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“Chefe do Governo de Hong Kong continuará sendo uma marionete da China”

Líder estudantil, Joshua Wong saiu da prisão nesta segunda-feira após cumprir pena por protestos de 2014, em plena nova onda de mobilizações populares

O ativista Joshua Wong fala com a imprensa após ser libertado, nesta segunda-feira, em Hong Kong.
O ativista Joshua Wong fala com a imprensa após ser libertado, nesta segunda-feira, em Hong Kong. Getty Images

Joshua Wong foi o líder mais carismático do movimento estudantil dos Guarda-Chuvas, em Hong Kong, cinco anos atrás. Com apenas 17 anos, conseguiu mobilizar os secundaristas para que participassem de manifestações passivas — sentados no chão — que paralisaram o centro da ex-colônia britânica durante quase três meses. Acaba de cumprir uma pena de três meses de prisão por acusações relativas àqueles protestos, que marcaram um antes e um depois na conscientização popular da sua geração. Sua libertação, nesta segunda-feira, não poderia ocorrer num momento mais crucial: um dia depois de dois milhões de cidadãos, segundo os organizadores, ou 337.000, segundo a polícia, paralisarem o centro da cidade para exigir a demissão da chefa de Governo, Carrie Lam, e a retirada do polêmico projeto de lei que permite a extradição dos cidadãos do território para a China continental.

Poucas horas depois de ser solto, e enquanto se dirigia a saudar os manifestantes concentrados em frente à sede do Legislativo de Hong Kong, que o acolheram com um entusiasmo ensurdecedor, Wong concedia uma breve entrevista a vários meios de comunicação espanhóis, entre eles o EL PAÍS.

Pergunta. Como foi seu tempo na prisão?

Resposta. Não foi fácil suportar a pressão. Não podia trocar a camiseta mais do que duas vezes por semana. A situação ali era de bastante sujeira.

P. Agora, quais são os seus planos? Estará à frente do movimento de manifestantes?

R. A verdadeira líder destas manifestações, na verdade, é Carrie Lam. Sem a terrível atitude que demonstrou não teríamos tido um milhão de pessoas nas ruas. Então, se me perguntam quem é mais adequado para liderar este movimento, eu diria que é Carrie Lam. É a única que mobilizou tanta gente a sair à rua.

P. O que opina da organização dos protestos?

R. Nas últimas semanas, a coordenação foi uma coisa dos cidadãos. Não há líderes. Isto é o que torna este movimento único, diferente de protestos anteriores e do Movimento dos Guarda-Chuvas. Espero que a comunidade internacional se dê conta de que simplesmente não podemos permanecer silenciosos nesta batalha contra Pequim. Há dois meses, se alguém dissesse que haveria um milhão de pessoas numa manifestação, ninguém teria acreditado. Absolutamente ninguém. Mas há cinco anos, quando se dissolveu o Movimento dos Guarda-Chuvas, dissemos que voltaríamos. E, cinco anos depois, após sofrer supressão política e pressões, conseguimos. Conseguimos. Estamos de volta à Harcourt Road [a principal rua nos protestos de 2014, e ocupada de novo nas manifestações da quarta-feira e no domingo].

P. Você acaba de sair da prisão, e a primeira coisa que fez foi exigir a renúncia de Lam. Mas o que mudaria se ela renunciasse? Não teme uma dura resposta de Pequim para Hong Kong?

R. Não importa quem seja nomeado por Pequim para o cargo de ministro-chefe, continuará sendo uma marionete da China. Mas em qualquer sociedade democrática Lam já teria renunciado. Essa é a simples realidade.

P. Você acha realmente que Carrie Lam pode acabar renunciando num futuro próximo?

R. Na próxima semana acontecerá a cúpula do G20 [em Osaka, Japão, para a qual estão convidados o presidente dos EUA, Donald Trump, e o da China, Xi Jinping]. Sabemos que Trump pode cogitar manter conversar com o imperador Xi sobre o projeto de lei de extradição de Hong Kong. Que Xi Jinping perceba então que Carrie Lam é um peso político para ele, e que mantê-la como líder o prejudica.

P. Que perspectivas vê para o 1º de julho, quando Hong Kong comemora o aniversário da volta à soberania chinesa, em 1997, habitualmente com uma grande manifestação?

R. Antes de 1º de julho, Carrie Lam tem que ter posto fim à sua carreira política. Precisa pagar um preço por como permitiu, apoiou, deu seu aval e seu respaldo a que a Polícia de Hong Kong disparasse contra os cidadãos.

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