Bolsonaro demonstra apoio discreto a Moro sem manifestação pública

Presidente condecorou ministro da Justiça em evento da Marinha, mas até final da tarde de terça não se pronunciou sobre as acusações reveladas pelo 'The Intercept Brasil'. Lula celebra a “verdade que adoece mas não morre”

Bolsonaro e Moro durante cerimônia nesta terça-feira.
Bolsonaro e Moro durante cerimônia nesta terça-feira. ADRIANO MACHADO (REUTERS)

MAIS INFORMAÇÕES

O Brasil está atento aos gestos da classe política para medir as mudanças de humores após as revelações trazidas pelas reportagens do The Intercept Brasil. O presidente Jair Bolsonaro tratou de debelar especulações de que abandonaria seu ministro mais popular, e apareceu ao lado do titular da Justiça, Sergio Moro, em evento da Marinha brasileira, em Brasília, na manhã desta terça. Mas não se pronunciou abertamente sobre ele ao longo do dia, e fugiu da pergunta de jornalistas a respeito do assunto quando cumpria agenda em evento à tarde em São Paulo.

Enquanto isso, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu pela manhã com seus advogados na prisão de Curitiba. Segundo a sua defesa, ele ficou impressionado com as informações reveladas no The Intercept Brasil, que, a priori, podem beneficiá-lo. Segundo seus advogados, o ex-presidente ficou surpreso com a rapidez "com que a verdade foi revelada". "A verdade está doente, mas nunca morre", disse Lula, segundo seu advogado José Roberto Batochio.

"O ex-presidente ficou surpreso com a promiscuidade que é vista [nas conversas reveladas pela Intercept] entre o acusador e o juiz", completou Batochio. O Intercept revelou a troca de mensagens entre o ex-juiz Sergio Moro e o coordenador da operação Lava Jato, Deltan Dallagnol, antes da apresentação das acusações contra o ex-presidente do PT. A defesa de Lula argumenta que os novos fatos conhecidos neste domingo, que sugerem que Moro ajudou a acusação antes de julgar o processo do ex-presidente, possuem  elementos para se pedir o cancelamento do processo que levou o líder do PT para a prisão há um ano.

Bolsonaro ficou ao lado de Moro mas até o final da tarde não havia feito comentários públicos e nem mesmo no Twitter. Mais cedo, os dois se reuniram a portas fechadas, segundo os jornais locais. Bolsonaro chegou de lancha com Moro ao evento oficial, e lhe fez um afago, ao conceder uma medalha de Ordem de Mérito Naval ao seu ministro.  O presidente brasileiro continuou em uma reunião com empresários em São Paulo, onde se esperava uma declaração mais contundente, o que não ocorreu.

Sem clareza sobre o tamanho da tempestade que vem com novas revelações prometidas pelo Intercept —o jornal afirma ter exposto apenas 1% do conteúdo recebido da troca de mensagens entre procuradores e o juiz da Lava Jato— o Brasil está atento aos sinais que medem o tamanho do apoio ao ex-juiz que inspirou o país a lutar contra a corrupção nos últimos anos. O silêncio de Bolsonaro parece um mau sinal para Moro.

Também chamou a atenção um texto publicado na terça-feira na Agência Brasil, a agência oficial de notícias do Governo, com a opinião de um ministro do Supremo Tribunal, Marco Aurélio de Mello, sobre Moro. Segundo Mello, o ministro da Justiça está enfraquecido após os relatos, algo que deve comprometer uma possível indicação para ser ministro do Supremo Tribunal, uma intenção que já havia sido anunciada pelo presidente Bolsonaro. Um dos ministros do STF, Celso de Mello, está se aposentando no ano que vem e o presidente da República já havia anunciado que Moro seria o sucessor natural. anto a defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como os partidos de oposição parecem estar em compasso de espera –espera-se que novas revelações sejam feitas ainda nesta semana pelo The Intercept.

Há um suspense sobre o que o Intercept pode revelar sobre esse assunto. Gleenward já disse que uma das partes ainda não publicadas sobre as mensagens que vazaram tratam do convite que o ex-juiz teria recebido na véspera do segundo turno da eleição de Bolsonaro para a possível vaga no STF. Bolsonaro já disse uma vez que condicionou o convite para que Moro ocupasse o ministério da Justiça de seu Governo com sua indicação futura para ser juiz do Tribunal em 2020. Moro negou essa informação, algo que pode ser confirmado ou rebatido nos próximos dias com a divulgação de novos trechos de comunicação entre Moro e o coordenador da Lava Jato.

Aos poucos, Moro se vê no olho do furacão. Se antes ele era o herói que atacou aqueles que se comportam mal no poder público, Moro agora sente o gosto amargo de ser alvo de atenção perdendo o apoio incondicional de antigos aliados. O jornal O Estado de S. Paulo, por exemplo, que sempre mostrou simpatia e apoio abertamente a Moro e à Lava Jato, enquanto nutria antipatia por Lula, publicou hoje um editorial com críticas ácidas do atual ministro da Justiça, sugerindo, inclusive, que ele deixasse o cargo .“ Fariam bem o ministro e os procuradores envolvidos nesse escândalo, o primeiro, se renunciasse e, os outros, se se afastassem da força-tarefa, até que tudo se elucidasse”, diz o texto intitulado Muito a esclarecer. No próximo dia 19, ele comparecerá ao Congresso onde poderá dar a sua versão dos fatos. Até lá, a dúvida é o potencial de estrago para a imagem do ex-juiz que novas revelações do The Intercept podem trazer. 

Pautas no Supremo

Em coletiva de imprensa nesta terça-feira, o advogado Cristiano Zanin afirmou que não pretende apresentar nenhuma nova ação ou recurso para tentar reverter a prisão do petista. A aposta é no que já está em curso: um habeas corpus coletivo que o ministro do STF Ricardo Lewandowski se mostrou favorável e mandou para o plenário; outro habeas corpus, incluído na pauta do Supremo desta terça; e, principalmente, o pedido de suspeição de Sérgio Moro feito pela defesa ainda no ano passado, depois que o então juiz federal foi indicado por Jair Bolsonaro para o Ministério da Justiça. A defesa vem argumentando desde o início que Lula é vítima de uma perseguição política e não teve um julgamento imparcial e justo. Em diversas ocasiões pediu o afastamento de Moro e da força-tarefa da Lava Jato dos processos do caso Triplex e do sítio Atibaia, pelos quais o ex-presidente acabou condenado.

O ministro do STF Gilmar Mendes liberou esse pedido de suspeição ainda nesta segunda, apenas um dia depois das revelações do The Intercept. A previsão é de que seja votado no dia 25 de junho. A defesa do ex-presidente acredita que os fatos revelados pelo portal mostram que houve “absoluta falta de imparcialidade e de equidistância” no julgamento do petista. “Esperamos que os fatos novos sensibilizem o judiciário de que o ex-presidente não teve direito a um julgamento imparcial”, disse o advogado Cristiano Zanin, que defende o ex-presidente.

Em Brasília, os partidos da oposição (PT, PSB, PDT, PSOL, Rede e PCdoB) se reuniram para abordar os próximos passos. Segundo o deputado federal petista Humberto Costa, um dos presentes na reunião, houve um entendimento de que a “situação é grave”. Os presentes decidiram que tentarão coletar assinaturas para a abertura de uma Comissão Parlamentar de Investigação (CPI) mista –isto é, com deputados e senadores– para apurar as mensagens divulgadas pelo The Intercept. Por fim, a oposição diz estudar entrar com uma representação na PGR, no Conselho Nacional do MP e no Conselho Nacional de Justiça pedindo investigações sobre o caso.

Arquivado Em: