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Violência e depressão, a ponta do iceberg de um país em constante sobressalto

Tragédias, como a do atirador de Campinas, revelam escalada de um mal estar social que o país não está dando conta, afirmam especialistas. Doenças mentais são amplificadas pela prolongada crise política e econômica

Um homem deixa flores para as vítimas da Catedral de Campinas.
Um homem deixa flores para as vítimas da Catedral de Campinas. AFP

No início da semana que passou, um homem entrou na Catedral de Campinas (100 quilômetros de São Paulo) e abriu fogo contra os fiéis que rezavam a missa do horário do almoço. Três pessoas ficaram feridas e cinco morreram, dentre elas, o próprio atirador, que se suicidou após realizar os disparos. Ainda não há informações sobre a motivação do crime, que embora seja chocante, soma-se a uma lista cada vez maior de tragédias em todo o mundo.

O atirador, Euler Fernando Grandolpho, tinha 49 anos e nenhum antecedente criminal. Levou às últimas consequências sentimentos que podem ter sido movidos por ódio, angústia, ansiedade e pela depressão, doença da qual sofria, segundo parentes relataram à imprensa. Se o diagnóstico for confirmado, Grandolpho fazia parte dos quase 6% da população brasileira que sofre da enfermidade, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Em nenhum país da América Latina vive tanta gente deprimida como aqui. E o suicídio, que pode vir a ser cometido também em decorrência da doença, vem na mesma escalada. Em 2016, data dos dados mais recentes do Ministério da Saúde, foram registradas 11.433 mortes por suicídio, 2,3% a mais que no ano anterior. E esse número, segundo o Ministério, tende a ser ainda maior, devido à subnotificação dos registros.

Mas por que, afinal, estamos sofrendo tanto? "Tenho assistido a um aumento violento de suicidas chegando até o meu consultório", afirma a  terapeuta floral Cristiane Boog, que desenvolve técnicas para o enfrentamento de medos. “Houve épocas em que eu cheguei a atender quatro casos por semana. Isso era muito raro”, diz. Ela explica que, além dos fatores particulares, como traumas individuais, há um diagnóstico que é comum para muitos dos casos suicidas. “[Carl] Jung dizia que as pessoas adoecem pela falta de um sentido maior na vida, por levar a vida no automático... A pessoa fica presa a cobranças da sociedade, a padrões, a expectativas dos outros que acaba gerando uma falta de contato com a própria essência”, afirma ela. “Esse vazio é insuportável para o ser humano e eu sinto que muito da tendência suicida vem dessa falta básica”.

O psiquiatra Rodrigo Leite, coordenador dos Ambulatórios do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, explica que há fatores sociais que, ao longo da história humana, sempre foram associados a transtornos mentais, como situações de guerra, crises socioeconômicas e situações de colapso social. Mas, além disso – e dos fatores particulares, como apontou Cristiane Boog - o especialista menciona questões ligadas à atualidade. “Somados a esses fatores fixos, ainda temos os adicionais do momento, que, agora, são o avanço das tecnologias, que causam uma sobrecarga sensorial, o enfraquecimento de vínculos sociais e a exacerbação do individualismo”, diz.

Embora os fatores “fixos” e os “adicionais” não necessariamente andem juntos, neste momento eles estão de mãos dadas no divã brasileiro. O país atravessa uma crise política e econômica que já perdura por alguns anos e também sofre as consequências do avanço da tecnologia que, segundo os especialistas, contribuiu para a ruptura de muitos vínculos afetivos. “Quantos de nós perdemos amigos, saímos de grupos de WhatsApp, por conflitos de opiniões?”, questiona Leite. “Temos um cérebro analógico, com uma sobrecarga de informação digital. E isso dá margem para interpretar informações de maneira muito rasa”, afirma ele. “A pessoa chega a uma conclusão e você não consegue mais discutir com ela, e vamos caminhando para um autoritarismo, onde não respeitamos as outras opiniões”.

Essa intolerância pode ocorrer no mundo real ou no mundo virtual. Mas a consequente ruptura é sempre real, e é outro fator que engrandece a lista dos motivos para estarmos deprimidos e estressados. A psiquiatra e psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association do Brasil (ISMAbr), faz esse diagnóstico. “Estamos em um momento de baixíssima tolerância no Brasil. Eu vi nos meus pacientes o aumento dos casos de agressão e depressão, as pessoas brigando com familiares e depois se sentindo miseráveis”, diz. Para o psicanalista Daniel Guimarães, da Clínica Pública de Psicanálise, muitas das rupturas ocorridas durante a eleição não terão reparação. “E teremos de saber lidar com esse desconforto”, diz. "É um momento de rompimentos mesmo. E não sabemos ainda a profundidade desses rompimentos e nem para onde eles apontam”.

A psicanalista Luciana Saddi, diretora da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, também diz que os vínculos perdidos e o ódio vivenciado durante a eleição permanecerão mesmo passado o pleito. E a saúde mental está em risco enquanto esse clima perdurar. “A crise social também afeta a saúde mental”, afirma. Mas, para ela, o aumento dos casos de depressão, de maneira geral, está ligado justamente à repressão dos sentimentos em relação ao outro. "A civilização tem como prerrogativa inibir a agressão. Ou seja, quanto mais civilizados formos, mais vamos inibir a nossa agressividade contra o outro e mais vamos aumentar contra nós mesmos", diz. "Acredito que o aumento da depressão está ligado ao fato de que o homem está cada vez mais rigoroso consigo mesmo. E o ódio que ele permitia sentir contra o outro, agora se volta contra ele e ele nem sabe".

Efeito borboleta social

Nos últimos três anos, três milhões de brasileiros deixaram seus planos de saúde privados por falta de condições de arcar com os custos. E muitos deles somaram-se a uma massa de 140 milhões de pessoas – ou 70% da população – que dependem exclusivamente do SUS para os atendimentos de saúde. O psiquiatra Rodrigo Leite, que também é mestre em políticas públicas e serviços mentais pela Universidade Nova de Lisboa, alerta para o descompasso entre o aumento na demanda e os investimentos na saúde pública. “Existe um hiato entre as mudanças sociais e o quanto as políticas públicas conseguem acompanhar esse passo da sociedade”, diz. “Nossa percepção é que essa crise na saúde mental é ainda maior porque os serviços não estão acompanhando as transformações”.

Ele explica que a ausência de Estado gera um efeito cascata que ele classifica como “efeito borboleta social”, ou um efeito de propagação. “Quando um jovem negro leva um tapa na cara de um policial no Capão Redondo, isso pode virar um latrocínio nos Jardins”, diz. Em outras palavras, vítimas da violência, da humilhação e do descaso público, marginalizadas pela sociedade, podem se transformar em potenciais atores de mais violência. “Ou seja, se um lado da sociedade não está bem, isso se cascateia para o outro lado”, explica.

Para Leite, a tragédia ocorrida nesta semana em Campinas está compreendida nesse "efeito borboleta". “O que aconteceu em Campinas é a ponta do iceberg de uma tragédia social em curso que as políticas públicas não estão dando conta de atender e o privado também não”, diz. Ana Maria Rossi completa: a melhora da nossa saúde mental depende, diretamente, da melhoria da situação do país.“Nós precisamos sentir que existe mais estabilidade econômica, política e jurídica para que nosso ânimo volte ao normal" diz. “Não importa quem seja o presidente, precisamos de estabilidade”.

Algumas iniciativas buscam amenizar o quadro de abandono social e psíquico desenhado pelos especialistas. Uma delas é a Clínica Pública de Psicanálise, criada em 2016 na Vila Itororó, um imóvel histórico na região central de São Paulo. O prédio foi decretado de utilidade pública em 2006, quando começou a ser desapropriado pelas famílias que ali viviam há anos. Os 17 profissionais que trabalham voluntariamente no local atendem desde pessoas que perderam poder aquisitivo nos últimos anos, mas queriam continuar fazendo terapia, até pacientes que dependem de ter dinheiro para o ônibus para poder comparecer às sessões, como explica o psicanalista Daniel Guimarães. “Muitos são ex-moradores da Vila Itororó. É uma clínica para atender pessoas que são vítimas da violência do Estado e do mercado”.

Um dos objetivos da clínica é facilitar o acesso ao cuidado mental. E essa acessibilidade é construída também por meio da formação. Guimarães explica que um dos planos é formar novos analistas oriundos das camadas mais populares, tornando assim o cuidado com a saúde mental algo mais popular e menos elitizado. “É muito interessante que agora a ideia de procura de espaços do cuidado emocional e afetivo seja uma possibilidade”, diz. “Em outros momentos da história do Brasil não era”.

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