‘Green Book’: Já sei, mas funciona

Indicado ao Oscar de melhor filme e eleito melhor comédia no Globo de Ouro, ‘Green Book’ aposta em uma fórmula segura, quase sempre infalível

Mahershala Ali e Viggo Mortensen, em ‘Green Book’. Em vídeo, trailer de ‘Green Book’.

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Tenho a sensação, ou melhor, a certeza, durante toda a projeção de Green Book, de saber o que vai acontecer em cada sequência e de prever como e onde vai estourar a festa humanista de fogos de artificiais e sentimentais que irão adornar o final. E isso nunca me aconteceu com o cinema que admiro, amo, me surpreende, mexe comigo e deixa uma marca na minha retina. Que tudo seja tão previsível me faz suspeitar que o autor só busca em sua história e na forma de narrá-la o amor incondicional de um certo e muito difundido tipo de espectador, o que conhecemos como grande público. Ele se ajusta a elementos repetidos mil vezes e sempre com sucesso. Mas minha intenção nunca é pejorativa quando me refiro ao grande público. Este, entre os quais me incluo, é o principal objetivo ao qual aspiraram a comprazer (ou pelo menos para que passasse pela bilheteria) os diretores mais geniais que o cinema deu ao meu gosto plebeu, gente como Buster Keaton, Charles Chaplin (o que às vezes me enerva pelo abuso do sentimentalismo), Alfred Hitchcock, John Ford, Ernst Lubitsch, Howard Hawks, Billy Wilder, gente assim.

Um tal Frank Capra possuía toda a sabedoria em relação às apetências do espectador médio que passa pela bilheteria. Green Book é devedora do cinema de Capra e também de imitadores medíocres que apostam em uma fórmula segura, quase sempre infalível. Capra teria orgulho de ver seu legado neste filme. Teria assinado esse final feliz, com todos juntos, compreensivos, jubilosos, antirracistas e afetuosos na sagrada noite de Natal.

É dirigido por Peter Farrelly, autor daquela comédia tão bufa que os modernos adoraram intitulada Quem Vai Ficar com Mary, em que a maravilhosa Cameron Diaz tinha um problema de sêmen em seu lindo cabelo. Aqui Farrelly narra o conhecimento e a colaboração ao longo de dois meses entre um genuíno e muito castiço italiano residente no Brooklyn, um trabalhador honesto, e um virtuoso e elegante pianista negro, que não é aceito pelos de sua raça e nem pelos outros, alcoólatra, homossexual e profundamente solitário, que anima festas particulares ou semipúblicas de acadêmicos e ricos, incluindo os educadamente racistas do sul. É o ano de 1962. Estavam acontecendo muitas coisas importantes. Os Kennedy tinham levado a sério a questão dos direitos civis, mas os negros ainda recebiam sopapos nas prisões, eram assassinados sem necessidade de justificação por matadores sempre protegidos pela lei morna, pelos costumes ancestrais, pelo permanente e intolerável estado das coisas.

GREEN BOOK

Direção: Peter Farrelly.

Intérpretes: Viggo Mortensen, Mahershala Ali, Linda Cardellini.

Gênero: Biopic. EUA, 2018.

Duração: 130 minutos.

É um filme que atinge seus objetivos: um sucesso comercial calculado e seguro, e um sentimento com o qual as pessoas estarão muito bem durante e depois de vê-lo. Lembre-se do modelar Conduzindo Miss Daisy. Green Book é um produto convencional, mas muito bem fabricado. E o melhor, para mim, é ver esse tipo meio nórdico, meio argentino, sempre atraente e verossímil, legítima estrela sem ter de fazer esforço, aqui gordo e destilando humor chamado Viggo Mortensen, o cara que me conquistou não graças ao lendário Aragorn mas ao capitão Alatriste (era um homem corajoso, diz Arturo Pérez-Reverte) ou ao íntegro, duro e sofrido samurai de Senhores do Crime. E estou um pouco saturado de ver Mahershala Ali em todos os lugares, às vezes melhor e às vezes pior. É a nova estrela negra. Ainda tem um longo caminho a percorrer para se igualar aos formidáveis Sidney Poitier, Morgan Freeman (sim, aquele assediador exonerado) e Denzel Washington. Eles tiveram mais dificuldade do que os brancos para se tornarem deuses de Hollywood.

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