Tribuna
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Fortaleza Paquetá

Artistas publicam artigo como parte da exposição Arte-Veículo, em cartaz no Sesc Pompeia

Victor Moriyama

Leia abaixo o texto inédito dos artistas Andreia Pires e Yuri Firmeza. Firmeza é um dos expositores da mostra Arte-Veículo, em cartaz no Sesc Pompeia até 2/12. Como parte da programação, há  intervenções de artistas na mídia, incluindo uma inserção no site do EL PAÍS, nas quais o artista justapõe suas reflexões atuais com suas colaborações para o jornal O Estado de Minas (quadro abaixo), na década passada.

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Um estrondo. Os vizinhos saem à rua. É quase impossível vê-los. O espaço é tomado por uma névoa de poeira densa e vermelha. A laje desabou de modo não planejado. A névoa dissipa-se e dá para ver o rasgo transversal na parede ao lado. A rachadura pós estrondo é também prenúncio. A casa vizinha encontra-se sobre risco de desabamento. Estrategicamente, mais uma vez, não houve planejamento.

É o acerto de contas com uma das campanhas mais caras do Brasil. Há um presentismo do futuro que, certamente, não coincide com os anseios outrora modernos. Mas, quiçá, são também as ruínas que nos acenam. Fortaleza 2040 é hoje.

A parte de uma roupa íntima, os cacos de telhas, a porta quebrada em três partes, o amontoado de tijolos, a roda da bicicleta, um pedaço do vaso sanitário, um guarda chuva, alguns papéis, pedaços de caibro. A maçaneta ainda gira sobre o asfalto quando armados eles chegam. Os rostos pintados de verde e amarelo contrastam com cinza dos destroços sobre o qual eles se posicionam. Em fila, lado a lado, erguem as armas e começam a coreografia. Braço pro lado, perna dobrada, estica, agacha, vai. Bandido bom é bandido morto, posiciona, atira, matou. Levanta, marca, um, dois, girou. Agacha, dois pra frente, parou. Em cima dos escombros dançam “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

— Será possível que não saibam que Deus já morreu?

— Mas queremos…

— Quem?

— Deus, a Fortaleza.

— Digo… Quem queremos?

— A segunda fase do plano, que diz: A segunda fase do Plano buscou debater e definir “A Fortaleza que Queremos” para 2040, em que diversos segmentos da sociedade civil e organizada puderam dar sua opinião sobre a realidade da cidade hoje e da cidade que gostariam.

— Digo, Quem é o “NÓS" que “queremos"?

A cidade não foi inteiramente reduzida a concreto, e as pessoas restantes estão impregnadas de ilusão, formando uma capa ilustrada por cima de seu corpo, como uma caixa de presente cintilante. Aqui e ali, portanto, há pessoas que permaneceram em seus lotes: no cantinho, nos acostamentos, nas raríssimas organizações em condomínios, onde sofás, camas, armários, e caminhadas pelo espaço não existem, pois como afirma o Sr. R.C., ninguém precisa caminhar muito, apenas ter tudo ao seu alcance, isso satisfaz. O prédio comandante está vazio; o meio de transporte principal apresenta dois Chefes, um trabalha com as contas matemáticas, os desenhos e as músicas para animar as festas, o outro produz o cimento importado, mas sua paixão está nas semitransparentes lojas de calçados. O poço e a draga ocupam menos de um terço da superfície desejada, mas já é possível reconhecer os diversos riscos causados pela existência desses dois grupos. A cidade vai existindo sob forma de projeção mirabolante do futuro; seria um quase estado ideal, um plano perfeito para a existência de prédios e elevadores perfeitos. Não há mais reuniões. As vértebras dessa Fortaleza estão visíveis, embora cobertas por camadas de uma massa cinzenta, que endurece e é capaz de permanecer ali por anos e anos. Na altura do sétimo viaduto construído, as partes vivas encontram-se soterradas. Ambos os lados da rua parecem vazias, exceto por conterem um pouco de poeira da última construção, até as moscas foram embora. Os 120 anos da rua Belenzinho foram enfumaçados e carbonizados. Verifica-se um edema. Os negócios todos foram fechados, exceto os três armarinhos da esquina: PAQUETÁ EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA, PAQUETÁ CALÇADOS LTDA E COMPANHIA CASTOR DE PARTICIPAÇÕES SOCIETÁRIAS

As partes mais antigas foram destruídas e não se pode identificar os territórios. Os membros superiores foram colocados lado a lado para continuarem juntos; Capitão Wagner, General Theophilo, Cabo Daciolo, General Mourão, Capitão Bolsonaro. Os membros inferiores, na aparência estão paralisados. Os vizinhos não se enxergam mais.

Restou a Torre Quixadá.

No vigésimo andar do prédio que fica na última esquina antes do mar, diante de um café, um homem de terno cinza e rigoroso cabelo penteado para ao lado direito, em suas mãos um documento cujo sumário pode-se ler:

PAQUETA CALÇADOS LTDA R$ 1.333.000,00

JORGE ALBERTO VIEIRA STUDART GOMES R$ 800.000,00

BERMAS MARACANAU INDUSTRIA E COMERCIO DE COURO LTDA R$ 640.000,00

CONSTRUTORA ANDRADE MENDONCA LTDA R$ 500.000,00

AÇO CEARENSE INDUSTRIAL LTDA R$ 350.000,00

IDIBRA PATICIPAÇOES LTDA R$ 250.000,00

ALEXANDRE GRENDENE BARTELLE R$ 200.000,00

M DIAS BRANCO S.A INDUSTRIA E COMERCIO DE ALIMENTOS R$ 200.000,00

RENCON REPAROS E CONSTRUÇÕES LTDA R$ 200.000,00

CONSTRUTORA SAMARIA LTDA R$ 150.000,00

MACIEL CONSTRUÇOES E TERRAPLANAGENS LTDA R$ 150.000,00

PETROPOSTO COMERCIAL DE DERIVADOS DE PETROLEO LTDA R$ 150.000,00

R FURLANI ENGENHARIA LTDA R$ 150.000,00

CONSTRUTORA LUIZ COSTA R$ 100,00

Inventário de algumas coisas encontradas nas areias de Fortaleza, ao longo dos anos:

- uma camiseta da farda do Colégio José Valdo Ramos

- dois sacos da Mesbla

- um absorvente quase em desaparecimento

- uma ficha para ligações telefônicas

- um sapato Redley amarelo

- um saco de leite Maranguape

- duas presilhas de cabelo azul marinho

- uma garrafa de vidro de Coca-cola

- uma caixa de preservativo da marca Jontex

- três canetas Bic de cor vermelha

- 12 identidades rasuradas

- um raio x do pulmão direito de Luiziane Lins

- uma caixa de Magnopyrol

- um relógio Rolex parado em 12:00h

O eco estrondo.

Andreia Pires é artista. Estuda as dramaturgias do corpo de modo expandido. Yuri Firmeza é artista e professor.

Pensar é esculpir

Yuri Firmeza

Os artistas Miguel Bezerra, Patrícia Gerber e Uirá dos Reis trocam idéias sobre os labirintos do processo de criação

Para o iridologista, um ímã. Para o astrólogo, a lua, em determinada casa, aproximando os planetas. Para a mãe, um aglutinador. Para os amigos, um cara “afetivo”. Para as analistas, uma pessoa porosa. Para Beuys, pensar é esculpir. Acreditei nisso e aqui estou como ponte – apenas “desencapo os fios”. A entrevista abaixo traz momentos da conversa entre três artistas que não se conhecem (ciam): Miguel Bezerra, de Cuiabá; Patrícia Gerber, de São Paulo; e Uirá do Reis, de Fortaleza. O que os aproxima é a intensidade vertiginosa na forma de viver, e todo o resto é só resto, o que não significa que seja menos potente.

Miguel Bezerra – Uirá, gostaria que você comentasse que tipo de experiência a literatura e a poesia lhe proporcionam. Como se dá o seu processo de criação, o que o alavanca, o que ele produz em você? O que o faz sufocar?

Uirá dos Reis – Desde que comecei a compor música, em 2000, passei a ter relação um pouquinho mais suave com a literatura, posto que agora não escrevo todos os dias – acho muito mais relaxante compor. Ainda sou compulsivo quando escrevo, porque não gosto de reescrever, e gosto de escrever textos longos. Então, geralmente só saio da frente do computador quando acabado o texto. Se ruim, jogo fora; se bom, o mantenho, com pinceladas extras aqui e ali, mas no geral não mexo nos textos. Gosto da torpeza que a obsessão traz, gosto de senti-la e de expressá-la no texto. Quando estou escrevendo, nunca é tão consciente assim, claro, mas decerto pensando agora, é isso. O que alavanca a poesia em mim é justo o que me faz sufocar, os temas. Esse "ofício de viver", o amar, o amor, a cidade onde vivo (e que amo e odeio) são temas recorrentes que me sufocam – faço-me mais livre quando os expresso em poemas. Gosto quando você coloca a arte dessa maneira, como algo capaz de nos fazer vislumbrar outras realidades. Acho que a arteme serve tanto para vislumbrar outras realidades como para ajudar a compor esta aqui, modificando-a. Acredito no poder modificador, dentro e fora da arte, embora creia no sentimento de impotência (real) de todos nós diante do mundo. Trazer no peito esses dois sentimentos é tão difícil, às vezes muito triste e frustrante, mas ainda guardo algo de romântico em mim, e penso que, justo por isso, ainda faça arte, não só pela experiência lúdica de alcançar outras possibilidades da mente, mas também por crer na arte como algo modificador.

UR – Miguel, você nos mostrou textos antigos e disse que não está escrevendo. Como você tem se relacionado com a literatura? Por esses dias, para onde escoam a sua criação e a vontade de criação?

MB – De fato, estou numa fase em que minha escrita age no silêncio, como que inventando novas formas de ser. Sempre senti o ato da escrita enquanto necessidade, quando sou obrigado a escrever por uma pulsão de criação de significados a dar sentido a minha vida. Atualmente estou, em um só tempo, em processo de dissolução de minhas formas de sentir e de significar minha vivência e, ao mesmo tempo, na gestação de novas formas, em movimento de desconstrução de todo sentido para inventar outros sentidos que o exercício poético contemple; em um retorcer junto à terra, sem fala, até que novas florações se manifestem novamente. Trata-se aqui de uma vivência no campo do não-manifesto, do não-ato, de um revolver-se junto aos que não nasceram em mim.

Patrícia Gerber – Miguel, qual é o seu ponto de vista sobre a sujeição do pensamento aos textos ditos definitivos, fundamentais? Quanto domínio eles exercem no sentido do surgimento de uma intelectualidade nova e mais profunda (já sugerida por Artaud), que se relaciona com os gestos e signos mais elevados? Enfim, essa sujeição intelectual à linguagem te agrada ou não?

MB – Não acredito nesses tais textos definitivos e fundamentais. Um pensamento que se sujeita a tais textos se trancafia do lado de fora da vida e se faz de museu, cultivando tradições embalsamadas, como diz Tom Zé. Entendo o pensamento enquanto uma espécie de revelação, e tal revelação não pode ser expressa com formas que serviram para embasar antigas revelações; a linguagem pela qual o pensamento se expressa não pode ser mantida por muito tempo se quiser dar conta das forças que esse pensamento contém. Penso que a maneira pela qual o pensamento se faz e se organiza deve estar apta ao movimento de desorganização que a vida exige em seu movimento. Todo apego às formas me parece conduzir a um pensamento que vai se afastando cada vez mais da potência que lhe deu origem.

PG – Uirá, sua composição Vincent (www.myspace.com/sr.hiena) diz: "Temos um verme no peito e ele se alimenta de sentimentos profundos. O que será de nós, de todos como nós, quando esses vermes todos começarem a morrer de fome?". Fale um pouco sobre esses "vermes"e sobre a sua relação com pessimismo.

UR – O texto de Vincent é um trecho de um poema chamado "Van Gogh", em que travo um diálogo com o pintor. Van Gogh, Chico da Silva e Leonilson são os meus prediletos, sempre busco dialogar com eles e suas obras, embora quase nunca tão diretamente quanto nesse poema. Os vermes são apenas uma metáfora para falar da necessidade de sentir a vida mais profundamente. Quando os penso morrendo de fome, estou falando da solidão, de não ter a quem dar a profundidade que habita em meu peito. Sobre o meu suposto pessimismo, penso que alguns temas, como a cidade grande, deixam-me mais pessimista. Não acredito em certas estruturas, e pensar a vida dentro dessas estruturas me deixa um pouco mais triste. Se você ler um poema meu ,"Porque a noite suave não trará em seus olhos a cor descontente de nossos pulmões", você perceberá que sou mais triste do que pessimista. O poema lamenta a existência como ela tem se dado em mim e ao meu redor, numa cidade grande como a minha. No final, diz: "Mudemos a paisagem, crianças / Que precisamos de mais". Não penso nesse poema como pessimista, porque crê na mudança – e pede mudança! Percebo esse poema melancólico como sou, triste, banzo, mas não pessimista.

UR – Patrícia, você se utiliza de um método interessante para compor suas músicas e seus textos. Pelo que entendi, você usa colagens e sobreposições. Fale um pouco mais de seu processo de criação.

MB – Patrícia, senti no seu trabalho uma ruptura com formas prontas de expressão, e, por outro lado, o mergulho em territórios inusitados de sua subjetividade...

PG – A cidade, o corpo, minha casa e os processos são a composição do acúmulo de múltiplas camadas, superfícies e planos de idéia. Essas camadas são tanto do corpo racional como dos afetos – material, vibracional, poético, sensorial –, desse híbrido entre os planos (atrito, junção ou sobreposição), da comunicação entre eles, da reverberação do caos e da indeterminação, um esvaziamento do sentido. Reproduzindo uma máquina, um homem com o coração de isopor, um braço mecânico, um estacionamento de robôs... Penso em como seria se a palavra arte não existisse, assim como todo seu valor e significado. Acho que falaríamos mais abertamente sobre nossas doenças se, caso não soubéssemos seu nome, tivéssemos de fazer maior esforço em descobrir onde dói exatamente,qual órgão... E se não fosse uma dor, e, sim, a própria existência, o simples fato de existir já seria arte. Se considerá-la um produto intelectual, o corpo, um objeto eacasa à venda... Enfim, tudo se transforma em mercadoria e o capitalismo está absolutamente inserido no entorno, causando essa pitoresca paisagem caótica e a esquizofrenia coletiva. A cura, penso que seria acumular camadas num plano sobrenatural, primitivo. Ou da natureza, por ser isso algo realmente incompreensível. Recrio libações, abluções, rituais para sustentar meu corpo, e, nesse lapso de tempo entre processos (momento de profunda concentração interior), encontro espaço para subverter e novamente respirar. O condutor ou o trem fantasma é o próprio lapso que, no caso, chamamos arte.

CONTATOS

Patrícia Gerber: http://www.myspace.com/macacaputa

Uirá dos Reis:

www.myspace.com/srhiena

e

www.myspace.com.mirellahipster1

"Penso em como seria se a palavra arte não existisse"

Patrícia Gerber

"Acredito no poder modificador, dentro e fora da arte"

Uirá dos Reis

"Entendo o pensamento enquanto uma espécie de revelação"

Miguel Bezerra

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Yuri Firmeza é artista plástico

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