Governo Maduro detém militares que tentaram se rebelar

Um comando da Guarda Nacional atacou duas guarnições em Caracas, mas foi contido. Em Davos, Bolsonaro disse esperar que o Governo Maduro "mude rapidamente"

Um grupo reduzido de militares rebelou-se em Cota, um bairro de CaracasVideo: Atlas

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Caracas amanheceu sobressaltada. Por volta de 3h da madrugada desta segunda-feira (5h em Brasília), um grupo de militares do Esquadrão Montado da Guarda Nacional, liderados pelo sargento José Gregorio Bandres, atacou a guarnição militar de Cotiza, no noroeste da cidade. O comando emitiu um comunicado afirmando desconhecer o Governo de Nicolás Maduro, a quem descreveu como tirano e usurpador, e enviando à população e ao resto dos militares uma mensagem pela restauração da ordem constitucional no país.

O pronunciamento foi respaldado por moradores da região, que saíram à rua para montar barricadas, queimar pneus e gritar palavras de ordem contra Maduro, protagonizando intensos combates contra a polícia. Após cerca de três horas, já à luz do dia, efetivos militares e membros da Força de Ações Especiais (FAES) da Polícia Nacional Bolivariana contiveram a sublevação e enfrentaram de forma decidida os moradores. Os revoltosos foram detidos, mas os protestos contra Maduro continuavam no bairro. E em Davos. O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, chegou na Suíça para o Fórum Econômico Mundlal dizendo esperar que o "Governo [Maduro] mude rapidamente".

Os venezuelanos amotinados, integrantes do Comando de Segurança Urbana da Guarda Nacional, tinham tomado antes os quartéis de Maracao e Petare, a sudoeste e leste do centro, levando consigo 55 fuzis AK-108 e 55 pistolas, que já foram recuperadas pelas forças armadas. Quando se posicionaram em Cotiza, enviaram vídeos, reproduzidos nas redes sociais, em que aludiam à “tirania” de Maduro e acrescentavam: “Venezuela, estamos fazendo isto por vocês, estamos respondendo ao chamado do povo”. Pela manhã, usuários relataram que as redes do Instagram e Twitter amanheceram bloqueadas em muitos lugares.

A Guarda Nacional, tradicionalmente o componente mais fraco das Forças Armadas venezuelanas, passou por uma clara metamorfose nestes anos: suas unidades cresceram muito em atribuições, efetivos e armamentos, receberam um adestramento especial para enfrentar manifestações oposicionistas, e são vistas como um dos bastiões naturais de Maduro para se fortalecer no poder.

A rebelião militar ocorre pouco depois de a Assembleia Nacional, dominada pela oposição, aprovar uma resolução para anistiar todos os militares que tenham participado de atividades repressivas e de ordem pública obedecendo a ordens superiores. Alguns observadores haviam comentado que esta disposição foi bem recebida nas unidades militares que foram educadas em valores chavistas, mas onde se espalha um descontentamento objetivo com os rumos gerais do país.

Por volta das 9h (hora local), a própria Força Armada Nacional Bolivariana emitiu um comunicado no qual reconhece o ocorrido. Chama os amotinados de “delinquentes”, promete um castigo exemplar para eles e atribui o ocorrido a “obscuros interesses da extrema direita”. O texto promete se ater expressamente ao disposto na Constituição, mas, como é habitual, conclui suas linhas com o lema “Chávez vive, a pátria continua. Independência e pátria socialista, viveremos e venceremos”.

Como já se tornou costume num ambiente sobressaltado e hermético, parte da população desconfiava da veracidade da sublevação e interpretava o ocorrido como uma montagem orquestrada pelo Palácio de Miraflores para ofuscar os pronunciamentos contra Maduro feitos nos multitudinários Conselhos Abertos dos últimos dias em todo o país, convocados pelo novo presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó.

Alguns temem que a rebelião sirva ao Governo Maduro como pretexto perfeito para reprimir de forma indiscriminada. Guaidó, em nome da oposição, convocou a população a se manifestar em todo o país nesta quarta-feira contra a usurpação de Maduro. Prevê-se que a presença popular nessas concentrações seja maciça.

O próprio Guaidó, assim como o líder oposicionista Julio Borges, exilado na Colômbia, fizeram menção à sublevação. Guaidó afirmou em sua conta do Twitter que “o que aconteceu no quartel de Cotiza é uma amostra de um sentimento generalizado nas Forças Armadas”. “Nossos militares sabem que a cadeia de comando está rompida pela usurpação do cargo presidencial. A Assembleia Nacional se compromete a oferecer todas as garantias necessárias aos membros das Forças Armadas que contribuam ativamente com a restituição da Constituição”, escreveu. Borges, por sua vez, disse que “o mesmo desejo de mudança que motivou a sublevação da Guarda Nacional em Cotiza existe dentro das Forças Armadas como um todo. Apoiamos esse sentimento, e a Lei de Anistia da Assembleia Nacional é para dar garantias a todos os militares que impulsionem a volta da democracia”.

No meio da manhã, havia notícias de um dispositivo de proteção especial nas instalações militares de Forte Tiuna, em Caracas, e no Comando do Exército, onde tanques haviam se posicionado. O alto comando militar estaria avaliando o alcance e efeitos dos conselhos da oposição, reuniões de bairro realizadas com vistas à concentração de 23 de janeiro. Dois dias atrás, Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, dominada pelo chavismo, tinha sugerido que as instituições do Estado, começando pelo Tribunal Supremo de Justiça e a Procuradoria Geral da República, controlados pelo governismo, investigariam a atuação de Guaidó e da Assembleia Nacional.

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