“Tirando um lazer” no fluxo de Paraisópolis, o maior baile funk de São Paulo

Jovens de toda a cidade encaram até 50 quilômetros de viagem de transporte público para chegar nos bailes que pegam fogo a partir das 2 da manhã com caixas de som de carros na rua na periferia de São Paulo

Do extremo leste ao Paraisópolis: a caminho de um dos maiores fluxos de baile funk de São Paulo. Bruno, ao centro com uma garrafa de whisky na mão.
Do extremo leste ao Paraisópolis: a caminho de um dos maiores fluxos de baile funk de São Paulo. Bruno, ao centro com uma garrafa de whisky na mão.Flimas

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22h50 é o horário em que Bruno, morador do Itaim Paulista, extremo leste paulistano, embarca no metrô Tatuapé acompanhado de onze amigos, um copo de acrílico e duas garrafas: uma de whisky White Horse e uma de energético Vibe. Eles estão a caminho do baile da Dz7, também conhecido como Paraíso do Mal em referência a Paraisópolis, a maior favela de São Paulo, segundo o último censo do IBGE, localizada no lado sul do mapa da capital paulista. Lá acontece um dos maiores fluxos da cidade, ruas e mais ruas lotadas de gente que se reúnem em torno de carros. Por fluxo, dentro desse contexto, se entende bailes funks espontâneos, que brotam nas periferias de São Paulo de maneira autônoma. Ao que se sabe os eventos se dão de maneira simples: um carro com alto-falantes e uma longa playlist de funk estaciona com o porta-malas aberto, outro veículo vendendo combos de bebidas alcoólicas encosta por ali e aos poucos as pessoas vão se aglomerando e os carros de bebida e de paredão de som vão se multiplicando. Paraisópolis, um bairro com cerca de 100.000 moradores, segundo o IBGE, concentra dois bailes nesse formato: o baile da Dz7 (17) e o baile do Bega.

Os eventos são capazes de reunir jovens de várias quebradas, gente que como Bruno chega a percorrer mais de 50 quilômetros, quase todos os finais de semana para "tirar um lazer". O caso do Bruno é curioso, já que estima-se que no Itaim Paulista aconteçam cerca de 15 fluxos. Questionado, ele se justifica dizendo que no bairro todo mundo se conhece, além disso Bruno busca novidades, para ele depois de um tempo o baile perde a graça e aí ele parte em busca de novos fluxos, o que é também para ele uma forma de conhecer mais gente e andar pela cidade.

Um dos paredões de som chegando ao fluxo.
Um dos paredões de som chegando ao fluxo.

O longo percurso de Bruno até Paraisópolis envolve uma van até a estação de trem do Itaim Paulista, um trem até o Metrô Tatuapé, uma baldeação da linha vermelha para a linha amarela e mais um ônibus que sai do terminal Pinheiros, zona oeste, rumo ao bailão na zona sul. Entre um gole e outro, Bruno fala sobre suas expectativas para aquela noite: curtir, dar uns beijos e continuar bebendo. "A gente tá online desde cedo. Começamos com um churrasco na minha casa e não era nem meio-dia", explica Bruno que só pretende voltar pra casa às 10h do domingo.

Do terminal Pinheiros ao baile: tudo lota

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Na plataforma do Terminal Pinheiros um aglomerado de gente pode ser observado de longe. São jovens que não aparentam ter mais do que 30 anos e apesar das diferentes rotas para chegar até ali se aproximam pelo estilo. Os homens geralmente vestem camisetas de times e bermudas de camurça ou calças de tactel. Camisetas listradas – ou não — da marca Lacoste também fazem parte do kit que se complementa com tênis Mizuno. No cabelo o que reina é o corte chavoso, um estilo que deriva do corte de cabelo militar, mas que na quebrada ganhou adaptações e outro nome. "Chave", segundo o dicionário informal, faz alusão à expressão “chave de cadeia” e cria uma identidade única, sui generis. Muitos preferem bonés, geralmente de marcas como Oakley, Cyclone, Adidas. Entre as mulheres o look comum é composto por bodies, cropetes, shorts, leggins, roupas confortáveis e que dão aos corpos, quase sempre magros, mais definição. Para calçar as opções são sandálias tipo "Melissinhas", como são nomeadas as réplicas da marca de calçados de plástico Melissa, ou tênis de marcas como Mizuno, Adidas, Nike. Os cabelos, na maioria das vezes, são longos e alisados.

O ônibus Valo Velho 647A-10 se ajeita para encostar na plataforma. A muvuca formada pelos jovens vai de um lado para o outro tentando acompanhar a porta de entrada do veículo. Bruno conta que é nesse momento do percurso que acontece a “multa”, uma prática aplicada pelos passageiros que se negam a pagar a tarifa pelo transporte público. Depois de alguns minutos de pessoas passando por debaixo da catraca, o cobrador, um homem magro e jovem com corte de cabelo similar ao dos frequentadores do baile, se irrita e impede a continuidade da insubmissão. O motorista fecha as portas e o ônibus sai separando grupos de amigos como o do Bruno, que embarcou junto com a primeira leva.

Logo em seguida, o ônibus Terminal João Dias N742-11 chega à plataforma. O restante dos passageiros seguem catracando, ou seja, pulando as catracas. Poucos minutos depois de deixar o terminal, um cheiro de maconha toma o veículo. A nuvem de fumaça vem do último banco, onde uma roda improvisada de jovens fuma até a parada do estádio do Morumbi. Lá, trabalhadores entram no ônibus, talvez por respeito ou por perceber que um carro de polícia passou a acompanhar o busão, a roda se desfaz e o cigarro é apagado. Na hora de desembarcar, os meninos que fumavam ficam atentos à polícia que ultrapassa o ônibus sem aparentar estar ciente de alguma denúncia. Dali, segue-se pela avenida Giovani Gronchi, uma via larga, com calçadas espaçosas e prédios de classe média alta.

A noite se divide em duas

Para chegar ao fluxo tem que descer uma rua estreita e íngreme, paralela à Giovani Gronchi. Da pacata vida noturna da avenida às ladeiras movimentadas e sonoras do Paraisópolis, o cenário muda por completo. A caminhada se faz pelo meio da rua onde carros, motos, bicicletas e pessoas disputam espaço a todo momento. Seguem-se cerca de 20 minutos entre subidas e descidas. Há casas que impressionam pela quantidade de andares, verticais por conta dos terrenos, que assim como as ruas, são estreitos e constituem uma nova paisagem de prédios. É uma estética peculiar, com o alaranjado dos tijolos baianos misturados com o brilho reluzente das janelas de alumínio.

Quanto mais dentro da comunidade, menos residencial se torna o bairro. No miolo do Paraisópolis o andar debaixo da maioria das construções abriga algum tipo de comércio: mercadinhos, lanchonetes, bares, lojas de roupas e, por vezes, todas as coisas juntas. Igrejas evangélicas são tão frequentes na paisagem, quanto os bares. O som alto é marca registrada da quebrada. Antes de chegar ao som estridente do fluxo, pelo menos cinco botecos disputam a potência de suas caixas de som e promovem remixes involuntários que acontecem por conta da proximidade dos estabelecimentos e do volume das playlists que priorizam o brega, o pagode, o sertanejo e o funk. Um pouco mais adiante, um grupo de forró portando uma zabumba, um triângulo e um pandeiro chamam a atenção pela música ao vivo, um grande diferencial, já que dos bares ao fluxo todo som é sintético.

Por volta das 00h00, a rua Ernest Renan, onde acontece há pelo menos oito anos o fluxo da Dz7, está começando a ficar cheia de pessoas e carros. A noite ainda está começando e as pessoas conseguem circular com facilidade. Muitos ambulantes já estão posicionados, carros com o porta-malas abertos, enfeitados com muita luz de led e placas chamativas que anunciam combos de garrafas de vodca, whisky e destilados sempre acompanhados por gelo de côco ou energético. Os preços variam entre 40 reais a 60 reais, mas muitos frequentadores preferem trazer suas próprias bebidas. Adegas, tabacarias e bares também estão presentes durante a noite toda, os preços não se diferenciam muito dos ambulantes, e as mais próximas do fluxo chegam a faturar 5.000 reais por mês, segundo um levantamento realizado pela reportagem da UOL Tab.

FLIMAS

A onda agora é Bega

Não se sabe porque o público tem preferido o Baile do Bega ao da Dz7, mas em conversa com Luana*, uma jovem de 18 anos que frequenta os dois bailes, o baile do Bega é melhor porque lota mais e não é tão difamado quanto o baile da Dz7. "Meus pais nem sonham que eu vou pro baile da Dz7, eles acham que eu vou pro Bega, que é mais de boa."

De fato, a Dz7 não parecia tão atrativa, apesar da potência das caixas de som, os funks reproduzidos não empolgavam o público, tampouco convenciam os transeuntes a ficar. A multidão caminha de um lado para outro em busca do carro com a playlist que mais agrade e renda contatos. Andando alguns metros, a cerca de dois quarteirões da rua Ernest Renan, chega-se ao Baile do Bega. Tudo é muito similar a Dz7, o que muda é a empolgação do público que é basicamente o mesmo, já que as ruas são próximas e em dia de baile funcionam como ambientes de baladas que oferecem mais de uma pista de dança.

Quando toca a onda agora é Bega! -– música do Mc Caio que exalta o baile — a multidão vibra, a mulherada joga o cabelo, mas ninguém segue à risca a coreografia proposta pelo mc na letra do funk. O Baile do Bega tem a mesma configuração do baile da Dz7: paredões de som com pessoas dançando ao seu redor, bebendo destilados, baforando lança, fumando narguile e coisas do tipo. O espaço entre a multidão é disputado também por motos que vez ou outra saem para ser empinadas e depois retornam às esquinas, as motos fazem contenções a parte. Na maioria das vezes ficam estacionadas em fileiras nas esquinas de onde se concentra o fluxo.

Baile do Bega, Parisópolis, São Paulo, SP.
Baile do Bega, Parisópolis, São Paulo, SP.Flimas

Vez ou outra um cheiro de bicho morto toma o baile que na maior parte do tempo cheira à essência doce de narguile e maconha. A rua do baile do Bega, em especial, possui muito entulho. Nenhum dos cheiros abala a curtição que toma proporções absurdas depois das 2h da manhã, quando o baile já está "embrazado", ou seja, no auge, lotado. Se o baile não "embraza", ele "moia", literalmente por conta da chuva ou pela presença da polícia, que quando chega antes das 2h impede o evento de acontecer. Se chega, há tumultos por conta das táticas utilizadas para dispersar o público. Bombas de gás lacrimogênio e gás de pimenta causam correria e nem sempre acabam bem, como aconteceu em novembro de 2018, no Baile Vermelhão, em Guarulhos, onde três pessoas morreram por pisoteamento.

Entre os milhares de jovens que estão entre as ruas da Dz7 ao Bega, alguns senhores e algumas senhoras espiam o que acontece, outros aproveitam o movimento para fazer dinheiro. É o caso de dona Márcia*, uma senhora de 62 anos, que há 8 anos abre sua lanchonete 24h todas as noites de quarta a domingo para lucrar com quem não a deixa dormir. Em seu estabelecimento ela vende alguns salgados como risoles e coxinhas, cervejas e doses de destilados, além de oferecer também o banheiro por 2 reais. Sim, como o fluxo é autônomo e espontâneo não existe infraestrutura como banheiros químicos. A maioria dos estabelecimentos é muito pequeno e muitas vezes se resume ao balcão de atendimento.

O dia amanhece, o som continua

Quando o Sol aparece sobre a pista, muita gente começa a subir as ladeiras em direção à Avenida Giovani Gronchi, alguns carros que sustentavam a onda sonora se retiram e as ruas vão esvaziando. Vassouras e sacos de lixo começam a aparecer na mão de moradores que não participaram da festa. O cheiro de xixi é o odor da vez e se acentua conforme se chega perto das esquinas. A descontração dos jovens começa a dar lugar à rebordosa. Um casal que caminhava discutindo passa a se agredir. Uma garrafa, como a que Bruno carregava cuidadosamente a caminho do rolê, vira uma arma. A menina quase acerta a cabeça do sujeito com quem minutos depois sai abraçada. As pessoas ao redor não fizeram nada para impedir o casal de tirar sangue um do outro, no mesmo ambiente.

Do outro lado da calçada, um jovem é acordado em cima de garrafas de vidro onde dormia tranquilamente. Ao levantar percebe seu cotovelo todo ensanguentado. Um garoto revira os olhos enquanto é levado por dois amigos. Depois de 8 horas, ininterruptas de festa jovens embriagados não são a exceção, contudo o som alto prossegue. Muita gente ainda está apegada ao rolê e faz ele acontecer como dá. Os vizinhos começam a se levantar e também colaboram com a trilha sonora do bairro. Um dos moradores liga seu aparelho de som no último volume e dá play no Rei da Pizadinha. Em seguida, na mesma ladeira, a Chopperia Itaipava toca Another brick in the wall de Pink Floyd para um único cliente. O fluxo vai adormecendo, mas Paraisópolis não dorme. Os remixes continuam, mas é hora de encarar a volta para casa dentro de um ônibus cheio de gente que dormia enquanto a vida acontecia a todo volume nesse pedaço da zona sul paulistana.

*Os nomes das pessoas entrevistadas foram alterados para preservar suas identidades.

Jovens voltando do Fluxo do Paraisópolis.
Jovens voltando do Fluxo do Paraisópolis.Flimas