Seleccione Edição
Login

‘Futebol heavy metal’, o estilo que devolveu o Liverpool à final da Champions

Pela segunda vez em dois anos, o treinador alemão, que prefere um "futebol de luta", levou os ingleses à final do torneio europeu. Ela acontece neste sábado em Madri, contra o Tottenham

final champions league liverpool tottenham
Klopp durante uma coletiva de imprensa antes da final da Champions. EFE

Durante uma conferência sobre a evolução do futebol, Jürgen Klopp disse uma frase que define uma das principais bases do estilo intenso que levou o Liverpool, pela segunda vez seguida, à final da Champions League, que ele disputará neste sábado contra o Tottenham, às 16h (horário de Brasília). “O melhor jogador de meio-campo do mundo é a pressão [para roubar a bola]”, disse o técnico alemão a uma plateia de treinadores e estudantes universitários, que sentiram estar diante de um visionário definindo o futebol do futuro. “Quando Klopp diz isso, de alguma forma está dizendo que o futebol dever ser mais vertical, que a figura do meia clássico já não é tão necessária. Quando chegou ao Liverpool, ele disse a seus jogadores que precisavam correr dez metros a mais do que corriam até então para poder exercer essa pressão”, aponta Fabio Capello, treinador italiano ex-Real Madrid e Juventus. Depois da virada espetacular sobre o Barcelona, na semifinal do torneio europeu, Klopp contou que percebeu que essa vitória era possível já na primeira jogada: “O Barcelona deu um passe para trás e meus garotos avançaram como lobos fazendo pressão. Foi um bom começo”.

Na Alemanha foi cunhado o termo gegenpressing (contrapressão) para definir a proposta agressiva de Klopp, e na Inglaterra se usa a expressão storming football (futebol tempestuoso) para descrever os contra-ataques em ondas que o Liverpool faz quando recupera a bola. “O futebol do Barcelona é como a música de uma orquestra, mas eu prefiro o heavy metal. Em vez de futebol de calma, quero futebol de luta”, diz Klopp.

Analistas e treinadores não duvidam em qualificar a transição da defesa para o ataque do time de Klopp como a melhor do mundo. “Antes era uma equipe de mais transições, mas agora, mesmo quando tem de atacar um time bem postado, faz isso cada vez melhor”, opina Xabi Alonso, ex-jogador de Liverpool e Real Madrid que está nos últimos dias de um curso de treinadores em Las Rozas, Espanha. “Nas transições, em vez de jogar com os pontas muito abertos, [o Liverpool] joga muito por dentro e ataca os laterais do time adversário com seus próprios laterais, porque eles, Arnold e Robertson, são muito avançados. [Os atacantes] Salah e Mané atacam os espaços entre os zagueiros e os laterais e Firmino, ao invés de fazer a transição para a frente, é o primeiro apoio, ele faz o passe e a partir dele saem as jogadas”. “O Liverpool não tem grandes meio-campistas, mas se você perder a bola no lugar errado, o ataque é fulminante. Se a manobra for mais longa, as faixas abandonadas por Salah e Mané são aproveitadas pelos laterais”, analisa Jorge Valdano. Por trás dessas ondas de ataque está um trabalho diário que transforma os contragolpes do Liverpool em uma harmonia frenética. “Dá para ver que Klopp trabalha muito isso, ele já fazia a mesma coisa no Borussia Dortmund com Reus, Mkhitaryan e Lewandowski”, assinala Alonso.

Klopp trouxe para a mesa o debate sobre se esse é o paradigma futebolístico que prevalecerá nos próximos anos. “Devido ao meu trabalho, eu o acompanho desde seus tempos no Dortmund. Já naquela época vi que ele era um gênio e que nesse futebol não há lugar para enroladores, para jogadores que retêm a bola e que jogam muito horizontalmente. A chave está nesses dois ou três passes rápidos que eles fazem após recuperar a bola. Se forem bem feitos, você está perdido”, reflete um destacado analista que presta assessoria a vários clubes grandes da Europa.

“Nos últimos jogos da Champions vimos um futebol mais vertical e rápido. Quando você dá muitos passes horizontais, os times adversários se posicionam muito bem e é difícil atacá-los. Mas para fazer esse futebol que o Liverpool pratica é preciso ter muita velocidade, muita qualidade técnica e uma excelente preparação física”, diz Capello. “Eu acredito em uma filosofia de jogo muito emocional, com muita rapidez e muita força. Meus times devem jogar a toda velocidade e dar o máximo em cada partida”, explicou o próprio Klopp. “Guardiola, Pochettino e Klopp são a vanguarda do futebol. A evolução aponta para todos os lados. Mas acredito em um futuro nas mãos de gente inteligente e ambiciosa. Raúl, Xavi e Xabi Alonso foram jogadores, sabem muito e eu os aguardo ansiosamente [como treinadores]”, conclui Valdano.

MAIS INFORMAÇÕES