Narcotráfico

“A narrativa sobre o narcotraficante El Chapo é a maior ficção na suposta guerra às drogas”

O acadêmico Oswaldo Zavala lança no México o livro ‘Os cartéis não existem’, que dinamita o discurso oficial sobre a criminalidade no país

Oswaldo Zavala, na Cidade do México.
Oswaldo Zavala, na Cidade do México.Alicia Fernández

Do que estamos falando quando nos referimos ao narcotráfico no México? O que significa ler que os cartéis colocam o Estado em xeque, que a guerra se intensifica nos Estados de Guerrero, Tamaulipas, Jalisco e Michoacán? O que é um sicario, uma plaza, um halcón, o que é esta matança que sangra o país há tantos anos?

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São palavras e expressões que aparecem nos relatórios oficiais, na imprensa, nas revistas, nas novelas, nas séries de televisão... E, entretanto, o que significam? Fazemos bem ao usá-las, ao dizer “guerra do tráfico”, ou ao noticiar que El Chapo, Os Zetas ou o Jalisco Nova Geração “controlam uma praça”? Oswaldo Zavala (Cidade Juárez, 1975) diz que não. Um não taxativo.

Los Cárteles No Existen (“os cartéis não existem”, inédito no Brasil), seu novo ensaio, questiona a narrativa oficial construída em torno da violência no México. Pois não há uma guerra entre cartéis, diz Zavala, embora a “guerra entre cartéis” seja uma explicação compreensível, digerível, para as dezenas de milhares de mortos e desaparecidos deixados pelo conflito. É uma isca para o Twitter. Por isso ele diz suposta: suposta guerra, supostos cartéis, supostos líderes de facções criminais. Suposto tudo: “Meu interesse é mostrar que há um discurso que constrói um inimigo que está por toda parte e que é o principal ator da violência. E depois compreender o que há por trás dele, um sistema político que lança mão da linguagem para avançar em estratégias que de outro modo seriam inaceitáveis”.

Pergunta. Se o cartéis não existem, então o que existe?

Resposta. Os cartéis não existem, mas a violência estatal existe. Temos que compreender que estes tempos violentos têm relação com a história do sistema político. O sistema político é a maior condição para a violência no país. A partir da história do Estado podemos compreender o que é isso que chamamos de narcotráfico. A ideia de um cartel é uma ideia recebida, criada pelo discurso de segurança dos Estados Unidos nos anos oitenta, para falar dos traficantes colombianos. E que no México se tornou útil paralelamente a outra narrativa, que permite, de forma muito rápida e simples, nos dar uma ideia concisa sobre a violência. E que permite justificar estratégias estatais.

A verdadeira colombianização não é El Chapo, nem os traficantes atacando a sociedade civil, e sim a resposta do Estado

P. Você distingue três fases nas relações entre os grupos criminais e o Estado. Uma primeira, primitiva, que corresponde ao México anterior à poderosa implantação da Direção Federal de Segurança –o temível órgão de combate à insurgência do Estado controlado pelo partido PRI. A segunda, que nasce com a Operação Condor nos anos setenta e coincide com a organização dos traficantes de Sinaloa em Guadalajara. E depois o desmantelamento da DFS e a perda de poder pelo PRI. E agora?

R. Eu começaria com a Operação Condor. Em 1975 houve a primeira ação militarizada coordenada entre os EUA e o México para atacar o Triângulo Dourado, uma região de cultivos de papoula e maconha entre Sinaloa, Chihuahua e Durango. Cerca de 10.000 agentes chegam ao Triângulo Dourado, queimando e despovoando. Há um êxodo maciço de camponeses para Culiacán, Sinaloa... Isso não volta a se repetir até o Governo de [Felipe] Calderón [2006-12]. Pelo menos não com essa gravidade. A partir daí, o sistema político concebe uma estratégia nacional de gestão do tráfico. Marginaliza os traficantes do poder político e produz a Federação, disciplinada pela DFS e o Exército.

A segunda etapa começa quando se esgota a ameaça comunista global, e os EUA ficam sem inimigo no âmbito da segurança. Cai a União Soviética, e o presidente Reagan recodifica os objetivos de segurança para pensar agora no narcotráfico como a nova agenda de segurança nacional. E isso é feito de um dia para o outro. Até então o tráfico era uma questão policial (...). Embora a agenda de segurança comece em 1989 com CISEB – o serviço secreto, que substitui a DFS –, é com Calderón que o México se colombianiza. Ou seja, a verdadeira colombianização não é El Chapo, nem os traficantes atacando a sociedade civil, e sim a resposta do Estado.

P. Como seus argumentos se ligam a situações como as vividas em Jalisco nos últimos meses, o desaparecimento dos estudantes de cinema e seu assassinato, o atentado contra o ex-promotor em pleno centro de Guadalajara? Se os cartéis não existem, então o que é tudo isso?

R. Parte do problema é este. Queremos respostas rápidas, como o trabalho jornalístico exige. Estamos acostumados a receber uma explicação que nos tranquilize, que nos faça entender a lógica da violência. E isso é parte da maneira pela qual o discurso oficial se instalou na esfera pública com tanta força. Há um tiroteio, pessoas morrem, e imediatamente se significa para nós por meio de porta-vozes oficiais: “É que lá está o Cartel de Jalisco, que além do mais derrubou um helicóptero, e há uma operação para detê-los”. E então todos os jornalistas anotam tudo, foi o cartel, e acabou. Em um país com um índice de impunidade extraordinário, surpreende-me a facilidade com que aceitamos o relato oficial.

Costumamos receber uma explicação que nos tranquilize, que nos faça entender a lógica da violência

P. Suponho então que El Chapo e sua história lhe pareçam a maior das ficções...

R. Totalmente, quando o prendem no apartamento de Sinaloa [em fevereiro de 2014], ele está sozinho com a sua mulher. E um repórter do The New York Times, sobressaltado, diz: “Que loucura, não há túneis, soldados, não está lá o seu exército, e o capturam lá como se fosse a coisa mais normal, incrível!”. Não! Talvez seja a sua realidade! O incrível é que você acredite que ele tem 300 soldados. Quem os viu? Ninguém.

P. Sim. El Chapo é o ator principal desta comédia que você chama de guerra do tráfico, e suponho que a fuga pelo túnel seja sua história favorita [em julho de 2015, as autoridades informaram que El Chapo havia fugido por um túnel de uma prisão de segurança máxima].

R. Não só é inverossímil como também representa um desafio jornalístico. Quem abriu esse túnel? Fiquei fascinado de ver que todo mundo se esmerou em descrever o túnel, como estava ventilado, mas ninguém questionou se havia sido o pessoal do Chapo que o cavou. Sim, noticiou-se que houve ajuda de prisão, que ele corrompeu. Mas a ideia foi dele, e graças a subornos ele conseguiu. Quer dizer, nunca nada fora da narrativa oficial. Continua-se a acreditar que ele é o fator de origem desses eventos. E me parece incrível que se evite dizer que há interesses políticos na sua fuga.

P. Então essa construção teórica que você denuncia serve para tampar casos de corrupção? Ou qual é a intenção? Há uma só, ou várias?

R. Há uma enorme descontinuidade em como essas narrativas do tráfico são utilizadas. Às vezes há recursos naturais no meio, às vezes uma disputa entre grupos de poder. Vejamos o caso de Chihuahua. Lá, são grupos poderosíssimos, aliados com empresários que estão dilapidando a serra, há um enorme extrativismo na serra, coisa que foi noticiada por Miroslava Breach [jornalista assassinada há pouco mais de um ano]. Isto que chamamos de narcopoder na verdade são esses grupos de rapina que se dedicam ao corte de árvores, fazendo muita sacanagem e que se aliam com empresários e políticos, partidários do PRI no caso de Chihuahua, que na transição – o PAN alcançou o Governo estadual pouco antes do assassinato de Miroslava – estavam sendo ameaçados. Que ideia poderia ser melhor do que desestabilizar o Estado logo de saída, criar uma nova guerra e desviar a atenção?

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