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COLUNA i

Bolsonaro sem paraquedas e sem filtros

O capitão poderá prescindir da imprensa e dos jornalistas. O que não deve ignorar é que eles não prescindirão dele

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Bolsonaro durante a cerimônia de diplomação no TSE. REUTERS

Jair Bolsonaro, no ato solene de sua diplomação como Presidente da República na sede do TSE, revelou que pensa governar sem paraquedas e sem filtros. Não gosta da imprensa clássica que o poder tanto bajulou no passado.

O capitão da reserva e paraquedista do Exército deixou claro que sua relação com a sociedade será feita diretamente com as pessoas, através das redes sociais “sem intermediários”, cara a cara, twitter a twitter, a qualquer momento do dia e da noite.

De acordo com o novo presidente “o poder popular já não precisa de intermediários”. Adeus, portanto, às mediações diplomáticas, aos assessores de imprensa, às entrevistas jornalísticas coletivas. Para que se a tecnologia permite que ele se comunique sem filtros com as pessoas?

O primeiro gesto simbólico que confirma a postura revolucionária de Bolsonaro foi protagonizado durante a diplomação quando o espaço reservado ao seu encontro com a imprensa ficou vazio. Ele não apareceu.

Será uma revolução na comunicação de um Presidente com a população diretamente, ao vivo, sem que precise se submeter a perguntas indiscretas dos intermediários da comunicação?

O novo presidente sabe que os 57 milhões de votos que o levaram ao Planalto não foram dados pelas televisões e os grandes jornais, que o criticaram. Foram as redes, seus desabafos ao vivo, seu cara a cara com as pessoas.

Se não voltar atrás em seu propósito, certamente teremos um Presidente da República inédito, onipresente, que pode surpreender a qualquer momento com suas declarações. A pergunta que não pode deixar de ser feita é se esse novo modo de se comunicar com a sociedade sem filtros e intermediários será prerrogativa sua ou permitirá que tal revolução possa ser imitada por seus ministros, por seus três inquietos filhos e também sem paraquedas diplomáticos.

É uma aposta de risco. Moderna, sem dúvida, mas não isenta de graves perigos dada a responsabilidade e o poder que o Presidente da República exerce no Brasil.

Bolsonaro poderá esnobar a imprensa tradicional, se negar a usá-la e evitar seu assédio, algo que é parte intrínseca da imprensa que somente sendo oposição será fiel a sua missão de vigiar o poder e seus possíveis desmandos e pecados.

O capitão poderá prescindir da imprensa e dos jornalistas. O que não deve ignorar é que eles não prescindirão dele. Serão como uma mosca que o perseguirá gostando ou não.

A democracia tem suas regras e as instituições sua função e sua liberdade de ação. Melhor para todos, como se dizia no velho jornalismo, que seja tudo “à luz do dia”.

A verdade, por mais dura e criativa que seja, nunca deveria ter medo de ser questionada e iluminada. O medo à informação continuará sendo, com ou sem redes, a pior imagem que pode desejar transmitir um presidente que não tem nada a esconder.

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