Com ataques à Venezuela e à China, Trump redobra aposta por política externa de confrontação

De olho na agenda doméstica, que inclui as eleições de 2020, o presidente dos EUA também enviou um porta-aviões ao Oriente Médio e aumentou a asfixia a Cuba

Na foto, Trump, com militares na segunda-feira na Casa Branca
Na foto, Trump, com militares na segunda-feira na Casa BrancaAlex Brandon (AP)

Do Oriente Médio à Venezuela, de Cuba à China, Donald Trump direciona a segunda metade de seu mandato debruçado na política internacional. Com porta-aviões, taxas alfandegárias e intrigas diplomáticas, de acordo com os casos, o presidente que rechaçou o papel dos Estados Unidos como guardião do mundo movimenta suas fichas no tabuleiro global com a impulsividade e a ousadia especialidades da casa. Mas com um denominador comum, ligado à política doméstica e à mobilização de suas bases tendo em vista as eleições do ano que vem.

Um porta-aviões e bombardeiros enviados ao Oriente Médio para enfrentar uma suposta ameaça de Teerã, em plena escalada de violência entre Israel e o Hamas em Gaza, e após aumentar a pressão sobre o petróleo iraniano e demonstrar um nada sutil apoio eleitoral ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Um recrudescimento da guerra comercial com a China, com ameaças de novas taxas alfandegárias via Twitter, temperado com um cáustico conflito desatado pela presença de navios de guerra norte-americanos próximos às ilhas em disputa no mar da China Meridional. Um papel cada vez mais ativo para derrotar o regime de Nicolás Maduro na crise venezuelana. Aumento da política de asfixia a Cuba, em um claro desafio à União Europeia.

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Libertado do jugo da investigação sobre seus vínculos com a Rússia, que pairou sobre ele em seus primeiros dois anos na Casa Branca, o presidente Trump direciona a segunda metade de seu mandato à uma insólita ênfase na política exterior. Nas últimas duas semanas, todas as frentes internacionais abertas pelos Estados Unidos experimentaram ostentosas escaladas.

A ofensiva multifacetada responde, à primeira vista, ao padrão habitual no presidente Trump: impulsiva, errática, intimidadora, desrespeitosa com os consensos, ambivalente com os inimigos tradicionais e desafiante com certos aliados históricos. Mas há uma lógica que percorre todas essas frentes internacionais e se encontra na política doméstica e na mobilização das bases republicanas tendo como alvo as eleições presidenciais do ano que vem.

O presidente que rechaçou o papel dos Estados Unidos como guardião do mundo se lança com todas as suas fichas ao tabuleiro global. O envio do porta-aviões Abraham Lincoln ao Golfo Pérsico foi anunciado no domingo por John Bolton, conselheiro de Segurança Nacional. É uma “mensagem clara e inequívoca ao regime iraniano de que qualquer ataque a interesses norte-americanos e de seus aliados será respondido com uma força implacável”, disse Bolton em um comunicado, sem dar mais detalhes sobre os fatos que provocaram a mobilização em uma região de conflito em que Israel aponta o papel de Teerã.

Na segunda-feira, de acordo com o The New York Times, oficiais de alto escalão dos Estados Unidos afirmaram que o envio de porta-aviões obedece a novas ameaças do Irã contra tropas norte-americanas no Iraque, constatadas pelos serviços de inteligência. Os novos acontecimentos reforçam as suspeitas das autoridades iraquianas de que Washington utiliza sua presença militar (mais de cinco mil soldados) no país para avançar em sua agenda contra Teerã, cuja Guarda Revolucionária foi declarada no mês passado oficialmente como “organização terrorista estrangeira” pelo presidente, se arriscando a que o Irã faça a mesma coisa com as tropas norte-americanas no Oriente Médio.

A Administração Trump adotou linha dura com o Irã, desde que no ano passado o presidente se retirou do acordo nuclear assinado em 2015 e que abrandava as sanções. Bolton e o secretário de Estado, Mike Pompeo, lideraram essa estratégia, frequentemente em oposição direta às recomendações da CIA e do Departamento de Defesa. A ofensiva contra o Irã é essencial no plano para a paz no Oriente Médio coordenado nas sombras pelo genro e conselheiro do presidente, Jared Kushner, em estreita colaboração com Netanyahu. A sinergia com o primeiro-ministro conservador israelense foi aplaudida pelos setores mais à direita do Partido Republicano.

O conflito com a China, dramaticamente encarniçado no comercial, escalou também a um perigoso terreno militar: Pequim denunciou na segunda-feira a presença de navios de guerra dos Estados Unidos próximos às ilhas em disputa no mar da China Meridional. O incidente ocorreu um dia depois de Trump anunciar pelo Twitter novas taxas alfandegárias a produtos chineses. Na quarta-feira está prevista a visita de uma delegação chinesa a Washington para tentar chegar a um acordo que coloque fim a uma longa e custosa guerra comercial.

Mas é na América Latina que se faz mais evidente o contexto de política doméstica que cerca a atuação internacional de Trump. Sua decisão recente de colocar em vigor o título III da lei Helms-Burton, mantido em suspenso por todos os presidentes desde a promulgação da lei em 1996, deu lugar na semana passada às primeiras ações contra empresas estrangeiras por obter lucro de propriedades confiscadas a seus legítimos donos após a Revolução Cubana pelo regime castrista.

A medida abre uma nova frente contra Bruxelas, que anunciou represálias pelas ações contra empresas europeias com interesse na ilha. Além disso, contradiz a leitura dominante até agora de que o endurecimento do embargo – por isso a abertura protagonizada por Obama em 2014 – só dá argumentos ao regime para cerrar fileiras e o empurra mais aos apoios da Rússia e da China.

Mas a ação contenta e mobiliza o exílio cubano, bastião de votos do Partido Republicano, da mesma forma que a ingerência na Venezuela contra o regime de Nicolás Maduro. Essa também parece não responder à premissa de America First transformada em bandeira por Trump. Mas manter viva a luta contra o comunismo lhe dá crédito eleitoral, mobilizando suas bases contra o Partido Democrata que trava uma batalha para decidir quem enfrentará Trump em 2020, com candidatos que levaram o debate ideológico.

Guerra comercial, contexto militar

SANDRO POZZI (Nueva York)

Começo de acordo ou escalada? É a pergunta que Wall Street se faz após a ameaça de Donald Trump de elevar as taxas alfandegárias à China, justamente quando parecia que a negociação comercial iria levar a um acordo. Pequim agora pede que Washington reconsidere alguns de seus pedidos difíceis de se aplicar e pede concessões. Mas o republicano joga de outra maneira e opta por levar a negociação ao limite. A reação de Trump é mais do que mera atitude. O Pentágono acaba de publicar um relatório alinhado à retórica do comandante em chefe, no qual detalha como a China quer suplantar os EUA como poder militar no Pacífico. O documento afirma que o país asiático está avançando com rapidez e conquistando “enormes progressos” no âmbito dos mísseis balísticos, do espaço e da inteligência artificial.

“Tentam diminuir a vantagem militar dos EUA”, afirma o Pentágono em seu relatório anual, “apoiam essa ambição com enormes recursos”. O relatório dos especialistas militares se aprofunda assim no pilar central da ação de Trump no âmbito do comércio: a cada vez maior concorrência da China em escala global e como regulamentar as trocas comerciais para impedir o roubo de tecnologia.

As táticas comerciais chinesas são, de fato, vistas em Washington como um risco à segurança nacional. O relatório do Pentágono se refere até à “economia predatória” de Pequim ao desenvolver como planeja estabelecer bases militares por todo o mundo para proteger seus investimentos em projetos de infraestrutura, através do programa conhecido como One Belt One Road.

A incógnita é como a China reagirá ao ultimato de Trump. A interpretação do entorno do presidente, como Peter Navarro, é que há margem para tensionar a negociação, porque o não acordo seria pior à economia chinesa. A reação dos mercados é um exemplo. Xangai caiu 5,6% e o índice Shenzhen, 7,4%, enquanto a queda no Dow Jones não chegou a um ponto percentual.