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Filho de Bolsonaro ameaça STF e diz que para fechar corte basta “um soldado e um cabo”

Declarações, feitas em julho em um cursinho, provocam repúdio. FHC diz que há "cheiro de fascismo"

O deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidenciável Jair Bolsonaro, ameaçou os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) caso eles decidam fazer algum tipo de questionamento à candidatura de extrema direita do PSL. "Se o STF arguir qualquer coisa... Sei lá, que recebeu uma doação ilegal de 100 reais do José da Silva... E impugna a candidatura dele... Eu não acho isso improvável, mas aí vai ter que pagar para ver. Será que eles vão ter essa força mesmo?", questiona o deputado, em vídeo que começou a circular pelas redes sociais neste domingo. "O pessoal até brinca que para fechar o STF você não manda nem um jipe, manda um soldado e um cabo. Se você prender um ministro do STF, você acha que vai ter uma manifestação popular?". O Supremo ainda não se pronunciou oficialmente sobre a ameaça.

Em texto publicado em seu perfil no Facebook na tarde deste domingo, o deputado esclareceu que o vídeo foi gravado há quase quatro meses e pediu desculpas. "Eu respondi a uma hipótese esdrúxula, onde Jair Bolsonaro teria sua candidatura impugnada pelo STF sem qualquer fundamento. De fato, se algo desse tipo ocorresse, o que eu acho que jamais aconteceria, demonstraria uma situação fora da normalidade democrática. Na sequência citei uma brincadeira que ouvi de alguém na rua", afirmou. Mais adiante acrescentou: "Tenho a consciência tranquila e o momento é de acalmar os ânimos, que muitas das vezes é inflado propositalmente para se criar uma atmosfera de instabilidade. Se alguém defender que o STF precisa ser fechado, de fato essa pessoa precisa de um psiquiatra. Eu jamais falei isso".

O presidenciável Jair Bolsonaro já havia declarado horas antes a jornalistas que não existe a possibilidade de o Supremo ser fechado, segundo informou a Folha de S. Paulo. "Se alguém falou em fechar o STF, precisa consultar um psiquiatra", afirmou o candidato, que naquele momento garantiu desconhecer o vídeo e disse duvidar que seu filho tenha feito tal afirmação. "Alguém tirou de contexto". Já a ministra Rosa Weber, que também é presidenta do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), declarou ter conhecimento do vídeo, assim como de sua desautorização por parte de Jair Bolsonaro. "De qualquer sorte, embora não seja a presidente do STF, e sim do TSE, [quero dizer que] no Brasil as instituições estão funcionando normalmente". Ela disse ainda que os juízes no Brasil "não se deixam abalar por qualquer manifestação que eventualmente possa ser compreendida como inadequada".

A ameaça ao Supremo foi feita durante uma aula na AlfaCon Concursos Públicos, que oferece cursos preparatórios para os que almejam trabalhar na Polícia Federal e outras instituições públicas. O vídeo de sua fala foi publicado em julho deste ano no canal do Youtube do curso preparatório. "Sendo eleito no primeiro turno, há possibilidade de o STF criar uma previsibilidade para agir e impedir que seu pai assuma? E, isso acontecendo, o Exército pode agir sem ser invocado, salvo engano, o artigo 1º?", perguntava um participante da aula. Eduardo Bolsonaro, que é policial federal e foi reeleito deputado federal por São Paulo neste ano com 1,8 milhão de votos, tornando-se o mais votado da história, começou respondendo o seguinte: "Aí está caminhando para um estado de exceção, né. O STF vai ter que pagar para ver. E aí quando ele pagar para ver, vai ser ele contra nós. Você está indo para um pensamento que muitas pessoas falam e muito pouco pode ser dito".

O vídeo ascendeu novamente os temores de uma possível escalada autoritária no país. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que costuma ser cauteloso, afirmou que as declarações sobre o STF "cruzaram a linha, cheiram a fascismo". Segundo informou o jornal O Globo, Fernando Haddad, candidato a presidente do PT, disse durante uma entrevista em São Luís, no Maranhão, que "esse é pessoal é uma milícia", em referência à família de seu adversário. "Não é um candidato a presidente. É um chefe de milícia. Os filhos deles são milicianos, são capangas. É gente de quinta categoria".

O EL PAÍS também telefonou para a sede da AlfaCon em Cascavel (Paraná), onde a aula foi realizada, segundo consta na descrição do vídeo. O homem que atendeu a ligação disse que um responsável só poderia falar com a reportagem a partir de segunda-feira, mas, antes de interromper bruscamente a ligação, acusou este jornal de ser "tendencioso" e "de esquerda".

O TSE vai investigar se empresas bancaram ilegalmente o envio de milhares de mensagens por WhatsApp para favorecer a candidatura presidencial de Jair Bolsonaro (PSL), conforme publicado em reportagem da Folha de S. Paulo. O PDT, partido de Ciro Gomes, que ficou em terceiro lugar na eleição presidencial, também entrou com uma ação no TSE na qual pede a anulação da eleição presidencial, por abuso de poder econômico por parte de Bolsonaro. Já a campanha de Haddad protocolou uma representação na qual pede a investigação do caso e a cassação do registro de Bolsonaro.

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