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O magnetismo de Sergio Larrain, um fotógrafo com “gosto pela vadiagem”

O Instituto Moreira Salles traz a São Paulo a obra do chileno que, apadrinhado por Cartier-Bresson, converteu-se em mito da fotografia

As filhas do pescador, Los Horcones, Chile, 1956.
As filhas do pescador, Los Horcones, Chile, 1956.© Sergio Larrain/Magnum Photos

É difícil escapar do magnetismo das fotos em preto e branco do chileno Sergio Larrain (Santiago, 1931 - Ovalle, 2012). São imagens diretas, marginais, sem dramatismos ou efeitos especiais, mas que, ainda assim, evocam um mundo literário e poético. Apadrinhado por Henri Cartier-Bresson, converteu-se em mito da fotografia em apenas duas décadas de trabalho. Sua obra é definida pelos colegas como um "meteorito" cujo trajeto foi interrompido quando Larrain decidiu largar a câmera e viver em retiro no interior de seu país, praticando meditação, ioga, escrita e desenho. Apesar da fama no meio artístico, seu nome ainda é pouco conhecido do público, principalmente na América Latina. Para apresentá-lo aos brasileiros, o Instituto Moreira Salles (IMS) de São Paulo realiza uma exposição com suas fotos mais icônicas a partir deste sábado, 27 de abril, até 9 de setembro.

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"Ele ainda é pouco conhecido porque nunca se interessou pelas galerias, por exemplo. Seu sonho era apenas ser fotógrafo", explica Agnès Sire, colega de profissão e curadora da mostra que começou em 2013, na França, e já passou pela Inglaterra, Chile, Colômbia e Argentina.

Larrain começou a realizar seu sonho em 1949 quando comprou uma Leica em uma lojinha de Berkeley (EUA), onde estudava —sem vontade— Engenharia, e decidiu voltar ao Chile para iniciar uma travessia fotográfica de Valparaíso à Terra do Fogo. Foi no seu país natal que começou a registrar as crianças abandonadas, que viviam nas ruas. Elas se converteram, ao mesmo tempo, no espelho de sua personalidade —rebelde a todo tipo de integração social— e na expressão do desejo de viver em uma sociedade diferente, mais igualitária. Filho de uma rica família chilena, Larrain desprezava a burguesia. Foi o estilo de vida bourgeoisie da sua família que permitiu-lhe, no entanto, viver cercado de arte desde a infância. Seu pai, um renomado arquiteto e importante colecionador, possuía em casa uma grande biblioteca, cômodo que foi o primeiro elo de Larrain com a literatura, outra de suas grandes paixões.

Com planos pouco comuns —contra-picados, imagens tiradas ao nível do chão e enquadramentos cortados— Larrain fotografou e filmou as crianças de rua: seus pés adormecidos sobre esgotos, reunidos em círculos ao redor de uma fogueira improvisada, com cachorros, olhando diretamente para a câmera. Foi esse primeiro trabalho, feito em 1957, que chamou a atenção do MoMa (Museu de Arte Moderna de Nova York), que lhe comprou duas fotografias, dando, assim, o pontapé inicial de sua carreira. Um ano depois, ele se muda a Europa, onde Cartier-Bresson conhece sua obra e, imediatamente, convida-lhe para integrar a cooperativa Magnum. É quando viaja todo o mundo e registra desde arriscadas fotos da guerra na Argélia até altos comandantes da máfia italiana, o que lhe confere grande reconhecimento. Apesar disso, em 1963, decide abandonar a profissão, por acreditar que o mercado distorce a imagem e degrada a informação.

"Ele não se adaptou à rotina de fotógrafo de uma agência como a Magnum, onde tinha que viajar constantemente, de um país a outro, para fotografar encargos. Ele gostava de investir tempo em sua arte", explica Sire, ex-diretora de arte da agência.

Sergio Larrain em Paris, 1959.
Sergio Larrain em Paris, 1959.© Sergio Larrain/Magnum Photos

De sua estadia na Europa ficam apenas as fotos que fez para si mesmo durante suas viagens por Paris, Londres, Roma e Sicília, aquelas registradas com uma poética peculiar (que ele considerava análoga à espiritualidade budista), que conecta a realidade com metáforas possíveis, mas nunca concluídas. É por essa viagem que a exposição do IMS leva o público brasileiro. O visitante passa também pelas ruas e mercados da Bolívia, além do Chile de Larrain, especialmente por Valpararíso, onde ele frequentava os bares e bordeis da Chinatown. Um de seus favoritos era a Casa dos Sete Espelhos, que o atraía pelo jogo de reflexos. Foi ali que registrou, em um dos espelhos imponentes, uma prostituta, de vestido curto e salto alto, que cumprimenta um cliente. O rosto do homem aparece apenas no segundo reflexo.

"Ele era, essencialmente, um fotógrafo de rua, tinha o olho formado e treinado para capturar uma imagem em uma fração de segundo", comenta Agnès Sire. Depois de 20 anos trabalhando na agência, encontrou fotos de Larrain (quando ele já vivia recluso no povoado chileno de Ovalle) e ficou encantada. "Fiquei surpresa de nunca ter ouvido falar em seu nome e fiquei curiosa para contatá-lo, mas ele vivia recluso no Chile, não tinha sequer telefone. Decidi, então, escrever uma carta, me apresentando". Aí começou uma amizade que se construiu ao longo de mais de 500 correspondências. Sire tornou-se responsável pelo arquivo de Larrain e editou muitos de seus livros. Os dois nunca se viram pessoalmente. "Justo quando ia visitá-lo, ele faleceu. Só pude ver sua família para entregar-lhes o último livro que editamos juntos", lamenta ela, que descreve o amigo como "um fotógrafo com gosto pela vadiagem, pelo desejo profundo de estar no mundo".

Ilha de Chiloé, Chile, 1957.
Ilha de Chiloé, Chile, 1957.© Sergio Larrain/Magnum Photos

Quiçá tenha sido esse desejo que não lhe permitiu desligar-se de todo de sua paixão. Em 1982, escreveu uma breve carta a um sobrinho que lhe pedia conselhos sobre fotografia: "O jogo é buscar a aventura, como um veleiro, soltar as velas. Vagar e vagar por partes desconhecidas e sentar-se debaixo de uma árvore quando se está cansado, comprar uma banana ou uns pães, pegar um trem e ir a um lugar que você goste e olhar, desenhar também, e olhar. Sair do mundo conhecido, entrar no que você nunca viu, deixar-se guiar pelo gosto, ir a muitos lugares. Pouco a pouco você vai encontrando coisas e as imagens vão surgindo".

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