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Real Madrid busca o próximo galático no Brasil

Vinícius Júnior e Rodrygo, contratados por mais de 90 milhões de euros, simbolizam o empenho do clube em encontrar no país o próximo grande talento mundial

Vinicius Júnior pela equipe sub-20 do Brasil.
Vinicius Júnior pela equipe sub-20 do Brasil.Osvaldo Villarroel (EFE)

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Nas últimas noites de sábado e de segunda-feira ocorreu um fato inédito na TV do Real Madrid. O canal oficial do clube interrompeu sua programação para transmitir ao vivo dois jogos dos quais o clube espanhol não participava. O motivo não era outro senão exibir juntos, pela primeira vez, Vinícius Júnior (18 anos) e Rodrygo (17 anos), os dois garotos brasileiros contratados pelo clube por mais de 90 milhões de euros (384 milhões de reais). Os garotos foram promovidos pelo Real de uma forma poucas vezes vista. O segundo jogo entre as seleções sub-20 do Brasil e do Chile foi divulgado até na mídia impressa, com um anúncio de página completa. Não era para menos. Os atacantes são um dos investimentos mais ousados de Florentino Pérez em seus 15 anos como presidente do clube.

Quem afirma são aqueles que participam há anos da gestão dessas operações. A contratação de Vinícius e Rodrygo responde a um objetivo prioritário do dirigente: descobrir o novo talento do futebol mundial. Juntamente com José Ángel Sánchez, seu diretor-geral, Pérez considera que o Brasil é o mercado com maiores probabilidades de produzir um jogador de futebol assim. Os dois principais dirigentes do clube consideram há uma década que o Brasil é o melhor celeiro de jogadores do mundo e por isso o Real Madrid tem a obrigação de se concentrar em captar talentos no país. A missão foi entregue a Juni Calafat, chefe de futebol internacional do clube madrilenho.

Nascido na Espanha, mas criado em São Paulo, Calafat foi contratado em 2014 como olheiro na América do Sul. Chegou ao Real Madrid avalizado por seu conhecimento e sua ampla rede de contatos no mercado brasileiro. Vinícius e Rodrygo são suas grandes apostas, para o bem e para o mal. Seu prestígio e seu alto cargo na hierarquia esportiva do Real Madrid dependem de que os dois atacantes cumpram as previsões depois de várias operações fracassadas, como a do meio-campista Lucas Silva e a do lateral Abner. Os dois jogadores retornaram ao futebol brasileiro. O volante, contratado em janeiro de 2015 por 15 milhões de euros (64 milhões de reais), continua vinculado ao clube, que paga parte de seu salário no Cruzeiro. O lateral, apontado em 2014 como o substituto a médio prazo de Marcelo, esteve a ponto de abandonar o futebol após três lesões graves no joelho, e atualmente joga no Coritiba.

Calafat acertou também a contratação de outros quatro jogadores: Willian José, Pablo, Augusto Galván e Rodrigo Rodrigues. Os dois primeiros jogaram por empréstimo no Real Madrid Castilla, filial do clube madrilenho, entre janeiro e junho de 2014: Galván, contratado do São Paulo por 4 milhões de euros (17 milhões de reais), faz parte do elenco do Castilla, treinado por Santiago Solari, e Rodrigo é integrante do Juvenil A. Além disso, Calafat teve um papel fundamental na chegada do norueguês Martin Odegaard e esteve muito perto de acertar a chegada de Gabriel Jesus, que acabou assinando com o Manchester City.

Os dirigentes do Real Madrid consultados pelo EL PAÍS a respeito dos motivos do empenho estratégico em buscar jogadores no mercado brasileiro preferem não responder publicamente e repassam a pergunta ao departamento de comunicação. Este, por enquanto, também não respondeu. A situação é delicada. O investimento supera os 100 milhões de euros (427 milhões de reais), valor revelado pela imprensa brasileira, mas não divulgado oficialmente pelo clube. Florentino Pérez e sua equipe compreendem que um erro de cálculo seria extremamente complicado de justificar para a torcida.

Fora dos microfones, as pessoas consultadas que estiveram direta ou indiretamente vinculadas a essas operações afirmam que o Real Madrid defende a atual política de contratações como o único caminho possível para competir no curto prazo com o PSG e com as grandes potências da Premier League em um mercado que não para de inflar os preços. Só a antecipação garante a possibilidade de conseguir um superjogador por um preço acessível e evita que volte a ocorrer um caso como o de Neymar, que aos 14 anos chegou a fazer um teste no Real Madrid, mas acabou voltando para o Brasil.

Quanto a Rodrygo, que continua jogando no Santos, as fontes são otimistas. Dentro do clube, as avaliações sobre Vinícius são mais ponderadas. “No mano a mano, Vinícius tem uma capacidade de driblar o adversário como nenhum outro jogador de 18 anos no mundo atualmente”, diz uma fonte do Real Madrid sob condição de anonimato. “É provável que ainda não esteja preparado para jogar regularmente na La Liga porque ainda não tem os conhecimentos táticos necessários para o futebol europeu. Mas isso é normal. Tem apenas 18 anos e está em idade de aprender. Se for capaz de desenvolver seu talento, o investimento estará perfeitamente justificado.”

Rodrygo pela seleção brasileira sub-20.
Rodrygo pela seleção brasileira sub-20.ELVIS GONZALEZ (EFE)

Vinícius e Rodrygo são dois jogadores que forjaram sua reputação nos campeonatos juvenis e profissionais da América do Sul. Pretendido também pelo Barcelona, o segundo optou pelo Real Madrid depois de uma visita do próprio Calafat. O atacante de 17 anos já disputou 34 jogos oficiais pelo Santos e marcou sete gols. Vinícius foi contratado antes. O clube madrilenho se empenhou em sua contratação depois que ele foi o melhor jogador e o artilheiro do Campeonato Sul-Americano de Futebol Sub-17 disputado em março de 2017. Estreou no Flamengo, seu clube de formação, em maio daquele mesmo ano, e abandonou o Brasil assim que completou 18 anos, com uma bagagem de 49 jogos oficiais nos que marcou 10 gols e deu 4 assistências.

Quando ele chegou à Espanha, o Real Madrid preferiu intercalar o time principal com o Castilla para facilitar sua integração. Dirigentes do clube acreditam que a terceira divisão é uma excelente escola para que o jogador se adapte ao futebol europeu, onde é mais importante ter continuidade dentro do campo, com e sem a bola. Vinícius disputou quatro jogos e sua atuação foi decisiva em dois deles. Fez três gols, deu outro de presente e conquistou o apoio de seus companheiros. Ao contrário do que aconteceu com Martin Odegaard, o brasileiro foi recebido sem receio por seus companheiros do Castilla.

Adaptação na terceira divisão

Seus rivais na terceira categoria do futebol espanhol o veem como um jogador diferente. “Estou acostumado a enfrentar outros tipos de atacantes, que atacam e defendem. A diferença que vi é que às vezes ele desaparece da jogada. Ele se isola, mas a bola sempre chega até ele. Ele deixa de lado o trabalho de defesa para estar bem no ataque, onde vimos que é impossível pará-lo”, explicou Piojo, capitão do Unionistas de Salamanca, seu marcador no jogo contra o Castilla. Fora o derby contra o Atlético de Madrid, no qual sofreu mais de 10 faltas, Vinícius não teve problemas. “Em todos os lances ele foi muito humilde. Conversamos durante a partida. Eu lhe perguntei se poderia me dar a camisa no final do jogo, e ele me deu”, contou Piojo.

“É um garoto com muito talento e o clube está cuidando dele para que nos dê muitas alegrias”, disse Santiago Solari depois do último jogo de Vinícius na terceira divisão, em 23 de setembro, contra a Cultural Leonesa. “Temos de prepará-lo e acompanhá-lo para gerar as melhores condições para ele. Tem 18 anos e está se adaptando. Queremos que possa desenvolver seu potencial o quanto antes”, havia assinalado o treinador argentino do Real Madrid Castilla algumas semanas antes, quando Vini, como é chamado em Madri, estreou na categoria.

No time, a expectativa é a de que o atacante se estabeleça definitivamente na elite o mais rápido possível. O treinador do Real Madrid, Julen Lopetegui, mostra-se mais resistente, mas enquanto Rodrygo espera no Brasil, a pressa com Vinícius já está aumentando no clube madrilenho.