Coluna
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Ou Bolsonaro abraça a dura realidade da política ou acabará devorado por ela

Presidente começa a sentir na pele que uma coisa são as receitas milagrosas de uma campanha eleitoral que prometia enterrar a velha política da corrupção e outra é a realidade dura e crua da situação brasileira

Presidente em 25 de janeiro.
Presidente em 25 de janeiro. Isac Nóbrega (PR)

Não estamos nem na metade dos cem dias de graça concedidos aos governantes em início de mandato, e o presidente Jair Bolsonaro já está no centro de uma polêmica interna com seu partido, o PSL, e seus filhos, a qual poderia acabar por devorá-lo. Há até quem pense que estamos no princípio de um fim dramático.

Tudo porque o presidente começa a sentir na pele que uma coisa são os arroubos, promessas e receitas milagrosas de uma campanha eleitoral que prometia enterrar a velha política da corrupção e seus compadrios, e outra é a realidade dura e crua da situação brasileira. A política é não só a arte do compromisso, mas também ciência.

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Tentar criar uma forma nova de governar foi o sonho de todas as grandes ideologias de esquerda e de direita que, ao final, acabaram devoradas por seus mesmos sonhos. Bolsonaro e seus fiéis seguidores acreditaram que seria fácil para eles, depois de derrotar os velhos partidos e chegarem ao Planalto, dar vida a uma aventura sem necessidade das antigas artes da política tradicional. Pouco importava que o partido que o aceitou como candidato, depois de ele transitar em sua longa vida do Congresso por outros sete ou mais, praticamente não existisse. Para que precisaria dele? Tinha seus filhos, as pessoas, as redes sociais, os robôs, a rua. Hoje, após o sucesso eleitoral, o pequeno PSL se tornou, imantado pelo poder, o maior do Congresso, mas é um caldeirão de tudo, sem história. Alguém o chamou de saco de gatos. E Bolsonaro parece disposto a sacrificá-lo.

O novo presidente parece querer continuar acreditando que o menos importante para ele é o partido. Que seu partido mais fiel seriam seus filhos. E parece disposto a sacrificar até aquele que o acolheu e o guiou durante toda a campanha, o advogado e amigo pessoal Gustavo Bebianno, então presidente do PSL e hoje ministro da Secretária Geral da Presidência. Acusado de suposta corrupção e aconselhado por seu filho Carlos, que o acusou publicamente de mentir, Bolsonaro pediu em público que fosse investigado com rigor. E os políticos clássicos sabem que não há nada mais perigoso do que transformar amigos em potenciais inimigos. A vingança é um dos ingredientes mais poderosos da política.

Bolsonaro iniciou seu caminho para a glória golpeado pela tragédia. Primeiro, a sua pessoal, ao ser vítima de um obscuro atentado contra sua vida, e depois as três tragédias sangrentas que comoveram o país, as três criminosas. A de Brumadinho com suas centenas de trabalhadores mortos e desaparecidos, a dos jovens do time do Flamengo, que acabou com seus sonhos, e a do helicóptero que estava impedido de transportar passageiros, mas mesmo assim nos roubou Ricardo Boechat, um dos jornalistas mais dignos e empenhados deste país.

A nova tragédia espreita agora a vida política de Bolsonaro. Ele terá de demonstrar que veio para relançar econômica e eticamente um país que parecia cansado dos políticos e de suas corrupções e que parecia ter perdido a esperança. A história, entretanto, deveria lhe servir de mestra. Nunca foi fácil, nem para os grandes líderes do mundo, tentar revoluções para mudar as coisas sem acabar caindo em resultados iguais ou piores.

Vocês se lembram, por exemplo, da simpática e enigmática fábula de A Revolução dos Bichos, do escritor inglês George Orwell? É a melhor metáfora que já se escreveu para mostrar como as revoluções destinadas a devolver o poder ao povo, fossem de esquerda ou de direita, acabaram em um estado autoritário e tirano ainda pior, como o stalinismo, o nazismo e o fascismo. Na parábola orwelliana, os animais de uma fazenda se rebelam contra seu dono humano e decidem se apropriar dela e criar uma maior igualdade entre todos. Dois porcos, considerados os mais inteligentes do curral, capitaneiam a revolta. Seguem-nos, felizes, a massa dos analfabetos e acríticos, como as galinhas e as ovelhas. Criam um novo credo com sete mandamentos. Entretanto, os novos líderes, os porcos Napoleão e Bola de Neve, acabam brigando. Napoleão atiça aos cachorros da fazenda contra Bola de Neve. Eclode a guerra. Os sete mandamentos vão desaparecendo, esquecidos. Manda só quem manda. Os animais da plebe, os sem poder, recorrem ao burro Benjamin, que era o único que sabia ler, para que lhes dissesse se havia sobrado de pé algum dos novos preceitos revolucionários que os líderes porcos haviam criado. Só um havia se salvado: “Todos os animais são iguais”, mas havia sido revisado assim: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros”. Como desde o começo do mundo.

Na nova fazenda de Bolsonaro, já vai se definindo quem disputa o poder, embora a nova revolução também exigisse que sejam todos iguais. Vai ficando claro que alguns, em seu novo reino, começam a ser mais iguais que os outros. Mais poderosos. Entre esses mais iguais, com maior poder no mundo bolsonariano, aparecem nitidamente seus três filhos, também eles políticos, encarregados de dizer à massa de galinhas e ovelhas da fazenda que acreditem, que eles lhes introduzirão na nova era da política por estrear.

Na fazenda de Orwell figurava também o corvo, que representava a Igreja. Tentava fazer o papel de moderador, mas logo deve ter percebido que as coisas foram por outro caminho. Bolsonaro e família, todos religiosos, têm a Bíblia como centro de suas leituras. Nela, curiosamente, existe toda uma literatura de dramas e traições entre irmãos, entre pais e filhos. Querem algumas? Por exemplo, a de Jacó e Esaú. Jacó, com a cumplicidade de sua mãe, enganou a seu irmão Esaú e ficou com a herança do pai. Ou a dos 12 filhos de Jacó, neto de Abraão. José era o mais novo e o preferido. A inveja eclodiu entre os irmãos. Tentaram matá-lo. Depois o venderam como escravo a um mercado do Egito. E, antes deles, a trágica história com a qual a humanidade começa: o fratricídio de Caim contra Abel. O grito terrível de Caim: “Acaso sou eu o guardião de meu irmão?”.

Em tempos nos quais a cultura está em baixa, não seria nada mal que os políticos, velhos e novos, dessem um passeio pela literatura mundial, mãe da sabedoria. Entenderiam melhor que, ao final, não há nada de novo sob o sol. O importante é não esquecer isso na hora de querer convencer as pessoas de que há políticos que são menos iguais que os outros. Existem, talvez, os que ainda respeitam os valores de dignidade e liberdade das modernas e imperfeitas democracias, e aqueles preferem voltar aos velhos tempos do faroeste.