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Morre o intelectual e opositor venezuelano Teodoro Petkoff

O fundador do jornal venezuelano 'Tal Cual' e ganhador do Prêmio Ortega y Gasset de 2015 estava com 86 anos

Teodoro Petkoff em uma imagem de maio de 2015.
Teodoro Petkoff em uma imagem de maio de 2015. EFE

O político, economista e fundador do jornal venezuelano Tal Cual, Teodoro Petkoff, morreu nesta quarta-feira aos 86 anos, conforme informou esse órgão de imprensa, sem esclarecer as causas da morte do renomado jornalista. Petkoff recebeu em 2015 o prêmio de jornalismo Ortega y Gasset, em sua residência em Caracas, das mãos do ex-chefe do Governo espanhol Felipe González porque naquela época pesava sobre ele a proibição de sair do país.

Filho de imigrantes europeus e nascido em uma área rural do sul do Lago de Maracaibo (Venezuela), Teodoro Petkoff se tornou um dos líderes mais populares da Juventude Comunista no início dos anos 1960. Era notável por sua ousadia, e não só na luta da guerrilha que procurava imitar na Venezuela o triunfo dos barbudos de Fidel Castro em Cuba. Depois de ser preso em 1963, protagonizou uma das fugas mais espetaculares da história política local, quando fingiu estar doente e foi transferido para o Hospital Militar de Caracas, de onde desceu de um sétimo andar com lençóis amarrados.

Petkoff fundou o Movimento ao Socialismo (MAS), uma facção revisionista que precedeu a onda eurocomunista em voga na época. Seu grande amigo Gabriel García Márquez doaria ao novo partido os 100.000 dólares (370.000 reais) do Prêmio Rómulo Gallegos recebido em 1972 por seu romance Cem Anos de Solidão. Petkoff seria, em três ocasiões, candidato presidencial pelo MAS. Entre 1996 e 1998 foi ministro do Governo de centro-esquerda do social-cristão Rafael Caldera, que o MAS apoiou. Não seria sua última mutação. Homem de ação e pensamento, figurou durante anos como um aguerrido colunista de imprensa. Em 1998, ele assumiu a direção de El Mundo, um vespertino que definhava, mas que conseguiu reviver com manchetes que se destacavam e novos jornalistas.

Para o chavismo que chegava ao poder, Petkoff se tornou um incômodo, uma fonte de irritação. Sem papas na língua, sua crítica era especialmente dura ao partido no poder. As pressões do presidente Hugo Chávez conseguiram fazer com que Petkoff deixasse El Mundo.

O tabloide Tal Cual, que ele fundou depois, se tornou um caso de estudo. De circulação limitada, tinha como capa seus editoriais. O filé mignon do jornal era o jornalismo de denúncia, puro e firme. O bolivarianismo se empenhou em sufocá-lo. Inúmeros processos e sanções assediaram o jornal.

O poder, implacável, continuou sitiando Tal Cual. A empresa chegou a ser alvo de até 10 ações judiciais. O mais indignado dos queixosos, Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional e número dois do chavismo, conseguiu, após um artigo opinativo, impor uma multa pesada e forçar Petkoff e outros executivos do jornal a se apresentarem semanalmente em um tribuna e serem proibidos de deixar o país. O regime pôde assim, finalmente, quebrar Tal Cual, que parou de circular em março de 2015 e tentou se tornar um semanário digital. O irredutível Teodoro Petkoff resistiu, em suas palavras, em uma prisão doméstica virtual, dizimado pelas enfermidades da idade e a animosidade da hierarquia revolucionária.

Mensagem de Teodoro Petkoff no Prêmio Ortega y Gasset de 2015.

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