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Assim operava o maior cartel do mundo, segundo traficante preso no Brasil

O narcotraficante Juan Carlos Abadía relata como estruturou o envios de cocaína aos Estados Unidos.

Preso em 2007 no Brasil, o colombiano colabora no julgamento de Joaquín “El Chapo” Guzmán nos EUA

Reprodução do interrogatório do narcotraficante colombiano Juan Carlos Ramírez.
Reprodução do interrogatório do narcotraficante colombiano Juan Carlos Ramírez. EFE

Juan Carlos Ramírez Abadía tem orgulho de sobra. Sempre fala fazendo referências a si mesmo. O sinistro narcotraficante colombiano, conhecido no mundo da droga como Chupeta, espalha aos quatro ventos que sua cocaína era a melhor do mercado. “Ótima qualidade”, disse ele no depoimento que prestou no Tribunal Federal do Brooklyn, que processou o capo mexicano Joaquín “El Chapo” Guzmán. No entanto, para que o produto ilegal chegasse ao consumidor, era preciso contar com uma estrutura perfeitamente afinada de transporte, distribuição e arrecadação dos lucros, na forma do capitalismo mais selvagem e cruel que se possa imaginar.

Basta reparar no rosto de Chupeta, de 55 anos, para entender que ele era um verdadeiro camaleão. O antigo chefe do cartel Norte del Valle tem a cara completamente desfigurada após as múltiplas cirurgias faciais realizadas para fugir da Justiça. Ele submeteu seu negócio a essa mesma transformação vampiresca, a tal ponto que descreveu a indústria do narcotráfico como uma ágil empresa em constante evolução para se adaptar às condições de trabalho.

Segundo ele, a mudança de tática era fundamental para maximizar os lucros e garantir a sobrevivência. Ramírez Abadía foi um dos líderes mais violentos do negócio da droga. Ordenou mais de 150 assassinatos de rivais que estavam em seu caminho, conservando assim o poder. Em menos de duas décadas, saiu do nada para vender mais de 500 toneladas de cocaína nos Estados Unidos. E transportava a droga sobretudo através do cartel mexicano de Sinaloa.

Chupeta começou a trabalhar com “El Chapo” porque era o mais rápido e efetivo da época. “Ele buscava a melhor qualidade”, explicou. Isso foi no início dos anos 90, após um primeiro encontro num hotel da Cidade do México. Ambos levaram dois meses para definir a operação. Em troca, Guzmán pediu uma fatia de 40% pelo transporte da mercadoria até Los Angeles. “Ele era mais caro que os outros”, afirmou, “mas garantia a proteção dos carregamentos e de meus empregados.”

Ramírez Abadía se considerava um verdadeiro empresário e um grande negociador. Entendeu que a segurança tinha um custo a ser pago. Seu primeiro envio chegou em menos de uma semana, quando os demais faziam o trabalho em um mês ou mais. “Não esperava isso”, admitiu, lembrando que 90% do carregamento foi vendido em Nova York. Chupeta explicou como manipulava o mercado para ter maior controle. “Muitas vezes, eu guardava [a droga] para saber o preço e obter maiores ganhos”, disse.

“Invasão”

Chupeta também inovou no transporte para evitar a interceptação de seus envios. Começou mandando aviões da Colômbia até o México. Chegou a enviar até 15 aeronaves carregadas de cocaína numa única noite rumo a pistas clandestinas, onde “El Chapo” tinha uma equipe esperando, com pessoas que descarregavam os narcóticos e tanques de querosene para reabastecer os aviões. A envergadura do transporte cresceu tanto que os funcionários dos traficantes comentavam que aquilo parecia uma “invasão”.

As autoridades norte-americanas e colombianas começaram então a fechar o cerco. Para evitar as apreensões, Chupeta e os capos do cartel de Sinaloa modificaram o método de transporte da droga até o México, usando barcos pequenos pelas águas do Pacífico. “Ninguém tinha utilizado [essa rota] antes”, explicou. “Era uma via completamente nova”. Para mostrar sua confiança na nova estratégia, ele carregou um barco com 10 toneladas de cocaína. Depois estudou fazer o mesmo usando semissubmarinos.

O narcotraficante Juan Carlos Abadia, mais conhecido por Chupeta.
O narcotraficante Juan Carlos Abadia, mais conhecido por Chupeta.

Juan Carlos Ramírez e Joaquín Guzmán entraram em contato graças a Ismael “El Mayo” Zambada, o atual líder do cartel de Sinaloa. Jesús “El Rey” Zambada, seu irmão, também detalhou em depoimento a complexa estrutura logística da empresa. Os criminosos controlavam todos os movimentos de forma minuciosa. Classificavam a cocaína segundo a origem e a qualidade nos armazéns da Cidade do México. E estabeleceram uma contabilidade rigorosa para monitorar os pagamentos, incluindo os dos assassinos que contratavam e os dos jornalistas.

Chegou um momento em que os acordos ilícitos feitos com as autoridades colombianas e mexicanas deixaram de funcionar, o que aumentou o risco para o negócio. “As apreensões são a maior tragédia para um traficante”, confessou. Chupeta já era “super-rico”, diz ele, quando as forças de segurança estavam em seu encalço. Assim, prevendo sua detenção, ele decidiu mudar de tática novamente. E desmontou toda a estrutura de distribuição nos EUA.

Nos bastidores

Em vez de enviar a droga ao mercado norte-americano, Chupeta pensou que poderia fugir da Justiça vendendo diretamente para o cartel de Sinaloa em alto-mar. “Eu queria agir nos bastidores”, disse ele. “Ganharia menos dinheiro, mas achei que assim teria menos problemas com as autoridades dos EUA.”

Chupeta acabou abandonado na Colômbia. Operou na Venezuela e depois no Brasil, onde foi preso em 2007 e extraditado no ano seguinte. O FBI estima que 60% da cocaína nos EUA chegou a ser dele. Hoje, o traficante integra um programa de proteção de testemunhas nos EUA, onde reside, e é um dos principais colaboradores no processo penal contra “El Chapo”. As autoridades colombianas confiscaram bens de Chupeta avaliados em mais de um bilhão de dólares (3,8 bilhões de reais), incluindo quadros de Botero. Com seu depoimento, o traficante confirmou a descrição feita também por Miguel Ángel Martínez, conhecido como “El Gordo”, sobre a estrutura do cartel mexicano, do qual foi gestor.

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