Luedji Luna | Cantora

“Queria ser a Luedji dos meus pais, do projeto político, mas a Luedji mesmo é cantora e compositora”

Cantora baiana prepara-se para sua primeira turnê internacional. "Quero ser história para que, no futuro, quando se pense MPB, para além de de Elis, se pense em Luedji Luna, Xênia França"

A cantora Luedji Luna, durante a entrevista ao EL PAÍS. Lela Beltrão
Entrevista a Luedji Luna

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Luedji tem nome de rainha —a primeira rainha africana da etnia Lunda, do início do século XVII— porque seus pais, ambos funcionários públicos, sempre foram militantes do movimento negro. Essa militância é um dos elementos que perpassam seu trabalho. O outro é a baianidade, que também fica clara no sotaque das longas respostas que dá —apesar de estar em São Paulo há tempo suficiente para usar artigos antes dos nomes próprios— antecipando perguntas ainda por fazer e, por vezes, perdendo-se em elucubrações. "Nascer" é um dos verbos que mais conjuga, talvez pela vontade crescente de ser mãe, algo que ela compartilha nesta entrevista em que também fala de pertencimento e não pertencimento, identidade e amor. 

Pergunta. O que mudou nesses últimos dois anos, em que seu nome e sua música fizeram-se mais conhecidos?

Resposta. Tem sido desafiante. Recebi, desde o início, um feedback muito positivo, saí em muitas listas, cantei em grandes festivais, dividi palco com artistas que eu admiro muito, que foram referências para mim, como Milton Nascimento. Mas isso não me chegou como surpresa, sabe? A dinâmica é tão célere que não há tempo para o deslumbre. Eu só vou vivendo. Vou vivendo, vou fazendo, vou executando, vou pensando, vou criando, vou dizendo “sim” para a vida, para as oportunidades. E com muito pé no chão, muito foco. Acho que o disco já caminhou bastante. Foi como uma criança que nasceu de sete meses, depois de muitos anos de sonho e de negação da música. Quando tive oportunidade de concretizá-lo, não perdi tempo. O processo de gravação foi super rápido, tudo foi feito em dois meses. E ele cresceu como uma criança que quer comer tudo, tem a boca de engolir tudo. Quando eu vejo que ele está no mundo, literalmente, sinto que cumpriu seu papel, mas já sinto também que é o momento de contar outras histórias.

P.  Esperava que seu trabalho chegasse a tanta gente?

R.  Algumas coisas estavam dentro do planejamento, vim para cá muito focada. Eu tenho lua e vênus em touro, apesar de ser geminiana. Tinha alguns lugares, alguns festivais onde eu queria tocar, alguns jornais onde eu queria aparecer. Estava tudo muito delineado, minha carreira é pensada e organizada, e a autogestão é minha. Não tenho empresário, não tenho uma grande gravadora, sou artista independente. Então, algumas coisas me surpreenderam, mas outras estavam no planejamento. E é muito bom poder olhar aquela listinha e perceber que consegui cumprir boa parte dela.

P.  Como foi aquela fase de negação da música?

R. A música se impõe. Ela sempre esteve na minha vida, sempre manifestei uma inteligência muito criativa, sempre fui uma criança muito enérgica, sempre cantei afinadamente (risos), mas era uma coisa lúdica, de cantar no banheiro. Também escrevi na adolescência, a escrita veio muito potente nessa época para suprir um vazio, aquelas crises todas, aquele silêncio. Aí, depois, tomei consciência de que podia unir as duas coisas na composição, que hoje é minha principal bandeira: fazer um trabalho autoral, defender esse lugar da mulher na composição e ser compositora antes de ser qualquer outra coisa. Mas eu não fui educada nesse sentido. A arte e a música sempre ficaram no lugar do sonho mesmo. A gente é muito educada de modo pragmático, para garantir a subsistência e a dignidade. E sonho é sonho, né? Aí eu só aceitei mesmo a música com uns 25 anos. E, quando disse "sim", as coisas começaram a se abrir e a fluir de um jeito incontrolável. Foi quase uma epifania. A música era um lugar muito escondido, quase um diário. Minha música e minha escrita são muito silenciosas. E eu tinha poucas referências de mulheres pretas vivendo de música, vivendo da arte, se fazendo possível.

P. E, no seu caso, qual era o plano? Você foi educada para ser o quê?

R. Dentro do pragmatismo, era ser funcionária pública. Ou diplomata, ou juíza. Os filhos da militância foram educados para ocupar espaços de poder, qualquer coisa que desse poder econômico, posição social e que mudasse um pouco a narrativa. Estudei direito, quase tranquei, entrei em crise, me formei, mas nunca exerci. Já no curso, comecei a transição. Com o dinheiro do estágio, pagava as aulas de canto, estava só tomando coragem para dizer lá em casa que não ia rolar (risos), que não ia ser nada daquilo. Mas eu não sabia nem como ser cantora, entende? Não tinha nenhuma referência em casa, nem de ninguém próximo. Eu aprendi muito observando, fazendo. Foi tudo muito empírico, tudo de saque e de observação. E eu acho que todos os espaços são importantes de ser ocupados. A questão é como você ocupa. É importante ter pessoas pretas dentro da institucionalidade? É, mas vão estar lá como? Defendendo que projeto político? É importante uma pessoa preta estar na música e ter visibilidade? É, mas vai estar como? A militância é algo que nos atravessa. Independentemente de qualquer coisa que eu tenha escolhido fazer na vida, ela estaria presente, porque fui educada nesse sentido.

P.  Como você se sente nesse lugar de compositora e intérprete negra?

"Posso até não saber de que África eu vim, mas na Bahia eu estou resolvida. Lá eu sou baiana e pronto"

R.  Eu não me sinto segura, sendo bem honesta. Estou muito grata e entendo que é um momento muito positivo na minha carreira. Entendo também que é uma crescente, ainda eu não cheguei lá, estou em ascensão. E, dentro desse universo da música independente, sem todos os aparatos do mainstream, estou muito bem, tocando com quem gostaria, fazendo os shows e os festivais que gostaria de fazer, conseguindo executar todo o planejamento e realizar sonhos. Mas, como mulher negra em uma sociedade machista, a despeito de todo esse sucesso, não me sinto segura nesse lugar. Eu não sei se o que está acontecendo hoje na música brasileira, essa presença de outros discursos, outras narrativas, outros corpos, é um movimento, uma moda ou uma mudança de paradigma. E como tudo é muito cinético, na música também, fico me perguntando onde eu preciso estar para não ser só uma lembrança. Porque, fora do samba, a gente até tem grandes nomes, como Elza Soares, minha madrinha Leci Brandão, que estão na história da música brasileira, mas o lugar posto para as mulheres negras é o do silenciamento e do ostracismo. E agora que há várias de nós em ascensão, como Larissa Luz, Xênia França, Josyara, Iza, Ludmillah, com diversos estilos e linguagens, não sei até que ponto isso é uma mudança real ou só uma nuvem passageira.

Então, me sinto observadora e construtora, uma pedreira de um novo momento. Espero construir com meu trabalho uma nova história da música brasileira. Não quero que isso seja só algo demarcado no tempo. Eu quero ser história e possibilitar que outras mulheres pretas possam construir as próprias histórias a partir de mim. Ou junto comigo. Para que, no futuro, quando se pense MPB, para além de lembrar de Elis Regina, se pense também em Luedji Luna, Xênia França, que tenhamos outros referenciais de divas, de compositoras da música popular brasileira.

P. O que São Paulo acrescentou na sua música? E como é sua vida entre São Paulo e Bahia?

R. São Paulo me deu pressa (risos). E também a ressignificação da pressa. A gente sempre acha que a pressa tem essa conotação negativa, mas eu acho que ela é também motor, também impulsiona. Eu estou aqui agora, prospectando futuro, pensando em planos A, B, C e D, e isso é ter pressa, é já estar com as pernas lá na frente. A indústria da música pode ser muito perversa, muito ilusória, ela te dá muito o que não é palpável. A cidade de concreto me deu concretude, me deu racionalidade, pontualidade, seriedade com o trabalho, a capacidade de estar ao mesmo tempo em vários lugares.

São Paulo também me fez mais baiana. Me fez amar mais a Bahia, querer estar mais lá, me fez valorizar mais a minha terra. Por isso eu faço questão de acentuar meu sotaque, faço questão de ser o mais baiana que eu puder, de valorizar cada segundo quando estou lá. Na medida em que eu me senti não pertencente a este território, a minha identidade como baiana se resolveu mais. Posso até não saber de que África eu vim e posso até estar neste país que tem questões com minha existência enquanto mulher negra, mas na Bahia eu estou resolvida. Lá eu sou baiana e pronto. Eu trago isso quase como uma bandeira, eu me coloco no mundo como essa mulher negra baiana. Eu sou cantora, compositora, mulher, negra e baiana.

Luedji Luna, durante a entrevista em um estúdio de São Paulo.
Luedji Luna, durante a entrevista em um estúdio de São Paulo.Lela Beltrão

P.  Sempre há uma efervescência no cenário musical baiano e, quase a cada dois anos se fala em "novos baianos". Você se viu jogada nesse lugar? 

R. A Bahia sempre foi plural, mas também seguiu movimentos nacionais. Por exemplo, quando o rock bombou no Brasil, teve o rock baiano. Mas esse rock baiano chega do jeito dele, entende? E aí hoje temos coisas como Afrocidade e Attooxxa, essa música eletrônica com pagode e uma série de outras referências, aí tem Larissa Luz, que faz um pop que não é pop. Essa pluralidade é nossa, a gente sempre faz as coisas do nosso jeito.

O que tem de mais interessante hoje na música popular brasileira está saindo da Bahia, mas isso não é algo de agora, é algo que é próprio da música brasileira. Sem prepotência, né? Mas a contribuição da musicalidade dos baianos para a música brasileira é atemporal. Está dada há muito tempo. Tom Zé, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal são música baiana. João Gilberto, da bossa nova, é da onde? Baiano. Eles conseguiram migrar, se expandiram e ficaram nesse bojo da MPB, mas é música baiana, entende? E hoje a gente está nesse momento de efervescência de artistas baianos, produzindo muito, tendo visibilidade e reconhecimento nacional, mas com essa grande armadilha: vamos entrar nesse bojo da música brasileira ou ser só um movimento da música baiana?

Baco Exu do Blues, por exemplo, faz rap nacional. Onde a gente tem culturalmente a centralização do Rio de Janeiro nesse estilo, chega um baiano, um jovem negro com não sei quantos milhões de fãs e seguidores. Quando antes só importava o axé music, era impensável que um dos grandes nomes do rap nacional fosse um menino de lá. Vejo também o Afrocidade, uma das melhores bandas do mundo, que é da periferia de Camaçari [região metropolitana de Salvador], uns meninos do interior fazendo um pagodão, mas com letras super conscientes, trazendo a estética do rap para o pagode. Isso, para mim, é revolução, sabe? E está acontecendo na Bahia.

P. O que propiciou essa revolução?

"Dentro do pragmatismo, era ser funcionária pública. Ou diplomata, ou juíza. Os filhos da militância foram educados para ocupar espaços de poder"

R.  Tudo isso já estava lá, já existíamos, estava todo mundo lá fazendo o corre. Acho que, com a decadência do axé, conseguimos mais espaço, e com as redes sociais, que democratizaram tudo, a gente tomou de assalto a música brasileira. No sentido de trazer esse novo som em contraposição ao discurso de que na Bahia só tinha um axé, de que a Bahia só podia ser festiva e não podia fazer música que pensa, que reflete, que muda, que conscientiza. Quando isso é, na verdade, tudo o que tem lá, vide o Ilê Aiyê [risos].

P. Acredita que a Bahia sempre vai permear seu trabalho, independentemente de onde você esteja?

R.  Sim, sim. É como diz aquela música de Gil, eu até chamo ele de Gurugil: “A Bahia já me deu régua e compasso, quem sabe de mim sou eu”. Eu já tive todos os ensinamentos, os fundamentos, toda a doutrina na Bahia, e agora já posso ir para o mundo. Todo o trabalho de conscientização, o trabalho de olhar o mundo, tudo é baiano. Quando eu vou para o mundo, eu vou assim, com essas ferramentas.

P.  Que outras coisas você quer cantar?

R. Quero falar de amor. Tenho pensado muito sobre a necessidade de falar de amor, a partir do meu lugar. O amor é o clichê dos clichês, mas quero dar a profundidade que ele tem na minha vida, como ele me chega, como não chega, de que modo ele me afeta. Quero falar de amor, de desamor, de solidão, de desejo. A gente não vê muito uma mulher negra falar de desejo. Temos poucos referenciais, até mesmo em uma novela ou propaganda, de uma mulher preta em um casal, de uma mulher preta sendo par ou constituindo uma família. Se for lésbica, então, jamais. O que essa mulher deseja? Como ela ama? Eu escrevo muito sobre isso e agora consegui compilar uma série de canções sobre o tema, mas me custou muito. Ano passado, ensaiando para um show-experimento, eu chorava, porque toca também traumas, toca em feridas, em vazios. Amor pode ser muita coisa.

P.  E não tem medo de expor essas coisas tão íntimas?

"O amor é o clichê dos clichês, mas quero dar a profundidade que ele tem na minha vida, como ele me chega, como não chega, de que modo ele me afeta"

R.  Medo, não. Eu tenho poucos medos. Tive receio de cantar uma canção ou outra. Mas cantar, para mim, é estar nua. Eu não sou uma personagem. Eu sou eu, sou Luedji Luna, que canta o que ela é, o que ela vive, o que ela anseia, o que ela critica e quer mudar. Tudo sou eu o tempo todo, e não posso ter medo disso, senão não teria virado cantora. O tempo de negação da música foi um tempo de negação de mim mesma. Eu queria ser a Luedji dos meus pais, do projeto político, mas a Luedji mesmo é cantora e compositora.

P. Como você sente a ressonância da sua música?

R. O que eu faço sempre parte de mim para mim. Eu escrevo para existir, para estar no mundo, para suportá-lo e para me curar em primeiro lugar. Aí tem uma segunda pessoa imediata, que são as mulheres pretas. Sei que quando falo de mim e as questões que toco, falo diretamente com elas. A gente como população negra precisa se pensar como comunidade, como povo. A gente tem subjetividade e individualidade, mas a nossa história é única. O nosso eu é nós, é coletivo.

Mas quando a música vai para o mundo, eu perco o controle. Aí vem a potência dela. Música é onda, ela vibra na gente. É uma das artes que nos toca mais diretamente, porque, desde a barriga, nos conectamos com o mundo pelo som. Então não tenho controle de como minha música se espraia. Quando digo que sou uma embarcação, por exemplo, falo da solidão de estar em São Paulo, mas isso vai chegar para uma pessoa negra talvez de uma maneira mais próxima e para outras pessoas de outro modo. E ok. Porque a música é autárquica, não me pertence. Eu sou a primeira a me beneficiar dela, mas não a última. Já me curei, já coloquei para fora o que precisava e agora está no mundo, então que cumpra seu papel. 

P. Já bateu vontade de voltar para Salvador?

R. Voltar está dentro dos planos. Eu não vou morrer fora da Bahia. Falta muito tempo, mas meu início e meu fim estão ali. São Paulo é um lugar estratégico, facilita minha carreira, mas no momento que eu achar que não é mais necessário estar aqui, sairei. Não tenho muito apego com esse lugar. O ditame neste momento é cantar e compor. No dia que meu coração disser “vai ser cineasta” ou “vai ser mãe” ou “vai ser escritora”, eu vou. É confiar na vida, entende? Confiar na vida.