

“Trata-se de um evento da natureza perante o qual só podemos ser observadores. É completamente impossível evitá-lo: o ser humano pode sentir uma impotência absoluta perante seu desenrolar”

Entre eles figura aquele eclipse do Sol em 31 de julho de 1543. Também o de 9 de junho de 1592, que foi visto na cidade chilena de La Serena, do qual, embora não haja registros escritos da época, sabe-se que durou 3 minutos e 54 segundos.

O eclipse solar de 16 de abril de 1893, por outro lado, foi observado por três expedições científicas: uma chilena do Observatório Astronômico Nacional da Universidade do Chile e dois dos Estados Unidos (Observatório Lick e Harvard).

Do outro lado da cordilheira dos Andes, no atual território argentino, em 28 de setembro de 1810 se observou o primeiro eclipse de Sol logo depois da Revolução de Maio. Como recorda o engenheiro e historiador da astronomia Santiago Paolantonio, o italiano Octavio Fabrizio Mossotti foi o primeiro astrônomo profissional a atuar no país e realizou várias observações na década de 1830. “Alto, ruivo e de olhos azuis, tinha um interesse especial: o céu”, descreve o historiador Daniel Balmaceda em seu livro Estrellas del Pasado. “Registrou um eclipse de Sol em 20 de janeiro de 1833 e um da Lua em 15 de dezembro de 1834. Também relatou o trânsito de Mercúrio diante do Sol, em 5 de maio de 1832, para inveja de seus colegas na Europa, que tiveram uma jornada de nuvens e o perderam”.

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Os eclipses — do grego ékleipsi, que significa abandono — só começaram a perder seu mistério no século XX, quando levas de cientistas o livraram do seu halo de portador de maus augúrios e se propuseram a espremer cada dado resultante de sua observação. Em 12 de novembro de 1966, por exemplo, na província de Salta, no norte argentino, pesquisadores locais, franceses e norte-americanos lançaram a chamada Operação Orion-Eclipse, com 17 foguetes-sonda a fim de estudar erupções solares, radiações de ondas e tormentas visíveis na coroa do sol.

Convite à sombra

Há várias circunstâncias que tornam o Grande Eclipse Sul-Americano tão especial: para começar, completam-se cem anos do eclipse histórico de 1919, durante o qual foram verificadas as previsões da Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein, em especial como a gravidade deforma o espaço e o tempo. Também se trata de uma nova oportunidade para todos aqueles que se perderam o chamado “Grande Eclipse Norte-Americano” de 21 de agosto de 2017, que mobilizou os Estados Unidos.

Em seu livro Eclipse: History, Science, Awe, o escritor Bryan Brewer menciona que parte da mística dos eclipses solares totais se deve à sua raridade geográfica. Um eclipse total do Sol é visto em um mesmo lugar em média uma vez a cada 375 anos. “Embora os eclipses tenham uma frequência média de dois por ano no mundo, nem sempre podem ser observados do lugar geográfico onde estamos”, diz a astrônoma Georgina Coldwell, que compila no site Totalidad.com.ar, da Associação Argentina de Astronomia, todas as atividades e palestras em torno da data.

As pequenas cidades no caminho do eclipse experimentarão uma onda turística sem precedentes. Milhares de pessoas provenientes de todo o mundo — curiosos ocasionais e caçadores profissionais de eclipses — procurarão se banhar de escuridão. “A capacidade hoteleira desde julho do ano passado está quase esgotada”, afirma María Eugenia Varela, diretora do Instituto de Ciências Astronômicas da Terra e do Espaço (Conicet/Universidade Nacional de San Juan).

Dentro da estreita zona de onde se observará a totalidade do eclipse, o único local turístico com capacidade hoteleira na Argentina é Villa de Merlo, na província de San Luis. “Um contingente de japoneses nos visitará para esse evento tão espetacular”, conta, entusiasmado, Gastón Mendoza Vieran, diretor do planetário local.

Durante a tarde uma faixa de escuridão -ou umbra, momento de maior sombra em um eclipse – percorrerá diagonalmente a América do Sul, de oeste para leste

Outra avalanche de turistas, procedentes da Finlândia, se instalará em La Serena, Chile. “Para muitos será seu primeiro eclipse”, conta o jornalista científico Jari Makinen, organizador deste tour astronômico. “Em geral, procuram uma experiência extraordinária. Aproveitaremos e visitaremos também o deserto do Atacama, e lá o Very Largue Telescope e o observatório astronômico ALMA.”

O eclipse coincide, além disso, com a celebração dos 50 anos do Observatório Europeu Austral (ESO), no Chile, país considerado o epicentro da astronomia mundial: atualmente, por sua geografia e seus céus limpos — uma média anual de 280 a 300 noites sem nuvens no norte — concentra 40% dos observatórios do planeta.

Como quem assiste a um concerto, os que planejam presenciar esse impactante espetáculo natural vivem a expectativa desde meses antes do momento em que a Lua engolirá o Sol. Quando esse momento chegar, as flores se fecharão, os animais andarão desorientados, a temperatura baixará, os cães latirão, e o dia vai virar noite.

Absolutamente todos elevarão os olhos para o céu, e durante breves segundos experimentarão a transcendência: uma magnífica demonstração do que acontece quando os objetos celestes se alinham.