CRISE NA VENEZUELA

Venezuela, o dilema de um país com dois presidentes numa nação desgovernada

Dois parlamentos, um presidido por Guaidó e outro, chavista, convivem em um mesmo edifício. Em seu interior os deputados passam a sensação de uma normalidade que não existe

O presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, nesta terça-feira na Assembleia.
O presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, nesta terça-feira na Assembleia.Miguel Gutiérrez (EFE)

—Não é permitido entrar sem credencial.

—Quem dá as credenciais?

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—Meu comandante — diz, apontando com o olhar para a saída.

Tudo na Venezuela parece passar por um comandante, mas desta vez não se trata expressamente de El Comandante, o onipresente Hugo Chávez, cuja imagem ou nome se nota, quer se queira ou não, constantemente ao longo do dia.

A porta de acesso ao edifício das duas assembleias é a mesma. Até ser atravessada e alguns optarem por ir para um lado ou o outro, nada indica que haja uma divisão. No pátio, por volta das duas da tarde, todos convivem, sem muitos contatos, num espaço pequeno. "Em algum momento teremos que trabalhar no mesmo lugar", admite um deputado da oposição. Os constituintes chavistas recusam, preferem não falar, respondem quando são interpelados e se queixam de que a imprensa internacional, a imprensa espanhola, e este jornal, claro, distorcem tudo o que dizem.

A Venezuela é um país desgovernado com dois presidentes. Desde 23 de janeiro, a Assembleia Nacional, o parlamento eleito em 2015 após a vitória esmagadora da oposição nas últimas eleições legislativas, busca reafirmar o poder alcançado nas urnas em torno da figura de João Guaidó. Sobre o líder do partido Vontade Popular, que prestou juramento há duas semanas como presidente interino, gira toda a estratégia dos críticos a Nicolás Maduro. Sua presença atrai a atenção e não são poucos os que querem ver nele uma espécie de Obama caribenho, no físico, nos gestos, no carisma. Guaidó conseguiu algo que a oposição tinha perdido e que o chavismo há tempos não gera: esperança.

É terça-feira, 5 de fevereiro. Guaidó acaba de se reunir com um grupo de ex-ministros de Chávez em seu gabinete no Parlamento e sua chegada ao Legislativo é acompanhada pelo tumulto da imprensa. A expectativa é ótima também dentro. Antes de se sentar para presidir a sessão, conversa na tribuna. Deputados estão constantemente se aproximando para cumprimentá-lo, pedem para fazer selfies. No tablado, mais do mesmo: "Tirem uma foto minha aqui com Juan no fundo", se escuta. Já sentado, o presidente da Assembleia olha para os presentes, sorri e faz gestos quando reconhece um rosto que lhe é familiar.

A sessão, marcada para as 10, começa mais de duas horas atrasada. O primeiro a tomar a palavra é o veterano oposicionista Henry Ramos Allup, líder da Ação Democrática, que adverte que em poucas horas, na Assembleia Constituinte, ou seja, no salão em frente, o chavismo vai dissolver a Assembleia Nacional e convocar eleições parlamentares. É o zum-zum do dia. Isso significaria tornar o conflito ainda mais agudo. Na Venezuela há sempre mais um passo para a degradação da crise. Ramos Allup pede aos deputados que estejam vigilantes, como se pudessem fazer algo para impedir isso.

Os deputados passam uma sensação de normalidade que não é real. A agenda é cumprida sem grandes problemas: uma lei que estabelece as bases para uma hipotética transição democrática, a estratégia para receber a ajuda humanitária que chega à fronteira e a rejeição de qualquer diálogo ou grupo de contato –em referência à União Europeia– que "prolonguem o sofrimento do povo". "Aprovado!", repete Guaidó em cada ponto enquanto toca uma campainha e levanta a mão.

Por um tempo, a sessão coincide com a dos rivais no salão da frente. Em ambos –a chavista tem que ser acompanhada pela televisão– se sente mais a necessidade de alimentar expectativas e cerrar fileiras do que a concretização de planos. Presidida por Diosdado Cabello e retratos de Chávez e Bolívar, que os críticos de Maduro tiraram do Legislativo em janeiro de 2016, a Assembleia Constituinte é um compêndio de arengas. Como a de Euclides Campos, que relembra a figura de Chávez e a importância que teve o 4 de fevereiro, a tentativa de golpe de 27 anos atrás, que, como recordam vários participantes, marcou um antes e um depois na história recente da Venezuela.

Diosdado Cabello (esquerda) e Nicolás Maduro, no final de janeiro na Assembleia Constituinte.
Diosdado Cabello (esquerda) e Nicolás Maduro, no final de janeiro na Assembleia Constituinte.Carlos Garcia Rawlins (REUTERS)

O chavista Frang Morales, escudado por uma boina vermelha e uma pulseira com a bandeira venezuelana, promete —e consegue— "resumir 27 anos de história em cinco minutos". Aqui, mais do que programas governamentais são desfiadas memórias: "Quando a gente sobe a este pódio, sente emoção. Quando vejo os rostos de todas essas mulheres e homens, vejo o sorriso do meu comandante Chávez, que tanto amava seu povo", diz Morales. Em vez do "aprovado!" de Guaidó, é hora de enaltecer o chavismo.

—Viva Chávez!

—Viva!

—Viva Maduro!

—Viva!

—-Independência e Pátria Socialista!

—Viveremos e venceremos!

As horas passam até que Cabello comece a falar de eleições. Não vai convocá-las por ora. Primeiro, anuncia que uma comissão será criada para realizar uma consulta popular. E assim contentar a oposição, diz ele, embora os que estejam no salão em frente reivindiquem as presidenciais com garantias democráticas. Cabello não esconde o menosprezo pela oposição e seu novo líder. "O auto ...", diz sobre Guaidó. "Há quem perca tempo nesta vida", comenta, com um sorriso. Lembra aos constituintes que o presidente da Assembleia Nacional lhe disse que estava disposto a tudo. E Cabello, de novo, o desafia: "Olhe, senhor Guaidó, você não ouviu o zunido de uma bala nas proximidades. Você não sabe o que se sente quando uma bala passa a três centímetros de onde você está. Não tem a menor ideia. Nós, soldados, treinamos para isso".

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