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As contradições na trama do brutal assassinato do jogador Daniel

Ex-meia do São Paulo foi morto após uma festa na casa de uma amiga. Pai da menina confessou o crime, após dizer que ele havia estuprado sua mulher. Para delegado, família está mentindo

Daniel durante sua passagem pelo São Paulo, entre 2015 e 2016.
Daniel durante sua passagem pelo São Paulo, entre 2015 e 2016. Divulgação / São Paulo FC

No dia 31 de agosto de 2014, no Maracanã, o Botafogo venceu o Santos por 1 a 0 pelo Campeonato Brasileiro. O único gol da partida saiu aos 18 minutos do segundo tempo, quando o meia Daniel acertou um belo chute de fora da área, sem chances para o goleiro Aranha. Com 20 anos e menos de uma temporada como profissional, o atleta natural de Juiz de Fora, Minas Gerais, já somava gols e atuações promissoras pela equipe carioca. Mas o tento foi o último da carreira de dele. Prejudicado por recorrentes problemas físicos, ele ainda passou por São Paulo, Coritiba, Ponte Preta e São Bento, mas no último dia 27 de outubro, ela se encerrou brutalmente, um dia antes de seu corpo ser achado nu, com o pescoço cortado em dois lugares e o pênis decepado em uma zona rural de São José dos Pinhais, no Paraná.

O crime foi confessado na quinta-feira (1) seguinte, por Edison Brittes Júnior. O homem de 38 anos mora na casa com a mulher, Cristiana Brittes, e a filha, Allana Brittes, onde espancou o jogador após flagrá-lo no quarto com sua esposa, na manhã do sábado (27). Daniel estava na casa por conta da festa de aniversário de Allana. Ao se entregar, no entanto, Edison acusou o atleta de estupro: "Fiz o que fiz para manter a integridade moral e tirei ele de cima dela para evitar que fosse estuprada".

A versão foi endossada pelas duas mulheres, que também foram detidas com o pai, e se sustentou até esta terça-feira (6), quando o delegado da Polícia Civil de São José dos Pinhais e responsável pelo caso, Amadeu Trevisan, revelou o falso depoimento dos acusados: "Eles estão mentindo", disse. "Já conseguimos reconstruir tudo que aconteceu na casa no dia do assassinato". Trevisan também afirmou que o crime poderia ter sido evitado pelos outros suspeitos de ajudar Edison, que ainda estão sendo identificados, e que Daniel "não tinha a menor capacidade de reagir às agressões" por conta da dosagem de álcool encontrada no corpo. A família será indiciada sob suspeita de homicídio qualificado e coação de testemunhas.

"Quem conhecia o Daniel sabia como era seu caráter. Ele era tímido, mas também um cara sensacional. As acusações de estupro são completamente infundadas", defende um primo do jogador que prefere não se identificar. Com a diferença de idade em apenas três anos, esse familiar conta ter crescido com a vítima em Conselheiro Lafaiate, interior de Minas, onde ainda conservavam uma amizade e se encontravam sempre que o atleta visitava a cidade. "Nós jogávamos bola juntos, mas ele era muito melhor. Mesmo como profissional e morando longe, continuava muito próximo da gente [parentes]. Se estava na cidade, nos chamava para sair".

Foto de Allana ao lado de Daniel no aniversário da jovem em 2017.
Foto de Allana ao lado de Daniel no aniversário da jovem em 2017.

A história do brutal assassinato do jogador remete a 2017, quando Daniel disputou seis partidas pelo Coritiba, time da capital paranaense. Enquanto jogava lá, se tornou amigo de Allana Brittes, então uma adolescente da cidade. Conforme revelam posts públicos da jovem, o jogador esteve presente no aniversário de 17 anos dela, comemorado em outubro do ano passado. "Eles ficaram muito amigos no ano passado e ele até conheceu a família inteira dela", conta o primo. Um ano depois, Daniel, de folga do seu clube de Sorocaba-SP por conta de uma lesão, viajou a Curitiba para comemorar a maioridade de Allana. A festa foi da madrugada de sexta (26 de outubro) até a manhã de sábado (27), dia do assassinato, quando o atleta saiu de uma balada na cidade para continuar bebendo com os amigos na casa da aniversariante.

É na casa de Allana, onde também estavam os pais Edison e Cristiana, que a história ganha versões conflitantes. Conforme mostram prints tirados de uma conversa com um amigo no WhatsApp, às 8h15 da manhã Daniel revelou a intenção de se arriscar na casa: “Vou comer a mãe da aniversariante. E o pai tá junto”. Daniel foi até o quarto da mãe, que já estava deitada na cama —o marido não estava no quarto— e mandou imagens para o conhecido ao lado da mulher desacordada. 15 minutos depois, outra mensagem: “Comi ela, moleque”, com a foto de ambos deitados. "Os prints da conversa dele no WhatsApp são verdadeiros", confirma o familiar. O jogador parou de responder às 8h36. A partir desse momento, ele teria sido flagrado no quarto ao lado da mulher por Edison e espancado pelo marido e mais três pessoas. De lá, foi levado ao porta-malas do carro do dono da casa, que também portava uma faca. O corpo, mutilado, só foi achado no domingo.

Durante o período de sumiço, no final de semana, Allana esteve em contato com a mãe de Daniel, uma tia e um amigo do jogador. A eles, segundo mostram prints de conversas no celular revelados pela família, trouxe a versão de que o atleta foi até a sua casa após a balada, onde teria ficado o tempo inteiro no celular e saído, andando normalmente, depois das 8h da manhã. A menina negou que qualquer briga tivesse acontecido. Quando foi avisada sobre a morte do jogador, se disse chocada e se prontificou a reconhecer o corpo no IML local. Allana ainda prestou homenagens a Daniel em sua rede social. Em vídeo divulgado posteriormente pela TV Bandeirantes, a jovem se contradiz ao reformular sua versão dos fatos; segundo ela, teria visto a tentativa de estupro de Daniel com Cristiana Brittes após ouvir uma "gritaria" vinda do quarto, contemplando a versão de defesa do pai. Mesmo com a foto pública do seu aniversário de 17 anos ao lado do meia, ela afirmou que o conhecia "há menos de um ano". "Achávamos que ela não era parte disso, mas aí vimos que estava encobrindo o pai. Teve muito sangue frio", opina o parente.

Parentes de Daniel ainda revelam que, dois dias antes da confissão, Edison ligou para a mãe de Daniel "desejando condolências e prometendo ajudar na investigação", sem revelar o assassinato.  O pai se viu obrigado a confessar depois que uma testemunha da briga na casa dos Brittes foi até a delegacia para denunciar que Edison teria reunido e ameaçado os presentes durante a agressão para persuadi-los a contar uma versão alterada dos fatos. A testemunha foi a primeira a confirmar a gritaria no quarto onde Cristiana estava e a surra em Daniel.

"As mentiras vão desmascarar ele [Edison]", torce o familiar. Edison, Cristiane e Allana seguem presos em São José dos Pinhais. A Polícia Civil irá ouvir outras testemunhas nesta terça-feirae o depoimento do autor do crime na quarta. Os outros suspeitos que presenciaram o espancamento ainda são procurados. A faca do crime, as roupas e o celular do Daniel ainda não foram encontrados.

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