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ANÁLISE i

O presidente que quer fugir dos partidos, mas que ainda depende deles

Jair Bolsonaro tentará compor sua Esplanada dos Ministérios sem ouvir caciques partidários. Teste de fogo começa já na transição

Eleitores de Bolsonaro comemoram a vitória na Esplanada dos Ministérios, em Brasília.
Eleitores de Bolsonaro comemoram a vitória na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. EFE

Há quatro anos, Jair Bolsonaro diz que, se eleito presidente, não aceitaria indicações políticas para as principais funções de seu Governo. Ao garantir o cargo por meio das urnas neste domingo (com 55% dos votos válidos), o capitão reformado do Exército já enfrentará seu primeiro teste de fogo durante o período de transição. As sinalizações que dará aos 30 partidos que compõem o Congresso Nacional demonstrarão qual será o tamanho de sua base parlamentar e, principalmente, se conseguirá aprovar suas polêmicas propostas. Entre elas, a redução da maioridade penal, o relaxamento nas regras para o porte de armas de fogo, a restrição da Lei Rouanet e uma eventual reforma da Previdência.

Alguns de seus aliados dizem que hoje ele teria o apoio de até 200 deputados federais e de ao menos 30 senadores. O número é alto, para quem é de um partido até então nanico, o PSL, e que se coligou com outra legenda minúscula, o PRTB, para disputar a eleição. Mas é pouco para quem almeja aprovar qualquer projeto relevante no Legislativo. A maioria das propostas precisam de pelo menos 257 votos de deputados federais e, no caso de emendas constitucionais, são necessários 308.

A tese de Bolsonaro é que basta ele se aproximar de frentes parlamentares para assegurar o suporte necessário para governar. Já garantiu, por exemplo, o apoio de três delas, a da bala, a da bíblia e a do boi. Ou seja, segurança pública, cristãos e ruralistas.

Na concepção do presidente eleito, as siglas pouco influenciam os votos e, sem ideologia partidária no Brasil, dificilmente forçariam os seus filiados a seguirem suas orientações. No papel parece que vai funcionar. Só faltou combinar com os caciques partidários. Principalmente os do centrão, um grupo que reúne 142 deputados federais eleitos que não se enquadram nem na esquerda (opositora de Bolsonaro) nem na direita. Essa é das facções mais fisiológicas da política brasileira e que deu sustentação a todos os presidentes eleitos desde 1989. Quando esse apoio se esvaiu ou o presidente sofreu impeachment ou nada mais aprovou.

Três lideranças do centrão ouvidas pelo EL PAÍS dizem que deixar de negociar com os partidos é a receita do insucesso. “Ele até pode atropelar os partidos em uma ou outra votação. Mas em todas, não conseguirá. Os filiados serão enquadrados rapidamente e, sem o apoio do partido, ele perde o comando em seu Estado, perde espaço na mídia, perde dinheiro. Ou seja, deixa de ser um político influente”, afirmou um desses caciques.

Outra dessas lideranças disse que os seis primeiros meses de mandato Bolsonaro serão fundamentais para definir qual papel ele desempenhará. “Se ele conseguir aprovar seus projetos, seguirá em uma onda difícil de parar. Mas sinto que ele terá dificuldade porque sempre foi uma pessoa de difícil trato. Não aceita muitas opiniões contrárias a dele. Temo que ele possa até fechar o Congresso”, disse outro parlamentar que o conhece há quase 20 anos.

Além das nomeações que fará para sua Esplanada, as disputas pela presidência da Câmara e do Senado também servirão de norte para o tamanho do apoio que terá. Por mais que diga que não quer influenciar no Legislativo, que respeita os outros Poderes, qualquer presidente quer ter seus aliados no comando do Congresso. São eles quem definem a pauta de votações.

No caso da Câmara, a tendência é que o grupo de Bolsonaro apoie o nome de Rodrigo Maia (DEM-RJ), que deverá se lançar à reeleição. A dificuldade maior será no Senado. Nesta casa, o PSL elegeu apenas quatro senadores, duas são outsiders eleitas por colarem suas imagens à do capitão (Selma Arruda e Soraya Thronicke), um é o radical deputado paulista Major Olímpio Gomes e o terceiro é Flávio Bolsonaro, filho do presidente eleito. Não há um nome forte a apoiar. Do outro lado, seus opositores deverão lançar Renan Calheiros (MDB), um dos poucos caciques que conseguiram se reeleger mesmo com a onda que varreu uma série políticos profissionais como ele.

O confronto entre discurso e prática também passará pela redução do número de ministérios. As platitudes que lançou na campanha, a ausência de propostas claras para a economia e o tom bélico contra seus opositores serão pontos pelos quais será cobrado em toda a sua gestão. A primeira promessa feita em rede nacional —a de que “esse Governo será um defensor da Constituição, da democracia e da liberdade”—sem dúvida também o será. Afinal, ele precisou ser eleito, para finalmente se declarar um defensor da Carta Magna.

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