Brexit

Brexit: esses britânicos estão loucos?

As causas por trás do bloqueio parlamentar e da guerra interna no Governo de May

O líder trabalhista Jeremy Corbyn se dirige ao Governo de Theresa May nesta segunda-feira, na Câmara dos Comuns.
O líder trabalhista Jeremy Corbyn se dirige ao Governo de Theresa May nesta segunda-feira, na Câmara dos Comuns. (AFP)

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Há um constrangimento entre os políticos do Reino Unido. Frequentemente, reconhecem que seu país virou o “faz-me-rir da Europa”. A primeira-ministra Theresa May se tornou o bode expiatório ao qual culpar por todos os demônios que o Brexit desatou e que têm pouco a ver com as vantagens e inconvenientes de pertencer à União Europeia. Ajustes de contas adiados durante décadas no seio dos dois principais partidos, o Conservador e o Trabalhista, eclodiram sem dissimulação nas últimas semanas.

O populismo alimentado pelo referendo de 2016 rompeu a relação de confiança e dependência de cada deputado com sua circunscrição eleitoral. Mas, sobretudo, um país habituado à partilha binária do poder — o ganhador fica com todo o poder durante o tempo que lhe couber exercê-lo — foi incapaz de encontrar vias de entendimento para sair da crise. Governo contra Parlamento; eurocéticos contra moderados; uma esquerda anticapitalista e desconfiada de Bruxelas frente a um trabalhismo centrista e pró-europeu; uma classe urbana cosmopolita e culta frente a uma Inglaterra interior atrasada e irascível. Estas são algumas chaves para entender por que o país que se gaba do seu pragmatismo durante o último século não se reconhece mais a si mesmo.

O pecado original

Quando o Partido Conservador acordou, e 52% dos britânicos tinham respaldado a saída da UE, o monstro da divisão interna continuava lá. O desapego pela Europa, mais como sentimento ou como gesto de desdém, os mantinha unidos, mas poucos pararam para pensar em como levar a cabo uma decisão tão complexa e com consequências tão drásticas. David Cameron, o responsável por um referendo que ninguém tinha pedido, renunciou. Os eurocéticos Boris Johnson e Michael Gove se anularam mutuamente em um jogo de traições e deslealdades. E Theresa May, que não entrava nos bolões de aposta de ninguém, foi parar em Downing Street com todo o poder nas mãos. Começou a perdê-lo desde o primeiro minuto. Havia feito campanha de má vontade a favor da permanência na UE, e foi encarregada de conduzir o Reino Unido à terra prometida do Brexit.

Seu primeiro erro foi procurar um equilíbrio impossível dentro do Governo entre eurocéticos e moderados. A consequência foram anos de bloqueio, crises internas a cada semana, demissões em cascata (já está no seu terceiro ministro para o Brexit) e a perda de uma “responsabilidade associada” que se espera do Executivo. Há muito tempo a roupa suja está sendo lavada à vista de todo mundo. Seu segundo erro foi convocar eleições antecipadas, em 2017, convencida de que assim obteria um mandato claro para levar o Brexit a bom porto, mas perdeu estrepitosamente a maioria parlamentar que tinha herdado. Ficou nas mãos dos sócios norte-irlandeses do DUP, até agora. Mas seu terceiro erro, o mais grave, como lhe recordava nesta segunda-feira seu líder parlamentar, Julian Smith, numa polêmica entrevista à BBC, foi não entender que a mensagem implícita naquela derrota eleitoral era que sua única legitimidade seria para buscar um Brexit suave e de consenso.

Não se saiu melhor o Partido Trabalhista. Seu inesperado líder, Jeremy Corbyn, assumiu as rédeas da agremiação impulsionado por movimentos extremos recém-criados, como o Momentum, repletos de gente jovem, mas controlados por velhas figuras que arrastavam os tiques antissemitas, anticapitalistas e antiglobalizadores (ao menos aos olhos de grande parte da opinião pública) do trabalhismo dos anos setenta. Corbyn era um deles, e em seguida encontrou pela frente os restos do blairismo.

A geração que viveu os anos do New Labour dos ex-primeiros-ministros Tony Blair e Gordon Brown, que ressuscitou o glamour do Reino Unido e cunhou o termo Cool Britannia para definir essa época dourada, dominava a bancada parlamentar trabalhista e não se sentia cômodo com um trabalhismo que considerava alucinado e divisivo. Corbyn, como May, também fez campanha com pouquíssimo entusiasmo em prol da permanência na UE. Não conseguia dissimular sua desconfiança em relação a Bruxelas, herdada daquela corrente interna denominada “bennismo” (de Tony Benn, o histórico político trabalhista) que confrontou a adesão do Reino Unido à UE. Assumiu imediatamente o resultado do Brexit e esquivou até agora a resolução de uma maioria do partido que reivindicava um segundo referendo. Por isso decidiu na quinta-feira passada respaldar as opções alternativas que suavizavam o Brexit, mas ao mesmo tempo asseguravam que fosse um fato consumado.

Os eurocéticos: o partido dentro do partido

Theresa May dedicou sua vida ao Partido Conservador. Tudo o que é deve à formação. E sua principal obsessão, durante os últimos três anos, foi manter suas costuras intactas. O resultado foi que cada novo giro em sua política só tinha um objetivo: apaziguar a ala linha-dura, concentrada no chamado Grupo de Pesquisas Europeias. Esta corrente parlamentar conservadora, que pelos seus cálculos mais otimistas pode reunir quase 100 deputados, se tornou a pedra de toque dos conservadores.

Dirigido pelo carismático Jacob Rees-Mogg — um católico fervoroso num país de protestantes, defensor das virtudes de rezar o rosário três vezes ao dia e que prefere a missa tridentina, em latim, como Deus manda, ao rito pós-conciliar — conseguiu cativar os meios conservadores com sua oratória ágil e inteligente. Seu complemento perfeito foi Steve Baker, um político de formação técnica, procedente da iniciativa privada, que caiu do cavalo europeu a caminho de Maastricht, quando descobriu, conforme contou ao EL PAÍS, que o tratado europeu era “uma conjuração social-democrata para acumular o poder em Bruxelas e acabar com a democracia”.

Baker movimenta os seguidores, controla os votos e calcula as manobras com exatidão. Esteve por trás da moção de censura interna contra May. A primeira-ministra conseguiu sobreviver pelo senso de decoro que muitos conservadores, avessos ao extremismo dos eurocéticos, demonstraram nessa ocasião. Ficou claro, entretanto, que o partido estava dividido em duas facções irreconciliáveis, e que só uma delas tinha o impulso, a unidade e o credo para travar a batalha até o final.

O fantasma da violência da Irlanda do Norte

Ninguém contou com o endiabrado backstop na hora em que o Reino Unido apertou o botão do artigo 50 do Tratado de Lisboa, acionando a contagem regressiva para deixar a UE. Londres saía, mas Dublin ficava. A fronteira que divide a ilha, entre a República da Irlanda e o território britânico da Irlanda do Norte, passava a ser uma fronteira externa da União Europeia. O Acordo de Paz da Sexta-Feira Santa, esse prodígio de arquitetura conciliadora forjado por Tony Blair, Bill Clinton e pelo senador norte-americano George Mitchell, tornava invisível a linha divisória entre as duas Irlandas. É mais fácil preservar a paz quando se impõe a ficção de que a Irlanda é só uma ilha, sem divisões internas.

A UE compreendeu imediatamente que qualquer posto de controle fronteiriço, por mais discreto que fosse, seria um chamariz para sabotagens dos grupos residuais que persistem na violência. E impôs a necessidade de que a Irlanda do Norte permanecesse na união alfandegária e no mercado interno europeu. A solução de May foi propor que todo o Reino Unido, e não só a Irlanda do Norte, permanecesse nesse espaço até que fosse possível encontrar uma solução definitiva e se construísse uma nova relação comercial entre os dois blocos. Não convenceu ninguém.

Seus sócios do DUP viam risco à “integridade territorial do Reino Unido”. Os eurocéticos temiam uma armadilha eterna que converteria Londres em um “vassalo” de Bruxelas, nas palavras de Rees-Mogg. As demais formações norte-irlandesas não têm representação em Westminster, apesar de somarem a maioria política em seu próprio território, e viram com frustração o DUP se tornar a única voz determinante. A união de interesses dos dois extremismos — unionistas e eurocéticos — deixou May sem saída.

O populismo desatado

O referendo do Brexit entregou o poder à massa. O fantasma havia sido despertado pelo ultranacionalista Nigel Farage, à frente do UKIP (Partido pela Independência do Reino Unido), que surpreendeu os mais despreparados com sua vitória nas primeiras eleições para o Parlamento Europeu que disputou e meteu medo na alma do Partido Conservador. Não só o medo, mas também a semente de um populismo que ninguém soube controlar. Duas figuras moderadas da formação, os deputados Nick Boles e Dominic Grieve, ouviram gritos de “traidores” nas reuniões com suas associações locais de eleitores. E a ambos foi mostrada a porta da rua, ao serem barrados como candidatos do partido a novos mandatos.

Algo similar ocorreu no Partido Trabalhista, com um punhado de aproximadamente 30 parlamentares que contemplam com pavor qualquer alternativa para frear a loucura do Brexit. Sabem que em suas respectivas circunscrições o respaldo à saída da UE no referendo de 2016 foi majoritário, e arriscam seu cargo se fizerem qualquer aceno a Bruxelas.

As alternativas de May

Nenhuma é boa. Com a data de 12 de abril logo ali na esquina (o dia imposto pela UE para um Brexit sem acordo), a primeira-ministra só tem perante si opções desesperadas. Pode forçar uma quarta votação de seu plano, hipnotizada pelo feitiço de ver como em cada sucessivo teste parlamentar os votos contrários foram se reduzindo. Continua convencida de que, ao chegar à beira do precipício, até os mais fanáticos se deterão. Mas a realidade e as cifras contradizem esse voluntarismo.

Pode pedir uma prorrogação mais longa a Bruxelas, mas deverá explicar para quê. E a mera sugestão de que usaria esse tempo para negociar um Brexit mais suave deixaria os eurocéticos em pé de guerra e destruiria o seu partido. Pode ameaçar com um adiantamento eleitoral, mas até o conservador mais amalucado sabe que isso seria um tiro no pé. As últimas pesquisas dão vantagem ao trabalhismo, e, com um Partido Conservador em ruínas e uma candidata desautorizada (não haveria tempo nem mecanismo para escolher uma alternativa), o movimento seria suicida.

Ou então ela pode devolver a palavra aos cidadãos, dar o braço a torcer, e permitir um segundo referendo. Contra seus princípios e convicções. É, para muitos, a única saída para esta confusão. Mas a ninguém escapa tampouco que significaria mergulhar o país num grau irresistível de divisão e enfrentamento, quando as forças e a resistência de uns e outros já chegaram ao limite.

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