A memória viva do circo em pleno centro de São Paulo

Tradicional ponto de encontro entre artistas e donos de circo nas segundas-feiras, o Largo do Paissandu abriga há dez anos o Centro de Memória do Circo. O espaço é uma espécie de museu vivo, que reúne de antigos mestres às novas gerações de circenses

Os palhaços Romiseta e Xuxu falam sobre a arte de fazer rir.

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Toda segunda-feira à tarde, a partir do meio-dia, o entorno do cruzamento formado pela Avenida São João e a Rua Dom José de Barros, no centro de São Paulo, se enchia de artistas e donos de circo.  O encontro se repetiu durante muitas décadas no Café dos Artistas, um ponto de encontro que teve vários endereços no Largo do Paissandu, nos séculos XIX e XX. Segunda era o tradicional dia de folga nos picadeiros, e a comunidade circense se aglomerava ali — regada a cafezinhos e pirolitos, um pão com queijo derretido — para buscar trabalho e conversar sobre esta arte. A região, porém, ainda hoje é emblemática para quem é do circo e guarda a memória de um tempo em que coloridas lonas erguiam-se ali e palhaços, malabaristas, mágicos e acrobatas desfilavam pelo local.

Antigo Café dos Artistas, no Largo Paissandu
Antigo Café dos Artistas, no Largo Paissandu

O Café dos Artistas já não existe como ponto comercial, mas foi simbolicamente transposto para a Galeria Olido, que há exatos dez anos abriga o Centro de Memória do Circo em dois pisos de um edifício no centro paulistano. Ali, diferentes gerações de artistas — nascidos sob as lonas ou vindos do teatro e de escolas de circo — continuam se encontrando a cada segunda-feira. O espaço tem uma espécie de réplica do antigo café, mas ganhou uma projeção ainda maior para a memória circense. Muito além de um ponto de encontro para viabilizar contratações, é uma espécie de museu vivo. Na entrada, uma grande maquete de madeira reproduz os circos tradicionais de décadas atrás, quando eles ainda tinham animais selvagens e apresentavam dramas (pequenos espetáculos teatrais). Uma ampla galeria com imagens e figurinos doados por famílias tradicionais repassa, no piso superior, pelo menos dois séculos da trajetória circense no Brasil. Mas o local é também palco de uma história ainda em curso, onde artistas novos e antigos trocam experiências e, vez por outra, se apresentam ao público.

A cada início de semana é possível encontrar no Centro mestres da palhaçaria, como Romiseta (Agostinho Blask) e Xuxu (Franco Alves Monteiro), último companheiro do palhaço Piolín. Ambos com 79 anos e vindos de famílias tradicionais, eles são parte da história do circo no Brasil. Já faz anos que os dois deixaram as lonas por problemas financeiros, mas seguem levando a arte que aprenderam com os pais e avós para outros espaços. Hoje, vivem do resgate dessa arte de fazer rir tradicional e convertem escolas, teatros e praças públicas em seus novos picadeiros. No Centro de Memória, encontram um espaço para viabilizar novas apresentações e de alguma maneira sentir que permanecem com o espírito da palhaçada vivo. Nasceram no circo e prometem levá-lo consigo aonde forem.

“Sou tradicional. Nasci no circo e vou morrer no circo”

Franco Alves Monteiro entra no camarim do Teatro Flávio Império, na zona leste de São Paulo, com a fisionomia séria. Senta em uma cadeira preta e começa a retirar de uma mala vermelha a maquiagem e figurino que daqui a pouco o transformarão no palhaço Xuxu. Ele ignora o amplo espelho do camarim e acomoda na mão esquerda um pequeno espelho arredondado com a imagem do filho — Luís Ricardo Monteiro, que foi apresentador da Tele Sena — no verso. Está preparado para reproduzir na sua pele a mesma maquiagem que o pai desenhou no seu rosto há 75 anos, quando Franco subiu pela primeira vez no picadeiro para dar vida ao palhaço Xuxuzinho. Quando os tradicionais sapatos largos e coloridos rompem a coxia, já não é Franco quem está ali e sim um homem desengonçado, de corpo mole e disposto a expor o próprio ridículo com certa dose de exagero para divertir a plateia.

Franco Alves Monteiro, o palhaço Xuxu, antes de um espetáculo.
Franco Alves Monteiro, o palhaço Xuxu, antes de um espetáculo.Camila Svenson

"Sou palhaço desde os quatro anos de idade e já vou fazer 80. Ser palhaço é a minha vida", afirma Xuxu. Tataraneto de palhaço, ele se orgulha de ser de família tradicional circense e de ter participado de episódios importantes para a história do circo em São Paulo. Aos 16 anos, Xuxu foi o último companheiro — ou escada, no jargão circense — do Palhaço Piolín, que havia encantado os artistas da Semana de Arte Moderna e chegou a manter durante meses, em 1972, um circo no Belvedere do Masp.

Amigo de intelectuais como Oswald de Andrade, Piolín é considerado um dos maiores palhaços brasileiros. Nos anos 1920, também costumava se apresentar no Largo do Paissandu. Famoso por misturar linguagens e reinventar a palhaçaria, sua importância é tanta para os circenses que ele teve sua data de nascimento, 27 de março, escolhida para celebrar o Dia do Circo. O tio de Xuxu mudou o nome do circo para Piolín quando o armou no Masp para turbinar a bilheteria. "As pessoas brigavam na rua pra entrar. O espaço lotava pelo nome do Piolín, que já era reconhecido em São Paulo", lembra Xuxu, que foi escolhido por ele para ser escada dos últimos espetáculos.

Palhaço Xuxu se maqueia no camarim do Teatro Flávio Império.
Palhaço Xuxu se maqueia no camarim do Teatro Flávio Império.

Meses depois, Piolín começou a ficar com a saúde debilitada e acabou morrendo em 1973, aos 76 anos, deixando um legado importante para a cena circense brasileira e para Xuxu. "Mas eu, como companheiro dele, não parei. Agora eu levo meu nome e mais nada", diz. Xuxu decidiu permanecer em São Paulo e começou a se apresentar em praças e teatros. Ainda chegou a ter programas de televisão, onde popularizou seu bordão Vai tomar banha. Mas, nos anos 1980, saiu da TV e, convencido de que tinha um "nome amigável de palhaço" e bastante conhecimento da arte circense, decidiu que teria seu próprio picadeiro. “Comprei um circo fi-a-do”, conta, pausando bem cada sílaba pronunciada. Mas os negócios não deram certo. Hoje, longe de um circo próprio, ele trabalha em espetáculos avulsos. E dá aulas de palhaço e de malabarismo a centenas de crianças em Barueri, com aparelhos circenses feitos de pano, madeira e corda que ele mesmo confecciona para criar novos números. Embora hoje esteja distante dos picadeiros tradicionais, cada vez que sobe em um palco ou se apresenta em praça pública, sente que está no circo. Por isso, estufa o peito e garante com certo tom de orgulho: “Sou tradicional. Nasci no circo e vou morrer no circo”.

"O circo é minha bíblia"

O circo te ensina coisas de rir e coisas de chorar. Esse é o principal aprendizado do palhaço Romiseta (Agostinho Blask, de 79 anos) depois de mais de 70 anos de picadeiro. Nascido e criado no circo —o avô emigrou de Portugal já por conta da arte circense—, o paulistano apresentou-se pela primeira vez aos cinco anos. "Meus pais me pintavam e soltavam lá. A calça caía, o pessoal dava risada, eu era pequenininho, era muito bonitinho", lembra ele, com o semblante sério de quem guarda muita nostalgia. Naquela época, ele ainda era conhecido como Bagacinho. O nome Romiseta só surgiu quando os donos de uma fábrica de automóveis homônima viram-no se apresentar e propuseram aos seus pais um contrato para que o palhacinho fizesse a propaganda dos veículos. "Eu tinha muita vergonha, era criança, fiquei com raiva de mudar. Fiz o anúncio, e o nome foi ficando", conta.

O palhaço Romiseta (Agostinho Blask), antes de um espetáculo no dia 23 de abril.
O palhaço Romiseta (Agostinho Blask), antes de um espetáculo no dia 23 de abril.Camila Svenson

Romiseta é do tempo em que o circo viajava em carro de boi, com os artistas em cima de caminhões, sem proteção sob o sol ou sob a chuva, e de quando a lona ainda estava sendo armada e o público já se aproximava para perguntar: "Moço, o palhaço é bom?". "Aquela época era difícil, a gente passava aperto, mas era feliz", diz ele no Centro de Memória do Circo, onde se reúne com colegas de sua geração para preparar espetáculos, dar oficinas de palhaçaria e relembrar as anedotas de antigamente.

Romiseta escapou da Igreja para continuar no circo. Seu pai havia prometido a Deus um filho padre e uma filha freira, e o internou em um seminário em Jacarezinho, no Paraná. Depois de que o então aprendiz de palhaço fugisse três vezes para voltar ao picadeiro, a família deu-se por vencida e abandonou a promessa. "O circo é a minha Bíblia", resume o artista, que sempre leva um crucifixo no peito. Ele é do tempo em que os espetáculos dividiam-se em três atos: o primeiro, de variedades, tinha acrobatas, trapezistas, palhaços, malabaristas e contorcionistas; o segundo era o "rádio", com apresentações musicais; e o terceiro era o drama, as encenações teatrais inspiradas nos filmes que faziam sucesso na época. Romiseta participava de todos eles. Ao mesmo tempo em que os pais soltaram-no no picadeiro como palhacinho, ele começou a trabalhar no trapézio.

Palhaço Romiseta prepara sua maquiagem.
Palhaço Romiseta prepara sua maquiagem.

Seguiu ali até os 17 anos, quando caiu com a irmã durante um espetáculo em Mendoza, na Argentina. "Meu braço direito quebrou em oito pedaços, o nariz em três e a perna em quatro. Aí não tinha mais jeito, a vaca foi para o brejo", diz, enquanto mostra o antebraço esquerdo, levemente deformado como sequela das operações. "Depois daquilo, comecei a levar mais a sério a coisa de ser palhaço", conta. Mas como no circo todo mundo faz um pouco de tudo, o adolescente Romiseta foi escalado também para fazer os galãs dos dramas. "Foi um fiasco desgraçado", diz entre risos. "O povo só ria, porque reconheciam minha voz, sabiam que eu era o palhaço do circo. E eu ficava me segurando para não soltar uma piada, então me deixaram só com os papéis cômicos mesmo". Romiseta chegou a comprar seu próprio circo em 1970, mas um temporal em 1999 destruiu toda a estrutura, e ele não conseguiu reerguê-lo. "Vi tudo aquilo que trabalhei a vida inteira para construir ir embora em dois minutos", lamenta o palhaço que diz sentir muita saudade do ambiente de circo, mas segue levando a arte circense para outros palcos mesmo distante das lonas.