Crise na Venezuela

EUA elevam pressão para desestabilizar Maduro e falam em intervenção

Washington afirma que três dirigentes ligados ao Governo estavam dispostos a permitir a queda do líder chavista, mas voltaram atrás na última hora

O secretário de Estado, Mike Pompeo, após coletiva de imprensa no Departamento de Estado no dia 8 de abril
O secretário de Estado, Mike Pompeo, após coletiva de imprensa no Departamento de Estado no dia 8 de abrilYuri Gripas (REUTERS)

O relato que os altos funcionários da Administração de Donald Trump fizeram sobre as últimas 48 horas na Venezuela descreve um cenário vertiginoso, com reviravoltas inesperadas para a oposição ao chavismo e seu principal aliado internacional, os Estados Unidos. Na madrugada de terça-feira, o presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, reconhecido por Washington e por meia centena de outros países – inclusive o Brasil – como presidente interino da Venezuela, lançou um desafio de alta voltagem ao libertar o político oposicionista Leopoldo López de sua detenção domiciliar, com a ajuda de membros das Forças Armadas, e sair com ele pela cidade. A operação exibia a fissura mais evidente até agora no apoio do Exército a Maduro, principal motivo pelo qual o líder se mantém no poder efetivo do país apesar de ter perdido o reconhecimento de grandes potências europeias e americanas. O assessor de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, pediu ao Exército que aderisse à rebelião, mas, à medida que as horas passavam, o isolamento militar do sucessor de Hugo Chávez não crescia.

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Bolton, um veterano falcão de Washington, dirigiu-se à imprensa nos jardins da Casa Branca para citar com nomes e sobrenomes os dirigentes que estariam começando a abandonar Maduro, sem que ficasse claro se estava revelando negociações secretas para acabar de desestabilizar o regime, ou agindo como parte da guerra psicológica. Afirmou que o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, o presidente do Supremo Tribunal, Mikael Moreno, e o general da Guarda Presidencial Rafael Hernández Dala tinham concordado, em diálogo prévio com a oposição, que Maduro deveria partir e permitir uma transição pacífica no país. “Esperemos que os cubanos lhes deixem fazer o que devem”, disse, em referência à presença dos serviços de inteligência de Cuba no Exército venezuelano, que os EUA consideram imprescindíveis para o controle de Maduro sobre as Forças Armadas.

Esses movimentos não ocorreram. Nesta quarta-feira, em entrevista à agência EFE, o enviado especial de Trump para a Venezuela queixou-se: “Falaram, falaram, falaram, e quando chegou a hora da ação não estavam dispostos a fazê-la”, afirmou Abrams em referência a Padrino, Moreno e Hernández Dala. “Percebi que muitos deles [altos funcionários do Governo de Maduro com os quais negociavam a queda do líder] desligaram seus celulares.”

O secretário de Estado Mike Pompeo disse inclusive que Maduro tinha sua fuga preparada para esta terça-feira, mas Moscou o demoveu. “Faz tempo que ninguém vê Maduro, ele tinha um avião preparado para partir nesta manhã, e os russos lhe disseram que ficasse”, afirmou o chefe da diplomacia na CNN, algo que o Kremlin nega.

Pompeo: “Ação militar é possível”

O conflito venezuelano se transformou num tabuleiro em que grandes potências rivais travam seu duelo particular, já que a Rússia e Cuba são os principais aliados do regime chavista. O Governo de Vladimir Putin reconheceu no fim de março que tinha enviado soldados à Venezuela como parte de um acordo “técnico-militar”, enquanto os serviços de inteligência cubanos operam no país caribenho e, segundo Washington, representam a peça-chave para que Maduro mantenha o controle das tropas. Neste contexto, Trump advertiu na terça-feira a Havana que se “as tropas e milícias” não interromperem suas operações, os EUA aplicariam um “embargo completo” sobre a ilha. As sanções econômicas norte-americanas contra Cuba e Venezuela se multiplicaram na era Trump, refletindo a deterioração do país sul-americano e também a chegada de falcões à Administração, muito mais propensos à política de pulso firme.

E nesta semana, com a tensão crescendo em Caracas, as perguntas sobre a possível intervenção militar dos Estados Unidos se repetem sem cessar, levando-se em conta que a Administração do republicano sempre salientou que essa é uma opção “sobre a mesa”, mas sem esclarecer nunca qual seria o limite estabelecido. Pompeo carregou nas tintas na manhã desta quarta em uma entrevista ao canal Fox. “A ação militar é possível. Se for necessário, é isso que os Estados Unidos farão. Estamos fazendo todo o possível para evitar a violência, pedimos a todas as partes que não incorram nela, preferiríamos uma transição pacífica”, afirmou. Mas, se chegar o momento, “e todos deveremos decidir qual é esse momento”, salientou, “ele [Trump] está disposto a fazer o que for necessário”. O chefe interino do Pentágono, Patrick Shanahan, cancelou uma viagem à Europa para poder coordenar o acompanhamento da crise no Conselho de Segurança Nacional.

O uso da força militar representaria a ruptura do bloco internacional que até agora apoiou Juan Guaidó e exigiu a saída de Maduro. Washington reconheceu o presidente do Parlamento venezuelano como mandatário encarregado de convocar novas eleições no mesmo dia em que este prestou juramentou como tal, 23 de janeiro, com base em um artigo da Constituição venezuelana. Logo países como Canadá, Alemanha, Espanha, Brasil e outros Governos da região seguiram a decisão. Mas Ottawa e a União Europeia, entre outros, deixaram muito claro que não querem ouvir falar de uma ação militar.

Para a Administração norte-americana, entretanto, essa postura mudaria se Maduro promovesse uma repressão sangrenta, enviando grupos armados contra a população civil, ou se detiver Guaidó. O líder chavista afirmou que a operação da terça-feira, que qualifica como golpe de Estado fracassado, não ficará impune. Nesta quarta, coincidindo com o Dia do Trabalhador, tanto o chefe do Parlamento como Maduro conclamaram seus respectivos seguidores a se manifestarem nas ruas, transformadas em um barril de pólvora. Bolton alertou contra o uso da força contra a população civil. “Seria um grande erro”, salientou, acrescentando que “todas as opções estão sobre a mesa”.