‘Friends’ é uma série homofóbica?

Começou a temporada de discussões sobre o tom homofóbico de ‘Friends’. Como o retrato do grupo LGBT mudou na ficção televisiva?

Fotograma do episódio de 'Friends' em que duas mulheres se casam, emitido em janeiro de 1996.
Fotograma do episódio de 'Friends' em que duas mulheres se casam, emitido em janeiro de 1996.

Em 2004, depois de 10 temporadas, Friends se despediu da rede NBC deixando para trás uma série que marcou época e o grupo de amigos mais mítico da televisão. Passaram-se 14 anos desde então, mas as vidas de Rachel, Monica, Phoebe, Ross, Joey e Chandler continuam despertando interesse e alimentando debates.

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A televisão mudou e também seus espectadores, mas Friends permanece como uma das comédias mais populares —é uma das séries mais vistas na Netflix— e não só pela nostalgia. Muitos espectadores que não assistiram na época estão se aproximando dela agora. E descobriram um programa que, como no caso dos produtores culturais, é filho de seu tempo, com tudo que isso representa. Em um vídeo intitulado Homophobic Friends, a cineasta Tijana Mamula compilou em 2011 muitas das piadas e situações homofóbicas da série. E não são poucas: o vídeo, disponível no YouTube, dura quase uma hora. A ex-mulher lésbica de Ross ou o pai transgênero de Chandler dão lugar a piadas recorrentes pouco apropriadas. No entanto, a jornalista Kelsey Miller defende em seu livro I’ll Be There For You. The One about Friends (Hanover Square Press) que essas brincadeiras são fruto do momento social em que a série foi exibida.

Miller destaca em seu livro que em Friends se viu o primeiro casamento entre duas mulheres em horário nobre nos Estados Unidos. Foi em 11 de janeiro de 1996, no capítulo que apresentava o casamento de Carol, ex-mulher de Ross (e mãe de seu filho), e Susan, episódio visto por quase 32 milhões de espectadores ao vivo. A rede NBC, temerosa da reação do público, contratou uma equipe extra para a central de atendimento, prevendo uma chuva de telefonemas de protesto. Mas só duas pessoas ligaram para reclamar.

A cerimônia de Friends não foi o primeiro casamento entre pessoas do mesmo sexo na TV estadunidense. Em 1991, a série Roc, sobre uma família negra residente em Baltimore, mostrou o casamento de um tio da família que acabara de sair do armário e que colocava em evidência o incômodo do protagonista diante da situação. Em dezembro de 1995, outra comédia, Roseanne, mostrou o casamento de um conhecido da protagonista com seu companheiro em um capítulo com várias piadas homofóbicas. No caso de Friends, David Crane, um dos criadores, afirmou: “Não quero que os espectadores se sintam confortáveis nem desconfortáveis. Os homossexuais têm vida, como qualquer um. E esses casamentos são parte delas”. Como diz Kelsey Miller, o episódio do casamento gay em Friends “se coloca como uma incômoda recordação de um tempo, nem tão distante, no qual as piadas sobre gays eram muito mais aceitas na tela do que os próprios gays, para não falar do casamento homossexual”.

Muito mudou desde então para os personagens LGBT na telinha, tanto em número como na forma como são mostrados. O último relatório da GLAAD (sigla em inglês para Aliança de Gays e Lésbicas contra a Difamação), correspondente à temporada 2018-2019 e publicado em 25 de outubro, afirma que nos EUA 8,8% dos personagens com presença regular em séries do prime time dos principais canais abertos pertencem ao coletivo LGBT. É a porcentagem mais alta desde que a GLAAD começou a produzir esse relatório há 14 anos. “Em tempos em que se debatem políticas anti-LGBT, as histórias e personagens televisivos são mais importantes do que nunca para o entendimento e a aceitação”, diz a presidenta da GLAAD, Sarah Kate Ellis. O relatório ressalta que em 2018 se fez história com a exibição da série com o maior número de personagens transgênero (Pose, criada por Ryan Murphy). Além disso, destaca a incorporação à ficcional Supergirl do personagem Dreamer, interpretado por Nicole Maines, que nesta temporada está contando sua trajetória para se tornar a primeira super-heroína transgênero.

Cerca de 8,8% dos personagens de séries estadunidenses pertencem ao coletivo LGBT, a porcentagem mais alta em 14 anos

O caminho até aqui foi marcado por fatos memoráveis. Um dos mais relembrados é a saída do armário da protagonista de Ellen, interpretada por Ellen DeGeneres. Em 30 de abril de 1997 foi exibido o episódio no qual Ellen Morgan (o personagem de ficção) aceita sua condição sexual e a torna pública diante de 44 milhões de espectadores. A transmissão tinha levantado grande expectativa depois da saída de armário, duas semanas antes na capa da Time, da própria DeGeneres. O capítulo venceu o Emmy de melhor roteiro de comédia. Um ano depois, em 1998, começou Will & Grace, comédia sobre um advogado homossexual e sua melhor amiga, heterossexual. A produção da NBC durou oito temporadas e voltou em 2017 (agora está na décima temporada). Sua relevância foi tal que o ex-vice-presidente dos EUA, Joe Biden, disse em 2012 ao apoiar o casamento gay: “Will & Grace fez mais para educar o público norte-americano do que praticamente qualquer outra coisa”.

Apesar de um longo caminho ter sido percorrido desde aquele casamento de Friends na representação do coletivo LGBT, ainda restam muitos capítulos a escrever.